Empresas da Argentina suspendem planos de IPO e frustram expectativas de retomada

Produtora de energia renovável Genneia SA suspendeu os planos de abertura de capital em Nova York até 2027, segundo a Bloomberg News, enquanto a oferta planejada pela geradora YPF Luz foi deixada de lado

Bloomberg
Por David Feliba - Jonathan Gilbert
PUBLICIDADE

Bloomberg — Duas empresas argentinas de energia suspenderam planos de realizar ofertas públicas iniciais de ações (IPO) nos EUA neste ano, frustrando as expectativas de retomada do mercado do país para listagens em Nova York, praticamente paralisado há anos, em meio à queda dos ativos locais e à turbulência nos mercados globais, que reduziram o apetite dos investidores.

A produtora de energia renovável Genneia SA suspendeu os planos de listagem em Nova York pelo menos até 2027, já que a liquidação de ativos argentinos pressiona a potencial avaliação da companhia, segundo pessoas a par do assunto que falaram com a Bloomberg News.

PUBLICIDADE

A oferta planejada pela geradora YPF Luz também foi deixada de lado depois que o acionista controlador concordou em comprar a participação de um investidor minoritário cuja saída havia sido um dos principais motivos para o IPO.


⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.


Os reveses ocorrem depois que ações e títulos argentinos despencaram nos últimos meses, afetados por uma retração global mais ampla dos ativos de maior risco e pela crescente preocupação dos investidores antes da tentativa de reeleição do presidente Javier Milei no próximo ano.

PUBLICIDADE

O índice de referência S&P Merval caiu quase 30% em dólares desde a máxima de junho, e os títulos soberanos estão entre os de pior desempenho nos mercados emergentes desde setembro.

Leia também: Classe média sobe a 42,8% na América Latina; entenda critérios e renda em cada país

“Com toda a probabilidade, os dois processos de IPO estão suspensos diante das condições de mercado”, disse Ezequiel Fernandez, Equity and Credit Research Director da corretora local Balanz.

PUBLICIDADE

“Nesses múltiplos, as empresas estariam vendendo barato demais para um cenário de normalização da Argentina — a menos que haja forte recuperação dos preços das ações, provavelmente vão preferir esperar para ver o que acontece em 2027.”

A Argentina não registra estreias de ações nos EUA desde 2019, quando a Vista Energy vendeu ações. Um ano antes, a Corp. America Airport SA e a geradora Central Puerto SA haviam realizado IPOs.

A Divisão

Os adiamentos ressaltam uma divisão crescente nos mercados de capitais da Argentina. Empresas de energia captaram bilhões de dólares por meio de emissões internacionais de títulos para financiar expansão, mas o boom não conseguiu reativar as ofertas de ações, já que a queda das cotações torna possíveis listagens menos atraentes para os controladores.

PUBLICIDADE

A Genneia havia avançado de forma significativa nos preparativos para a oferta antes de colocar o processo em compasso de espera, segundo pessoas a par da operação.

A produtora de energia renovável apresentou em julho documentos aos reguladores dos EUA para uma listagem em Nova York e Buenos Aires e contratou Morgan Stanley e BTG Pactual como coordenadores globais.

Leia também: Risco-país dispara na Argentina e sobe no Brasil: veja ranking da América Latina

Na era Milei, a Genneia ganhou contratos de armazenamento de energia na rede, adquiriu em conjunto uma participação na maior empresa de linhas de transmissão de eletricidade da Argentina e registrou no segundo trimestre alta de 17% no Ebitda em relação ao mesmo período do ano anterior, com a entrada em operação de novas instalações solares.

Os planos da YPF Luz tomaram outro rumo depois que uma empresa controlada por uma companhia resultante de uma cisão da General Electric Co., que detinha cerca de 25% da geradora de eletricidade, optou por sair do investimento por meio de uma venda privada, em vez de uma oferta pública.

A controladora YPF SA concordou em comprar a participação por US$ 430 milhões, deixando, na prática, o processo de IPO de lado por enquanto.

A oferta havia sido concebida como um mecanismo para permitir a saída do investimento da empresa resultante da cisão da GE, segundo uma pessoa com conhecimento direto dos planos. Com esse objetivo já alcançado por meio da venda privada, uma listagem é improvável no curto prazo, afirmou a pessoa. A transação não impede que a YPF venha a realizar no futuro uma oferta de ações do negócio.

Ambas as empresas não quiseram comentar.

Cenário

A paralisação das listagens reflete uma forte deterioração do sentimento em relação aos ativos argentinos depois de um início de ano positivo. A alta dos rendimentos dos Treasuries dos EUA e uma aversão global mais ampla ao risco agravaram as preocupações com as perspectivas econômicas da Argentina e com a incerteza política antes da eleição presidencial de 2027.

Leia também: Queda de ativos do Brasil revela força de emergentes e fragilidades de economias ricas

A economia provavelmente entrou em recessão no terceiro trimestre, embora o setor de energia continue entre os que mais crescem. As exportações de petróleo de xisto dispararam e o setor atraiu dezenas de bilhões de dólares em investimentos anunciados, ao passo que a indústria, a construção e outros segmentos intensivos em mão de obra enfrentaram dificuldades.

Essa divergência também apareceu nos mercados de capitais. Empresas argentinas mais sólidas, sobretudo do setor de energia, continuaram a acessar o financiamento internacional por dívida apesar da volatilidade recente. A própria Genneia pretende realizar nesta semana uma emissão de títulos verdes.

Atrair investidores em ações se mostrou muito mais difícil. A queda das ações argentinas reduziu as avaliações das empresas, levando potenciais emissores a relutar em vender participações aos preços atuais.

Nem mesmo o recuo dos rendimentos dos Treasuries dos EUA em relação às máximas recentes, próximas de 5,3%, trouxe alívio às ações argentinas, o que mostra até que ponto se deteriorou o sentimento dos investidores em relação ao país.

“Por enquanto, a Argentina está no banco dos réus”, disse Walter Stoeppelwerth, diretor de investimentos do Grit Capital Group. “Os juros dos EUA caem e as ações argentinas continuam sendo vendidas — essa é uma realidade técnica. Não há compradores para o Merval hoje, então não vejo espaço para um IPO neste momento.”

Veja mais em Bloomberg.com

Leia também

CEO do Grupo Modulax investe US$ 60 mi para abrir fábrica de ferro-gusa na Argentina