Crise do Ueno Bank, do Paraguai, deixa clientes sem acesso a contas e trava pagamentos

Autoridades afirmam que problema é localizado, enquanto o banco central do país diz que 97% dos correntistas têm saldos dentro dos limites de garantias, que serão pagos em 15 dias

Ueno Bank
Por Ignacio Olivera Doll - Ken Parks
PUBLICIDADE

Bloomberg — “Não é possível exibir seu saldo. Por favor, tente novamente mais tarde.”

Essa mensagem foi tudo o que Deisy Asva, estudante de enfermagem de 20 anos, pôde ver de suas economias de uma vida inteira na manhã de terça-feira (3), quando tentou acessar sua conta no Ueno Bank, instituição financeira que atende a um em cada três paraguaios.

PUBLICIDADE

Pouco depois das 3h da manhã, enquanto a maior parte do país dormia, o Banco Central do Paraguai anunciou o fechamento da instituição financeira devido a uma crise de solvência.

O Ministério Público iniciou então uma investigação, emitindo mandados de prisão contra pelo menos oito pessoas ligadas ao Ueno, incluindo Miguel Vázquez, presidente do acionista controlador do banco, o Grupo Vázquez. O presidente Santiago Peña já havia sido investidor na holding do Ueno, tendo vendido sua participação em março de 2025.


⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.

PUBLICIDADE

Os órgãos reguladores têm insistido que a situação é isolada e que os depósitos de até 228 milhões de guaranis (US$ 37.400) estariam garantidos — valor que o Banco Central tem 15 dias para devolver.

Ainda assim, isso tem oferecido pouco consolo para clientes como Deisy Asva, que enfrentavam dificuldades para descobrir como pagariam suas contas — desde aluguel e compras de supermercado até passagens de ônibus — agora que seus depósitos foram congelados.

Leia também: Colapso de banco no Paraguai abala o país e leva a pedido de renúncia de presidente do BC

PUBLICIDADE

Na capital, Assunção, clientes se reuniram em frente a agências fechadas em busca de respostas. Centenas se aglomeraram em torno de uma agência do Ueno em Ciudad del Este, enquanto reclamações de clientes incapazes de acessar seu dinheiro inundavam as redes sociais.

A Polícia Nacional entrou em alerta máximo de segurança e enviou policiais para agências bancárias em todo o país.

Para Asva, que mora em San Lorenzo, nos arredores de Assunção, o congelamento significa perder temporariamente o acesso à conta que ela usava diariamente para recarregar seu cartão de transporte, comprar lanches na universidade e cobrir outras despesas rotineiras. Ela também tem que pagar as mensalidades da universidade até sábado.

PUBLICIDADE

“Com tanta tecnologia disponível hoje em dia, como isso pode demorar 15 dias?”, questionou ela. “Vou ter que pedir dinheiro emprestado à minha família.”

2,9 milhões de clientes em um país de 6,1 milhões de habitantes

A magnitude da interrupção reflete o quanto o Ueno se tornara parte integrante das finanças cotidianas dos paraguaios.

O banco informou, em junho, que contava com mais de 2,9 milhões de clientes — em um país com cerca de 6,1 milhões de habitantes — e processava mais de 3 milhões de transações por dia.

Mais de 32 mil aposentados utilizavam o banco para receber suas aposentadorias do IPS, o órgão de previdência social do Paraguai.

Apenas algumas horas antes do anúncio do Banco Central, o Ueno ainda estava incentivando os clientes a depositarem mais dinheiro no banco.

Leia também: Empresas da Argentina suspendem planos de IPO e frustram expectativas de retomada

Na madrugada de segunda-feira (2), a contadora Rocío Zárate transferiu 1 milhão de guaranis para sua conta no Ueno, seduzida por uma das generosas promoções que ajudaram a impulsionar a rápida expansão da instituição financeira.

Os clientes que depositassem dinheiro novo no banco e o mantivessem lá até 7 de novembro recebiam um desconto de 50% em compras com cartão de crédito.

Poucas horas depois, o Banco Central do Paraguai anunciou que estava colocando o Ueno em processo de fechamento, após determinar que seu índice de solvência havia caído abaixo do mínimo exigido de 50% após ajustes em seus balanços patrimoniais.

“Eu estava me preparando para sair para o trabalho quando meu tio me perguntou: ‘Você tem dinheiro no Ueno? Porque o banco sofreu intervenção’”, disse Zárate, de 36 anos, que já tinha outros 2 milhões de guaranis na instituição financeira. “Foi muito chocante. Isso me pegou completamente de surpresa.”

Leia também: Além do macro: por que a América Latina precisa de avanços na microeconomia

A tensão chegou ao auge em Nemby, nos arredores da capital, onde um cliente de 45 anos quebrou uma porta de vidro em uma agência do Ueno após ir até o local em busca de informações sobre suas economias, segundo o jornal local Última Hora. Ele cortou a perna e foi levado para receber atendimento médico antes que o Ministério Público o intimasse a depor sobre o incidente.

‘Semiparalisia’ para empresas

O fechamento do Ueno também causa repercussões nas empresas que passaram a depender do banco digital. A associação de importadores e varejistas do Paraguai alertou para uma “semiparalisia” no comércio, afirmando que dois terços das transações eletrônicas em grandes lojas de varejo eram realizadas por meio de contas do Ueno.

María Elena González, de 41 anos, administradora de empresas e gerente de uma empresa de consultoria, utilizava o Ueno para receber pagamentos de aluguel de um apartamento que possui junto com o marido. Assim que soube da notícia na manhã de terça-feira, ela pediu a ele que se certificasse de que os inquilinos parassem de transferir dinheiro para a conta.

“Fiquei muito surpresa”, disse González. Sua maior preocupação é a aposentadoria. González contribui para o sistema de previdência IPS há 18 anos, que tem cerca de US$ 300 milhões depositados no Ueno. Com mais uma década de contribuições pela frente, ela se preocupa se o fundo terá dinheiro suficiente quando se aposentar.

“Não sei como estará esse fundo daqui a 10 anos”, disse ela.

O Banco Central tem procurado conter o pânico, descrevendo os problemas do Ueno como isolados e afirmando que o sistema financeiro paraguaio em geral continua saudável. Cerca de 97% dos correntistas do Ueno têm saldos dentro do limite da garantia de depósitos respaldada pelo governo, segundo autoridades.

Mas mesmo os clientes que esperam recuperar todo o seu dinheiro enfrentam um problema imediato: como sobreviver aos dias ou semanas até que possam acessá-lo.

Para Zárate, qualquer confiança que ela tivesse no Ueno já se foi. “Assim que me devolverem meu dinheiro”, disse ela, “vou transferi-lo imediatamente para um banco em que confio.”

Veja mais em Bloomberg.com

Leia também

Classe média sobe a 42,8% na América Latina; entenda critérios e renda em cada país

Aviação na América Latina desacelera e esbarra em concentração e falta de integração