Resistência e balcão de negócios: Naturebas se consolida como vitrine do vinho natural

Evento em São Paulo criado para difundir o consumo consciente reúne quase 200 produtores, vê acordos com importadores e se torna reconhecido como porta de entrada para marcas internacionais no mercado regional

Resistência e balcão de negócios: Naturebas se consolida como vitrine do vinho natural
Por Daniel Buarque

Bloomberg Línea — A maior feira de vinhos naturais da América Latina nasceu como evento para reunir apaixonados pela bebida sem intervenção, para experimentar rótulos de todo o mundo e defender o estilo como parte de um movimento de consumo consciente, e não como apenas um produto de prateleira. Este posicionamento, em vez de afastar o mercado, atraiu negócios.

E a Feira Naturebas, que ocorre neste fim de semana em São Paulo, se tornou um dos principais pontos de negócios da categoria na região, com a presença de um número crescente de empresas, inclusive estrangeiras, em busca de parceiros comerciais.

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“Hoje, a Naturebas é muito mais do que um festival de degustação. Ela se consolidou como uma plataforma internacional de negócios”, disse Lis Cereja, organizadora do evento e uma das pioneiras do movimento de vinhos naturais no Brasil em entrevista à Bloomberg Línea.

Este resultado não é uma contradição, e o posicionamento filosófico não impede que a feira opere como plataforma comercial. Para muitos no movimento, é justamente a filosofia que lhe dá credibilidade junto a produtores e importadores. “Mais de 30% dos produtores que participam da feira sem representação no país acabam saindo com contratos de importação ou distribuição firmados”, disse Cereja.


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Nesta edição, segundo a organização, o evento recebe o maior número de produtores estrangeiros de sua história, muitos vindo ao Brasil com o objetivo específico de encontrar parceiros comerciais.

O segmento ainda representa menos de 10% do mercado global de vinhos, mas movimentou entre US$ 10 bilhões e US$ 11 bilhões no mundo em 2023, com projeção de chegar a US$ 27 bilhões até o fim da década.

E a expectativa para a feira deste ano é que os vinhos naturais se expandam além dela. “Não acredito que exista um teto para os vinhos naturais porque, para mim, eles não constituem uma categoria de mercado”, disse a organizadora.

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A avaliação é coerente com a função econômica que o evento assumiu. Criada em 2013 com 20 expositores e cerca de cem visitantes, a feira hoje reúne perto de 200 produtores e quase 3.000 visitantes ao longo de dois dias, e funciona como porta de entrada para importadores e distribuidores que buscam o mercado latino-americano.

Parte da relevância conquistada pela Naturebas, segundo Cereja, está ligada ao papel que a feira desempenhou na formação do próprio mercado brasileiro de vinhos naturais.

Leia também: Vinho natural vai ao mercado: tendência movimenta bilhões e ganha força no Brasil

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Em um período em que conceitos como vinhos orgânicos, biodinâmicos e de mínima intervenção ainda eram pouco conhecidos no país, a organizadora afirma que a feira e a Enoteca Saint VinSaint ajudaram a aproximar consumidores, produtores e importadores e a criar um espaço para a categoria ganhar visibilidade. O resultado foi a ampliação das oportunidades para pequenos produtores e a criação de uma rede de negócios que hoje conecta participantes de diferentes países.

Operada por apenas três pessoas, a feira esgota os ingressos e deixa interessados de fora todos os anos. “A escolha foi preservar o caráter mais próximo e humano do evento”, disse a organizadora.

O filtro é manual. “Sou eu quem seleciona cada produtor individualmente, analisando não apenas selos e certificações, mas também a história, os valores e o percurso sustentável de cada projeto”, contou.

Num mercado sem certificação única e consensual para o vinho natural, essa curadoria pessoal virou o principal ativo da marca Naturebas e o que sustenta seu poder de atrair produtores dispostos a cruzar o oceano em busca de um distribuidor.

Leia também: Por que o Brasil entrou no radar de grandes produtores de vinhos do mundo

Resistência à contração

O crescimento da feira acontece na contramão do setor de bebidas alcoólicas. O avanço da categoria, na visão da organizadora, acompanha uma transformação mais ampla no comportamento dos consumidores.

O consumo global de álcool caiu cerca de 2% em 2025, e o vinho recuou 4% em volume, segundo a consultoria IWSR, que projeta queda de 14% no volume mundial da bebida até 2035. O que avança é o eixo oposto, ligado a saúde, bem-estar e consumo consciente, um mercado que o Global Wellness Institute estimou em US$ 6,8 trilhões em 2024.

É nesse vetor que o vinho natural se encaixa, o que ajuda a explicar por que a categoria ganha espaço enquanto a bebida, de modo geral, recua.

Cereja relaciona o interesse crescente pelos vinhos naturais ao aumento da preocupação com temas como saúde, bem-estar, sustentabilidade e origem dos alimentos. Segundo ela, o consumidor passou a buscar produtos mais transparentes e a prestar mais atenção aos impactos ambientais e sociais das suas escolhas de consumo, movimento que também impulsiona mercados ligados à agricultura orgânica e ao chamado consumo consciente.

Para os organizadores, esse avanço tem fundo conceitual. “O vinho natural faz parte de um movimento de resistência muito maior do que um simples estilo de vinho”, disse Cereja.

Essa mudança de comportamento ajuda a explicar por que os vinhos naturais seguem ganhando espaço mesmo em um contexto desafiador para a indústria de bebidas alcoólicas. Para Cereja, o vinho natural deixou de ser visto apenas como um estilo de bebida e passou a representar uma forma diferente de se relacionar com a alimentação e com os sistemas produtivos.

A categoria se beneficia de uma demanda crescente por produtos associados à preservação ambiental, à biodiversidade e a métodos de produção menos intervencionistas. A bebida é tratada como sintoma de uma mudança mais ampla na forma como as pessoas se alimentam e consomem. “No fim, o vinho natural fala sobre consciência”, afirmou.

Além disso, eventos como a Naturebas têm relevância porque seu impacto ultrapassa os limites físicos da feira.

Ao redor do evento se formou um ecossistema de encontros paralelos organizados por importadores, distribuidores, produtores, bares e restaurantes, que promovem degustações, jantares e apresentações especiais antes, durante e depois dos dois dias principais.

Esse calendário ampliado reforça o papel da feira como plataforma de negócios e contribui para movimentar o mercado de vinhos naturais em São Paulo e em outras cidades brasileiras.

Daniel Buarque

Daniel Buarque

Editor-assistente