Ação da Apple na Justiça ameaça planos da OpenAI para desenvolver rival do iPhone

Fabricante acusa desenvolvedora de IA de usar segredos comerciais e pressionar equipes com contratações agressivas. Disputa judicial pode afetar recrutamento, fornecedores e cronograma de produtos da criadora do ChatGPT

As medidas judiciais podem levar meses ou anos para se concretizar, mas as consequências do processo em si tendem a ser sentidas muito antes (Foto: David Paul Morris/Bloomberg)
Por Mark Gurman
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Bloomberg — A Apple moveu uma ação contra a OpenAI acusando a empresa de roubar sistematicamente sua propriedade intelectual, em um processo que ameaça comprometer as ambições da desenvolvedora de inteligência artificial no mercado de dispositivos muito antes de o caso ser concluído.

Na ação, apresentada na semana passada, a fabricante do iPhone afirma que a OpenAI pediu a ex-funcionários da Apple — e até mesmo a candidatos a vagas na empresa — que levassem informações sobre produtos ainda não lançados.

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A Apple também alega que a OpenAI orientou novos contratados sobre como driblar seus procedimentos de segurança, usando uma lista de verificação elaborada pelo ex-chefe de design do iPhone da gigante de tecnologia.

A empresa pede indenização por perdas e danos, além de uma ordem judicial que obrigue a OpenAI a interromper a suposta conduta e destruir qualquer material de propriedade da empresa.


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As medidas judiciais podem levar meses ou anos para se concretizar, mas as consequências do processo em si tendem a ser sentidas muito antes, com a disputa judicial podendo pressionar os planos de recrutamento e de desenvolvimento de produtos.

A OpenAI não comentou seus planos para dispositivos. Em resposta à ação apresentada na sexta-feira, a empresa afirmou que “não tem interesse nos segredos comerciais de outras empresas” e que permanecerá “focada em desenvolver tecnologia inovadora”.

Para a Apple, os riscos da disputa com a OpenAI são enormes. A empresa de inteligência artificial, sediada em San Francisco, recrutou de forma agressiva profissionais da divisão de hardware da Apple, esvaziando equipes responsáveis pelo iPhone, Apple Watch, AirPods e outros produtos importantes.

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Em alguns casos, a OpenAI contratou tantos engenheiros de determinados grupos — especialmente da área de design de produto do iPhone — que a Apple foi obrigada a reestruturar parte dessas equipes.

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Ao todo, a OpenAI emprega hoje mais de 400 ex-funcionários da Apple, atraindo muitos deles com pacotes de remuneração tão generosos que a fabricante do iPhone respondeu recentemente com bônus de retenção excepcionalmente elevados.

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A Apple chegou a mobilizar alguns de seus principais executivos para convencer engenheiros seniores a permanecer na empresa, sediada em Cupertino, Califórnia.

A questão envolvendo segredos comerciais tornou-se uma das maiores preocupações internas da Apple nos últimos meses, mesmo diante da perspectiva de tarifas e de uma escassez de memória para dispositivos considerada inédita em uma geração.

Ao reunir centenas de ex-engenheiros da Apple com designers renomados como Jony Ive — e combinar essa experiência com uma das tecnologias de inteligência artificial mais avançadas do setor —, a OpenAI se posicionou para potencialmente se tornar a concorrente mais forte da Apple em hardware em muitos anos.

Essa perspectiva surge em um momento em que a Apple enfrenta dificuldades em inteligência artificial e promove uma reestruturação de sua divisão de hardware.

Até mesmo executivos da Apple reconheceram o potencial disruptivo da inteligência artificial. Em depoimento no julgamento antitruste sobre o mecanismo de busca do Google no ano passado, o chefe da divisão de serviços da Apple, Eddy Cue, afirmou que a tecnologia pode remodelar o mercado de dispositivos. “Talvez você não precise de um iPhone daqui a 10 anos, por mais louco que isso pareça”, disse.

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Nos documentos apresentados à Justiça, a Apple afirmou que a ação trata exclusivamente de segredos comerciais e classificou o trabalho da OpenAI em hardware como ainda incipiente. “Este processo e a fase de produção de provas são necessários para expor e começar a reparar o roubo generalizado de segredos comerciais da Apple”, afirmou a empresa.

Ainda assim, apenas ao apresentar a ação, a Apple já começou a prejudicar o potencial da OpenAI de desenvolver um verdadeiro concorrente do iPhone. As acusações, somadas à possibilidade de investigações e às preocupações sobre os métodos da OpenAI, podem levar muitos funcionários da Apple a repensar a decisão de deixar a empresa para trabalhar na rival.

Até mesmo participar de uma entrevista de emprego na OpenAI pode expor funcionários da Apple ao escrutínio da equipe de segurança e da liderança da empresa. Só isso já pode desacelerar o ritmo de contratações da OpenAI, manter mais engenheiros na Apple e reduzir o fluxo de conhecimento institucional para a empresa de inteligência artificial, mesmo sem uma decisão judicial.

Além do recrutamento, o processo provavelmente mudará a cultura de engenharia da OpenAI. Ex-funcionários da Apple podem passar a evitar discussões sobre trabalhos anteriores, enquanto gestores podem deixar de fazer determinadas perguntas técnicas por receio de abordar informações confidenciais da Apple. O resultado pode ser uma organização mais cautelosa.

A ação judicial também deve criar mais burocracia na OpenAI, incluindo novas revisões jurídicas, controles internos mais rígidos e treinamentos de compliance que afastam engenheiros do trabalho de desenvolvimento.

Executivos seniores da OpenAI provavelmente terão de dedicar tempo a reuniões com advogados, à fase de produção de provas do processo e à prestação de depoimentos. Tudo isso ameaça desacelerar o desenvolvimento de produtos.

No longo prazo, se a Apple conseguir provar que a OpenAI incorporou segredos comerciais da empresa em dispositivos futuros, a startup de inteligência artificial poderá ser obrigada a redesenhar seus produtos.

Seria um desfecho semelhante ao acordo firmado pela Apple com a startup de chips Rivos, que acabou concordando em reformular partes de sua tecnologia de processadores.

Logo após o ajuizamento da ação pela Apple, a OpenAI ainda acreditava estar no caminho para anunciar seu primeiro produto neste ano e lançá-lo em 2027, segundo uma pessoa com conhecimento do assunto.

Esse cronograma, porém, ainda pode mudar à medida que a empresa avalia as alegações da Apple, afirmou a pessoa, que pediu para não ser identificada por tratar de um tema interno.

Mesmo assim, embora o desenvolvimento do primeiro produto esteja em estágio avançado, agora provavelmente será mais difícil expandir rapidamente o que a OpenAI descreveu como uma família de dispositivos.

A OpenAI avaliou diversas categorias de produtos — incluindo alto-falantes inteligentes e dispositivos vestíveis — mas seu objetivo final é lançar um concorrente do iPhone, informou a Bloomberg News. Um aparelho que não seja um smartphone, mais simples de desenvolver do que um rival direto do iPhone, deve estrear primeiro.

Por sua vez, a Apple trabalha em dispositivos vestíveis baseados em inteligência artificial, incluindo novos AirPods, um pingente e óculos inteligentes.

A empresa também desenvolve uma linha de dispositivos para a casa, entre eles um robô de mesa, uma central de comando para casa inteligente com reconhecimento facial e um sistema de segurança.

“A Apple provavelmente conseguirá medidas liminares específicas relacionadas ao projeto de dispositivos da OpenAI”, escreveu a Bloomberg Intelligence nesta segunda-feira. “Qualquer decisão desse tipo provavelmente exigirá que os materiais contestados sejam isolados, que as provas sejam preservadas e que seja comprovado o cumprimento das determinações, o que pode desacelerar os planos de hardware da OpenAI.”

Outro fator é a cadeia de suprimentos. Por maior que seja a rede asiática de fabricação de eletrônicos, o grupo de fornecedores que produz dispositivos de consumo é relativamente pequeno.

Diante do poder de mercado da Apple, fornecedores podem pensar duas vezes antes de aprofundar relações com a OpenAI, por receio de comprometer parcerias muito maiores e já consolidadas ou de acabar envolvidos em litígios.

Ainda assim, a OpenAI conta com o que é considerado alguns dos melhores talentos de engenharia do Vale do Silício, recursos jurídicos para contestar as alegações da Apple e ex-executivos da fabricante do iPhone, como Jony Ive e Tang Tan.

As relações de longa data desses profissionais com fornecedores, investidores e outros parceiros estratégicos podem ajudar a empresa a reduzir os impactos do processo e manter seus planos para hardware no rumo previsto.

Independentemente de a Apple conseguir ou não comprovar suas acusações, o processo já criou uma percepção que pode ser difícil para a OpenAI desfazer. Em uma publicação na rede social X, no sábado, o CEO da OpenAI, Sam Altman, afirmou que “não tem medo da Apple” e que tem “enorme respeito” pela empresa.

A Apple, porém, afirmou na ação que vê a situação de forma diferente. O negócio de hardware da OpenAI “agora se apoia sobre as bases mais frágeis possíveis, corrompidas em sua essência pela dependência ilegal de segredos comerciais obtidos de forma indevida”, escreveu a empresa.

Muito antes de o caso chegar às mãos de um juiz ou de um júri, a Apple talvez já tenha alcançado um resultado tão valioso quanto uma vitória nos tribunais: desacelerar a empresa que mais trabalha para inaugurar a era pós-iPhone.

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