Com declínio da popularidade de Milei, mercado já busca uma terceira via na Argentina

Investidores acompanham o desenvolvimento da corrida eleitoral de 2027, diante da deterioração da imagem do presidente argentino, e cresce a busca por um projeto que combine disciplina fiscal, crescimento e com presença do Estado

Um bloco crescente de argentinos afirma estar insatisfeito tanto com Milei quanto com o peronismo (Foto: Bloomberg)
Por Manuela Tobias
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Bloomberg — A corrupção já foi a carta mais forte de Javier Milei contra o movimento peronista que dominou a política argentina por décadas. Agora, é apenas uma das diversas vulnerabilidades que desgastam a marca do presidente libertário e dão fôlego aos planos de retomada da oposição.

Com a popularidade de Milei no menor nível em mais de dois anos, a eleição de 2027 tomou conta das viagens de investidores e das conversas políticas na Argentina. A pergunta é se este pode ser o momento de uma terceira via entre a terapia de choque associada a Milei e o peronismo gastador simbolizado por sua líder, Cristina Kirchner.

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“Milei já não é mais favorito absoluto à reeleição”, afirmou Steven Levitsky, professor de estudos latino-americanos da Universidade Harvard. “Neste momento, o peronismo aparece como a alternativa mais viável.”


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Mas o próprio peronismo enfrenta dificuldades para decidir que tipo de alternativa quer ser. Conversas com dirigentes partidários e analistas mostram que cresce uma disputa interna sobre prometer a reversão da doutrina de cortes generalizados de Milei ou aceitar seus principais pilares — disciplina fiscal, Estado menor e pagamento da dívida — com uma marca claramente peronista.

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Acertar essa fórmula revitalizaria uma força política que se reinventou continuamente nas últimas oito décadas e representaria uma nova aposta para argentinos desesperados por recuperar alguma previsibilidade econômica após anos de estagnação, inflação desenfreada e crises recorrentes de dívida.

Derrotar Milei, referência ideológica da direita “MAGA”, também dificultaria as tentativas do presidente dos EUA, Donald Trump, de impor o domínio americano no hemisfério ocidental e ofereceria uma narrativa alternativa à guinada da América Latina para a direita.

O principal nome para liderar essa disputa é o governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, dado seu histórico de dois mandatos à frente da província mais populosa do país.

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Ele também é o que mais assusta os mercados. Kicillof foi aliado fiel da ex-presidente Cristina Kirchner à frente do Ministério da Economia quando a Argentina deu calote na dívida soberana em 2014, e se tornou sinônimo justamente das políticas econômicas intervencionistas que Milei foi eleito para desmontar.

“Se começar a se formar um cenário fortemente binário, Milei ou Kicillof, isso será uma má notícia para os títulos, porque o problema é que o mercado atribui ao kirchnerismo uma probabilidade muito alta de calote”, afirmou Ivan Stambulsky, economista para América Latina do Barclays.

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Um bloco crescente de argentinos afirma estar insatisfeito tanto com Milei quanto com Kicillof, o que abre espaço para políticos que tentam traçar um caminho intermediário. Quase 30% dos argentinos dizem que não votariam nem em Milei nem em Kicillof, ou que seguem indecisos, ante cerca de 11% em 2025, segundo pesquisa de maio da TresPuntoZero.

Políticos dos extremos ideológicos dominam as pesquisas. Como resultado da fragmentação política, dirigentes, governadores e empresários de diferentes campos exploram se há espaço para uma terceira via: preservar a ortodoxia fiscal de Milei e o compromisso de pagar a enorme dívida argentina — de US$ 264 bilhões por algumas métricas — enquanto se usa um Estado mais ativo para apoiar investimento, infraestrutura e emprego.

Os mercados, porém, continuam céticos quanto ao surgimento de uma alternativa moderada. Títulos soberanos em dólar sob lei local com vencimento em outubro de 2028 — 12 meses após a eleição — rendem agora 7,68%, impressionantes 354 pontos-base acima de papéis semelhantes com vencimento em outubro de 2027, uma medida da turbulência esperada pela frente.

“Na Argentina, a linha divisória eleitoral é emissão zero de dinheiro ou emissão infinita de dinheiro”, afirmou Emmanuel Álvarez Agis, fundador da consultoria econômica PxQ e ex-vice-ministro da Economia sob Kicillof de 2013 a 2015. Para os investidores, disse ele, “ignorar isso é suicida”.

Esse debate poderia ter permanecido amplamente teórico se Milei tivesse mantido o domínio político demonstrado após a vitória esmagadora nas eleições legislativas de outubro. Em vez disso, uma série de erros não forçados dá novo fôlego à oposição.

‘Cristina perdeu’

A principal promessa de Milei — derrotar a inflação — continua apenas parcialmente cumprida. Apesar da previsão de que a alta mensal dos preços cairia abaixo de 1% até meados do ano, ela tem ficado mais perto de 3%. Setores intensivos em mão de obra seguem fracos, o desemprego subiu e os salários reais ainda não se recuperaram de forma significativa.

Leia também: Churrasco mais caro: carne argentina ganha espaço nos EUA, mas impõe desafio a Milei

Enquanto isso, acusações de corrupção rondam o entorno do presidente. Investigações envolvendo altos funcionários — que levaram à renúncia do chefe de Gabinete, Manuel Adorni, em junho — somadas ao novo escrutínio sobre o papel de Milei em um escândalo de meme coin ajudaram a colocar a corrupção acima da inflação como a principal preocupação dos eleitores.

Joaquín de la Torre, veterano estrategista político que previu corretamente os resultados das eleições legislativas, disse que o maior erro de Milei foi interpretar a votação como um amplo endosso a seu governo, e não como uma rejeição à oposição.

“Eles não ganharam, Cristina perdeu”, afirmou. “Você ainda deve algo ao eleitorado.”

Para os peronistas, a questão já não é apenas como se opor a Milei, mas quem assumirá a liderança e definirá o movimento depois que Cristina Kirchner foi condenada à prisão domiciliar e impedida de ocupar cargos públicos em junho passado.

Ninguém se movimentou de forma mais agressiva para preencher esse vácuo do que Kicillof. Ele passou os últimos dois anos se posicionando como futuro líder do peronismo — ou, como disse em 2023, alguém pronto para “cantar novas canções”.

O esforço alimentou uma disputa amarga com aliados de Cristina, que ainda a veem como guia do movimento e vaiaram Kicillof em atos, acusando-o de virar as costas para a força política que o projetou.

O desafio de Kicillof é herdar o kirchnerismo sem ficar preso a ele. Para assumir o controle do peronismo, ele precisa de sua base fiel. Mas, para vencer a Presidência, precisa convencer os eleitores de que representa algo diferente do modelo que eles rejeitaram de forma tão clara ao eleger Milei no fim de 2023. O que Kicillof deixou claro é que não tem interesse em imitar Milei.

“Milei deve ser derrotado”, disse a apoiadores em 25 de maio. “Não devemos imitá-lo em nada.”

A influência de Cristina, enquanto isso, tornou-se cada vez mais negativa, segundo a analista política Ana Iparraguirre. Embora ela ainda tenha poder suficiente para moldar uma primária peronista e bloquear rivais, a aura que a transformou na rainha incontestável do movimento foi enfraquecida pela presidência desastrosa de Alberto Fernández, que ela ajudou a levar ao poder em 2019.

“Ela ainda consegue destruir um candidato”, afirmou Iparraguirre. “Mas não acho que tenha capacidade de construir um da forma como construiu Alberto na época.”

Kicillof não é o único peronista que tenta redefinir o movimento. Um grupo separado de líderes partidários abertamente críticos ao governo peronista anterior se reuniu em 1º de maio para delinear uma plataforma para 2027 baseada em ordem macroeconômica, sustentabilidade da dívida e produção doméstica.

Por trás de boa parte desse esforço está Sergio Massa, ex-ministro da Economia que conduziu a Argentina a uma inflação de três dígitos.

Massa se vê como arquiteto de um novo peronismo e mantém contato regular com governadores, parlamentares e prefeitos, segundo pessoas familiarizadas com suas movimentações. Ele ainda não disse se será candidato, nem se vinculou publicamente ao grupo de 1º de maio.

O cenário da oposição pode ficar ainda mais congestionado caso o ex-presidente pró-mercado Mauricio Macri entre na disputa. Mas sua rejeição é tão alta que uma candidatura parece improvável.

“A visão de Milei é que, enquanto a oposição permanecer fragmentada, 30% de apoio bastam para torná-lo dominante. Num segundo turno, ele consegue derrotar o kirchnerismo”, afirmou Iparraguirre. “Mas, se todas essas forças menores se unirem em torno de um projeto mais amplo e unificado, o desafio para Milei se torna muito maior. Essa é a verdadeira batalha.”

Milei pressiona por um projeto de lei para eliminar as primárias, medida que aumentaria suas chances de reeleição e beneficiaria grupos periféricos. Mas a história sugere que descartar o peronismo seria prematuro.

“Se a terceira via conseguir ficar em segundo lugar na eleição, pode vencer o segundo turno”, disse de la Torre. “Mas, para isso, ainda é preciso ter um candidato.”

Apesar de toda a conversa sobre reinvenção, o peronismo continua preso à figura que precisa superar. Antes do aniversário da prisão de Cristina em 17 de junho, aliados projetaram uma luz rosa sobre a residência dela no centro de Buenos Aires para evocar a Casa Rosada, o palácio presidencial. Centenas se reuniram do lado de fora, à espera de que sua silhueta iluminada surgisse para acenar.

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