Bloomberg — A escalada dos preços para comprar uma casa própria tem levado parte dos jovens dos Estados Unidos a questionar se a aquisição de um imóvel ainda faz sentido como investimento.
É o caso de Tony Zhang, de 34 anos, que comprou uma casa geminada de US$ 950.000 em Irvine, na Califórnia, em 2021, e hoje diz se arrepender da decisão. O gerente de cadeia de suprimentos afirma que, se tivesse investido a entrada, equivalente a cerca de 30% do valor do imóvel, no mercado de ações, sua carteira poderia valer hoje até US$ 1 milhão.
“Se eu simplesmente tivesse usado o dinheiro da entrada para comprar ações da Meta, da Nvidia ou de qualquer empresa de crescimento, provavelmente nem estaria trabalhando em um emprego das 9h às 17h”, disse.
Mesmo em um investimento mais conservador, atrelado ao índice S&P 500, ele estima que teria acumulado algumas centenas de milhares de dólares a mais.
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Enquanto isso, alugar um apartamento semelhante, com dois quartos, na mesma região custaria cerca de US$ 800 a menos do que seus gastos mensais de US$ 4.300 com moradia, sem contar as despesas de manutenção.
Zhang está entre os americanos com menos de 40 anos que já não enxergam a casa própria como o principal instrumento de construção de patrimônio.
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Menos de um quarto das pessoas entre 18 e 39 anos considera a compra de um imóvel um bom investimento, ante 38% entre os maiores de 60 anos, segundo uma pesquisa recente do Pew Research Center. Outros 38% dos entrevistados com menos de 40 anos classificam o investimento em imóveis como uma opção “razoavelmente boa” para aplicar dinheiro.
Outro levantamento, do Federal Reserve Bank de Nova York, mostrou que a parcela de pessoas com menos de 50 anos que consideram o mercado imobiliário um investimento “muito bom” caiu para cerca de 16% em fevereiro, de aproximadamente 25% cinco anos antes.

De forma geral, comprar um imóvel pela primeira vez se tornou um investimento menos vantajoso porque os salários não acompanharam a alta dos preços das casas nem dos custos de manutenção, afirmou Susan Wachter, professora de mercado imobiliário e finanças da Wharton School, da Universidade da Pensilvânia.
O preço médio de venda de uma casa nos Estados Unidos aumentou 53%, para US$ 379.000, nos seis anos até maio de 2026, segundo dados da Zillow, enquanto os custos de financiamento mais do que dobraram.
Para quem consegue comprar, ainda há despesas como imposto sobre a propriedade, seguro e manutenção. Esses custos somaram, em média, US$ 15.979 por proprietário em 2025, alta de 4,7% em relação ao ano anterior, enquanto a renda familiar cresceu apenas 3,8% no mesmo período.
Mais da metade dos imóveis nos Estados Unidos também perdeu valor no ano passado, a maior proporção desde 2012, segundo a Zillow, quando os efeitos da crise financeira global ainda persistiam.
“A visão mais negativa dos jovens americanos sobre a compra de imóveis reflete a realidade econômica das experiências que eles vivem”, disse Wachter. “Eles enfrentam um problema de acessibilidade e não conseguem obter retorno sobre o investimento.”
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Quase nove em cada dez americanos concordam que comprar uma casa é mais difícil para os jovens adultos hoje do que foi para a geração de seus pais, de acordo com a pesquisa do Pew.
Ainda assim, apenas 16% dos entrevistados com menos de 40 anos afirmam que um imóvel é um mau investimento. Ter uma casa pode proporcionar estabilidade para as famílias e, para quem consegue mantê-la, representar uma forma de transferir patrimônio entre gerações.
Os retornos, porém, variam significativamente conforme a localização do imóvel e o tempo em que ele permanece com o proprietário, observou Richard Fry, pesquisador sênior do Pew.
“É uma conta complexa e, provavelmente, uma das compras mais caras que os jovens adultos farão na vida”, disse. “Não existe uma resposta que sirva para todos.”

Mesmo quem consegue comprar um imóvel em boas condições pode descobrir que a conta não fecha.
Atalyia Ferrara, professora de 28 anos, comprou em julho de 2021 uma casa geminada de quatro quartos na Filadélfia por US$ 230.000, com uma entrada de US$ 1.485 graças ao programa Keystone Home Loan. Desde então, as prestações da hipoteca e os impostos aumentaram apenas US$ 335 por mês, mas os gastos com manutenção consumiram suas economias, em vez de permitir a formação de patrimônio. Ela já desembolsou mais de US$ 28.000 em reformas e prevê gastar outros US$ 25.000 em reparos elétricos.
Hoje, Ferrara trabalha no estado vizinho de Nova Jersey e afirma que a casa se tornou um “poço sem fundo” em uma localização pouco conveniente. Ela e o marido avaliam vender o imóvel para alugar uma residência em uma região com acesso mais fácil ao trabalho e a creches.
“Comprei a casa aos 23 anos, tentando dar os primeiros passos para construir patrimônio”, disse Ferrara. “Em vez disso, fiquei presa a uma casa que me mantém no mesmo lugar e me obriga a gastar milhares de dólares com reparos.”
Na Califórnia, Zhang pretende permanecer na casa até que sua filha, hoje com oito anos, entre na faculdade, na expectativa de se beneficiar de uma valorização do imóvel no longo prazo. Depois disso, pretende vender a propriedade e, segundo ele, “com certeza voltar a alugar”.
Mesmo assim, ele diz que não consegue deixar de pensar no retorno que poderia ter obtido com outro tipo de investimento.
“Basta olhar para o desempenho do mercado de ações para perceber o quanto o custo de oportunidade de colocar esse dinheiro em uma casa me prejudicou”, afirmou Zhang.
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