Bloomberg — A Argentina fará nesta semana um pagamento relevante de sua dívida em dólar, alcançando um feito que poucos investidores consideravam possível enquanto o país segue sem recorrer aos mercados internacionais de dívida.
O governo argentino afirma já ter assegurado os recursos necessários para cobrir a obrigação semestral de US$ 4,3 bilhões, dividida entre principal e juros dos títulos emitidos em moeda estrangeira.
Também identificou fontes adicionais de financiamento que eliminam a necessidade de captar recursos nos mercados internacionais durante o restante do mandato do presidente Javier Milei, que vai até o fim de 2027.
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Investidores pressionavam o ministro da Economia, Luis Caputo, a aproveitar uma janela de oportunidade para levantar capital antes que a guerra no Oriente Médio abalasse os mercados.
O governo, porém, preferiu esperar, argumentando que os custos de financiamento continuavam elevados.
Na segunda-feira, Caputo reforçou essa posição ao apresentar um plano de financiamento que exclui emissões internacionais de dívida neste ano e se apoia em títulos em dólar emitidos no mercado doméstico, empréstimos respaldados por organismos multilaterais e outras fontes de menor custo.
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“Ir ao mercado é apenas mais uma opção, não um objetivo”, afirmou Caputo a jornalistas.
Segundo ele, a meta do governo é refinanciar a dívida pelo menor custo possível. Autoridades acrescentaram que o Tesouro já mantém cerca de US$ 4 bilhões em depósitos em dólares para o pagamento desta semana e que os recursos provenientes de financiamentos respaldados por organismos multilaterais chegarão antes do vencimento dos títulos, na quinta-feira.

Este será o segundo grande pagamento da dívida da Argentina em 2026, depois de o país sul-americano ter pago valor semelhante aos detentores de títulos no início do ano.
Desde março, o Tesouro captou cerca de US$ 4 bilhões por meio da venda de bonares, títulos em dólar emitidos no mercado local.
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Os papéis vencem em 2027 e 2028, com rendimento médio de 6,9% — bem abaixo dos cerca de 8,6% que, segundo estimativas dos investidores, a Argentina pagaria atualmente em uma emissão no exterior.
Na segunda-feira, Caputo anunciou planos para captar mais US$ 2 bilhões por meio de colocações semelhantes no mercado doméstico até o fim do ano, além de recorrer a empréstimos respaldados por organismos multilaterais com juros entre cerca de 6% e 7%. Na quarta-feira, o governo formalizou parte dessa estratégia ao confirmar até US$ 3,2 bilhões em empréstimos do BBVA, Santander e Deutsche Bank, respaldados por garantias do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
Embora a base da estratégia atual de Caputo seja o mercado doméstico, ela representa uma mudança significativa em relação à intensa emissão de títulos internacionais durante sua passagem pelo governo do ex-presidente Mauricio Macri.
Nos meses que antecederam o prazo decisivo desta semana, muitos investidores insistiam que a Argentina precisaria emitir títulos globais para cobrir a maior parte dos pagamentos previstos para 2027.
“Os investidores defenderam com muita força no início do ano que a Argentina precisava acessar os mercados, como o Equador fez”, afirmou Gustavo Medeiros, chefe de pesquisa da Ashmore Group, referindo-se às preocupações amplamente compartilhadas sobre o nível das reservas internacionais da Argentina. No entanto, acrescentou, o governo tem obtido bastante sucesso na acumulação de dólares neste ano.
Muitos investidores ainda esperam que o amplo programa de reformas econômicas de Milei acabe abrindo caminho para o aguardado retorno do país a Wall Street.
Isso pode ocorrer ainda neste ano se os spreads continuarem recuando, disse Medeiros. Joe Delvaux, gestor de portfólio da Amundi, avalia que uma emissão no segundo semestre de 2026 é possível, mas considera mais provável que ela fique para o início de 2027.
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Por enquanto, porém, o Tesouro argentino afirma conseguir se financiar de forma mais barata no mercado doméstico enquanto aguarda uma redução adicional dos spreads dos títulos globais.
A dívida do país ainda negocia com prêmios superiores aos de pares com classificação semelhante, com os rendimentos dos títulos de referência em dólares na faixa superior de 8% — acima do que as autoridades consideram justificável diante da melhora da posição fiscal e do avanço das exportações.
“Até agora, essa estratégia se mostrou acertada”, afirmou Graham Stock, estrategista sênior para mercados emergentes da RBC BlueBay Asset Management. “Demonstrar acesso ao mercado seria positivo, mas eles têm razão ao dizer que isso não deve acontecer a qualquer custo.”

No entanto, a combinação atual de fontes de financiamento da Argentina deixa pouca margem para manobra caso alguma delas falhe, as condições de mercado se deteriorem antes da eleição presidencial do próximo ano ou a volatilidade eleitoral provoque uma ampliação dos spreads dos títulos soberanos.
“Eles estão sendo muito cautelosos para não emitir dívida com juros elevados, provavelmente por preocupação com o impacto disso sobre os indicadores de déficit”, afirmou Jimena Zuñiga, economista para a Argentina na Bloomberg Intelligence.
“Essa é uma preocupação razoável, mas envolve riscos importantes, porque podem ocorrer choques que comprometam esses planos para 2027 — e o país pode estar deixando passar uma boa janela de emissão agora.”
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A Argentina tem cerca de US$ 25 bilhões em dívida em dólar com vencimento em 2027. O plano é quitar esse montante com US$ 5 bilhões em vendas de títulos no mercado local no próximo ano, além de compras de dólares pelo banco central, desembolsos do Fundo Monetário Internacional (FMI), receitas de privatizações e recursos remanescentes do superávit de financiamento obtido neste ano.
“Do ponto de vista do investidor, ficaríamos mais confortáveis se eles resolvessem isso antes do próximo ano”, afirmou Jared Lou, gestor de portfólio da William Blair. “Ninguém sabe que tipo de volatilidade poderá surgir com a aproximação do ciclo eleitoral.”
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