Bloomberg Línea — A vinícola chilena Tarapacá é uma das maiores do mundo e vende cerca de 900 mil caixas de nove litros por ano. São mais de 10 milhões de garrafas preparadas com diferentes uvas e estilos e vendidas em mais de 50 países.
Mas o centro das atenções do enólogo-chefe, Sebastián Ruiz, na última década, se desviou do imenso volume consolidado para pensar em uma pequena produção especial, de apenas 7.000 garrafas de perfil mais premium por ano.
Trata-se da estreia da vinícola chilena no mercado de vinhos ícones, rótulos de alta gama que mostram todo o potencial de qualidade da vinícola - e que alcançam também os preços mais altos. A ideia é entrar no mercado já consolidado por marcas como Don Melchor e Almaviva.
“Em algum momento, a Viña Tarapacá precisava ter um ícone”, explicou Ruiz em entrevista à Bloomberg Línea durante visita a São Paulo para o lançamento mundial do Etiqueta Dorada. O novo rótulo é preparado com Cabernet Sauvignon do Vale do Maipo, tem preço sugerido de R$ 790, e pretende ser o vinho mais importante da vinícola.
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A decisão de subir ao topo da pirâmide dos vinhos não nasceu de uma ambição apenas enológica, mas de uma mudança estrutural na economia chilena e na produção de vinhos no país, explicou Ruiz.
Durante décadas, o vinho chileno construiu sua presença internacional apoiado em uma combinação difícil de ser igualada por concorrentes. Custos baixos de produção, escala e preços competitivos permitiram ao país conquistar consumidores em mercados como Reino Unido, Estados Unidos e Brasil.
Esse modelo, porém, começou a mostrar sinais de esgotamento, e os produtores chilenos passaram a focar mais em tentar aumentar a qualidade e os preços dos seus vinhos. O vinho barato, que sempre impulsionou a indústria local, está deixando de ser uma possibilidade para muitos produtores chilenos, segundo ele, e é importante focar menos em volume e mais em margem.
“Há 20 anos, as vantagens comparativas ou competitivas do Chile eram muito boas. Havia uma mão de obra mais barata, energia elétrica mais barata, insumos mais baratos. Mas hoje essas razões pelas quais podíamos fazer vinhos baratos já não existem”, disse Ruiz.
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Sem a antiga vantagem de custos, a saída foi buscar margem. “É muito importante fazer vinhos de alta gama, primeiro pela rentabilidade do negócio, e também porque queremos nos posicionar como uma vinícola de qualidade”, explicou.
Para ele, o movimento sustenta todo o portfólio. “Se você é forte embaixo e não constrói para cima, no final é só uma questão de preço. É muito importante gerar uma pirâmide de qualidade, porque tudo se beneficia.”

O projeto não foi rápido. “É uma ideia que começamos a pensar há 12 anos”, contou Ruiz. Nesse período, a vinícola realizou mais de 300 escavações de solo e microvinificações sucessivas no Fundo Tarapacá, propriedade que pertence à empresa desde a fundação, em 1874, até isolar duas parcelas de 1,5 e 1,8 hectare com vinhas de 30 anos plantadas em pé franco, sobre solos vulcânicos formados há cerca de 140 milhões de anos. A primeira safra, de 2023, recebeu 97 pontos e o título de Vinho Revelação do guia Descorchados 2026.
O estilo escolhido foi um risco calculado. Em linha com o mercado contemporâneo e ao contrário dos vinhos de mais alta gama da vinícola até então, o foco passou a ser mais o frescor e a leveza do que fazer uma bebida encorpada e cheia de carvalho.
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O Etiqueta Dorada passa 16 meses entre foudre de carvalho austríaco, tanques de concreto e uma pequena parcela de barricas usadas, com colheita antecipada para os dias 7 e 8 de março.
“Um ícone não necessariamente tem que ser muito dominado pela madeira, porque senão você começa a ficar muito parecido com os outros”, disse Ruiz, que admitiu precisar convencer importadores e consumidores acostumados a rótulos de topo mais marcados pelo carvalho.
O peso do Brasil
O Brasil, maior destino das suas exportações, foi escolhido como o primeiro país a receber o Etiqueta Dorada, que chegou no primeiro semestre com distribuição exclusiva da importadora Épice.
Das 900 mil caixas anuais da Tarapacá, cerca de 200 mil têm o Brasil como destino, mais de um quinto da produção. “O país onde mais se vende Gran Reserva é o Brasil. Isso também fala do poder aquisitivo, do que o consumidor está disposto a pagar”, disse o enólogo.
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Enquanto as exportações chilenas para China, Japão e Estados Unidos caíram com força nos últimos anos, “o mercado brasileiro tem sido bastante mais resiliente do que outros mercados em relação à queda do consumo de álcool”, contou.
A operação local se apoia na parceria de mais de 36 anos com a Épice. “Quando você já tem uma marca consolidada que oferece qualidade a um preço acessível, as pessoas se fidelizam à marca. E foi isso que aconteceu no Brasil com a Tarapacá”, explicou Ruiz.
O ícone convive com um negócio de volume que segue intocado. Nos vinhos de entrada, “a rentabilidade está no volume. Então é muito importante manter a escala”, disse Ruiz, lembrando que essas linhas são as mais sensíveis a variações de juros, câmbio e custos de energia.
Para o Etiqueta Dorada, o plano é de paciência. “Vamos nos manter absolutamente nesse volume. É consolidar o Etiqueta Dorada, explicar o Etiqueta Dorada, degustar o Etiqueta Dorada, para que as pessoas o conheçam, e assim possamos manter o preço”, disse Ruiz.
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