Classe média sobe a 42,8% na América Latina; entenda critérios e renda em cada país

A Bloomberg Línea realizou uma análise regional das metodologias disponíveis, das estatísticas oficiais e de outras fontes locais para identificar as faixas de renda associadas às classes baixa, média e alta em 10 países da região

Cuánto hay que ganar para ser de clase baja, media y alta en estos 10 países de Latinoamérica.

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Bloomberg Línea — A renda necessária para pertencer à classe baixa, média ou alta varia significativamente entre os países da América Latina. Os limites dependem tanto do custo de vida quanto dos critérios metodológicos utilizados para classificar as famílias; por isso, não existe uma escala única que permita fazer comparações diretas entre as economias.

O Banco Mundial estima que, em 2025, a classe média continuou a se expandir na região, passando a representar 42,8%, “alcançando um recorde histórico”, segundo o relatório Tendências recentes de pobreza e desigualdade na América Latina e no Caribe.

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Na última década, a parcela da população vulnerável manteve-se relativamente estável em cerca de 32%, segundo esse órgão.

E a população em situação de pobreza representa 25,2%, sendo que o Brasil e o México são responsáveis pela maior parte dessa redução.


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Na região, apenas países como o Chile, o Uruguai, o Panamá e a Costa Rica estão classificados pelo Banco Mundial na categoria de economias de alta renda.

Esses países têm em comum uma estabilidade macroeconômica e institucional mantida ao longo dos anos, bem como políticas econômicas que mantiveram sua credibilidade apesar das mudanças de governo.

De acordo com os parâmetros oficiais de medição da pobreza de organismos como o Banco Mundial, a renda da população pobre situa-se em US$ 8,30 por dia, a da população vulnerável entre US$ 8,30 e US$ 17 por dia e a da classe média em mais de US$ 17.

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No entanto, esses parâmetros não correspondem necessariamente às classificações oficiais de cada país nem permitem, por si sós, determinar a renda necessária para pertencer à classe alta.

Em muitos países da América Latina, não existe uma definição oficial e unificada das classes sociais baseada exclusivamente em faixas de renda.

Por isso, a Bloomberg Línea realizou uma análise regional das metodologias disponíveis, das estatísticas oficiais e de outras fontes locais para identificar as faixas de renda associadas a cada segmento nos diversos países.

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Os números devem ser interpretados levando em conta as diferenças na forma de medição e na composição das famílias.

Por exemplo, no Brasil, as famílias com renda superior a R$ 25.200 por mês (US$ 4.646) estão no segmento de renda mais alta. No México, os dados mais recentes disponíveis mostram que as famílias do decil de renda mais alto registraram uma média mensal de MXN$78.698 (US$4.184)

A renda exigida nas maiores economias

Brasil

Embora o Brasil não tenha uma definição oficial de classe social, uma das referências mais utilizadas é o estudo da Tendências Consultoria, intitulado Classes de Renda e Consumo no Brasil 2024–2034, que apresenta os seguintes valores:

  • Classe baixa (D/E): renda mensal familiar de até R$ 3.400 (US$ 626). Esse grupo representa 49,9% dos domicílios.
  • Classe média (C + B): entre R$ 3.400 (US$ 626) e R$ 25.200 (US$ 4.646), o que representa 45,8% dos domicílios. A classe C (R$ 3.400 a R$ 8.100) representa 31% e a classe B (R$ 8.100 a R$ 25.200), 14,8%.
  • Classe alta (A): mais de R$ 25.200, o que representa 4,3% dos domicílios.

México

No México, os dados são provenientes da Pesquisa Nacional de Renda e Gastos das Famílias (ENIGH) de 2024, realizada pelo Instituto Nacional de Estatística e Geografia (Inegi).

O relatório mostrou que a renda média por família era de MXN$ 27.307 (US$ 1.451) por mês, um aumento de 10,6% em relação a 2022.

Para a análise da renda no México, as famílias são agrupadas em 10 categorias denominadas “decis”, cada uma com o mesmo número de famílias.

O primeiro decil é composto pelos 10% dos domicílios com a renda mais baixa do país. Cada um dos demais decis agrupa os 10% seguintes de domicílios, em ordem crescente de nível de renda. Assim, o décimo decil corresponde aos 10% dos domicílios com a renda mais alta.

  • Primeiro decil ( renda mais baixa): MXN$ 5.598 (US$ 297) por mês.
  • Décimo decil (renda mais alta): MXN$78.698 (US$4.184) por mês.

Ao comparar os dois extremos, observa-se que as famílias com maior renda receberam 14 vezes mais do que as de menor renda. Essa diferença diminuiu em relação a 2016, quando foi relatado que o décimo decil recebia 21 vezes mais do que o primeiro.

Venezuela e Argentina

Com base no custo de vida e nos indicadores de renda disponível, é possível estabelecer uma classificação orientativa para uma família de três pessoas na Venezuela.

  • Renda baixa: menos de US$ 1.000 por mês.
  • Renda média: entre US$ 1.000 e US$ 3.000 por mês.
  • Renda alta: mais de US$ 3.000 por mês.

Essa estimativa toma como referência o custo da cesta de 61 bens e serviços analisada pelo think tank Centro de Divulgação do Conhecimento Econômico para a Liberdade (Cedice).

O custo dessa cesta atingiu US$ 974,48 por mês em setembro de 2026.

Também leva em consideração os dados sobre remunerações da Federação das Câmaras e Associações de Comércio e Produção da Venezuela (Fedecámaras) e da Confederação Venezuelana de Industriais (Conindustria).

A Fedecámaras estimou a renda média mensal do setor privado em US$ 283 durante o primeiro trimestre de 2026, enquanto a Conindustria informou uma remuneração média de US$ 298 para os operários industriais no segundo trimestre daquele ano.

*As faixas propostas constituem uma aproximação analítica e não limites oficiais de classificação social. A situação econômica de uma família também depende do número de pessoas que geram renda, do número de dependentes, da moradia, do patrimônio e de outras fontes de recursos.

Na Argentina, a estimativa se baseia em uma análise da Consultoria W para o segundo trimestre de 2026.

  • A classe alta, identificada como ABC1, representa 5% dos domicílios. Para fazer parte desse segmento, a renda familiar líquida mínima é de ARS$ 9 milhões por mês (US$ 5.852). A renda média nesse grupo é consideravelmente maior: chega a ARS$ 14 milhões por família (US$ 9.104).
  • A classe média alta (C2), que concentra 17% dos domicílios, tem uma renda mínima estimada em ARS$ 4,5 milhões (US$ 2.926), enquanto sua renda média chega a ARS$ 6,5 milhões por mês (US$ 4.226).
  • A classe média baixa representa outros 26% dos domicílios. Nesse segmento, a renda familiar mínima é de ARS$ 2,5 milhões por mês (US$ 1.625), enquanto a renda média chega a ARS$ 3 milhões (US$ 1.950).
  • Abaixo dela, vem a classe baixa não pobre ( D1), que representa 30% dos domicílios. Sua renda familiar média é de ARS$ 2,2 milhões por mês (US$ 1.430).
  • A linha da pobreza estimada pela Consultoria W para uma família típica situa-se em torno de ARS$ 1,5 milhão (US$ 975). Abaixo desse nível fica o último degrau da pirâmide.

Panorama nos países andinos

No Chile, a classe alta (AB) tem renda a partir de cerca de CLP$ 7,4 milhões por mês por família (cerca de US$ 7.460) e já representa 2% dos lares do país, explica Renato Campos, analista financeiro e CEO da empresa financeira Greyhound Trading, à Bloomberg Línea.

Logo abaixo está a classe média abastada, com renda de cerca de CLP$ 3,1 milhões (US$ 3.125), que representa cerca de 9% dos domicílios.

No outro extremo, a classe média baixa fica em torno de CLP$ 870.000 por mês (US$ 877) e é o grupo mais numeroso entre os segmentos de renda média, representando quase 30% dos domicílios.

“A classe baixa, que reúne as famílias vulneráveis e pobres, já não representa metade da população, como em 2018; hoje, representa pouco mais de um terço”, afirmou Renato Campos.

Colômbia

Na Colômbia, dados do Departamento Administrativo Nacional de Estatística (DANE) mostram que 28% da população vive em situação de pobreza monetária, 30,7% está em situação de vulnerabilidade, 38% pertence à classe média e 3,3% à classe alta.

  • Pobreza monetária: pessoas com renda per capita inferior a COP$482.041 por mês (cerca de US$151).
  • População vulnerável: pessoas com renda per capita entre a linha da pobreza (COP$ 482.041) e COP$ 943.791 por mês (cerca de US$ 295).
  • Classe média: pessoas com renda per capita familiar entre COP$943.791 e COP$5.081.953 por mês (US$1.592).
  • Classe alta: pessoas com renda per capita familiar superior a COP$ 5.081.953 por mês.

Peru

No Peru, toma-se como referência o estudo do Instituto Peruano de Economia (IPE), publicado em 2025 com dados de 2024.

Ele utiliza um critério baseado na renda mensal por pessoa, e não por família, explica à Bloomberg Línea Jimmy Astocóndor, economista da Pacífico Business School, no Peru.

A distribuição dos domicílios, segundo o analista, mostra que quase 60% da população peruana é pobre ou vulnerável à pobreza.

Além disso, um terço da população peruana pertence à classe média, “o que representa uma situação relativamente frágil para a sustentabilidade econômica das famílias”.

E não mais do que 7% são famílias de alta renda.

Categoria orientativaRenda mensal da famíliaRenda mensal por pessoa
Renda baixa ou vulnerávelMenos de S/3.956 (US$1.142)Menos de S/1.000 (US$288)
Classe médiaS/ 3.956–22.900 (US$ 6.612)S/ 1.000 – 6.000 (US$ 1.732)
Renda elevadaMais de S/22.900Mais de S/6.000

Hipótese: quatro membros e uma única renda familiar agregada. Os limites são calculados multiplicando-se o valor de referência individual do IPE por quatro; não representam uma estimativa oficial das classes sociais em 2026.

Fonte: Pacífico Business School.

*Trata-se de faixas práticas de análise para 2026, e não de limites oficiais nem de uma classificação estatística publicada pelo INEI ( Instituto Nacional de Estatística e Informática).

Bolívia

O economista Fernando Romero explica à Bloomberg Línea que, no país andino, foram estabelecidos limites de referência de renda mensal para classificar as famílias bolivianas em três estratos socioeconômicos.

  • A classe baixa corresponde a rendas inferiores a Bs. 2.930 por mês (US$ 242).
  • A classe média abrange rendas que variam de Bs. 2.930 a Bs. 14.648 (cerca de US$ 1.213).
  • A classe alta tem renda superior a Bs. 14.648 por mês.

“Essas faixas se baseiam na metodologia de estratificação que utiliza múltiplos da linha de pobreza moderada”, afirma Romero, ex-presidente do Colégio Departamental de Economistas de Tarija.

Como referência adicional, a Pesquisa de Famílias de 2025, elaborada pelo INE, registra uma renda média mensal nacional de Bs.5.672 por família (US$469). Na área urbana, a média chega a Bs. 6.591 (US$ 546), enquanto na área rural é de Bs. 3.673 (US$ 304).

*Portanto, esses limites são meramente orientativos: variam de acordo com o tamanho da família, a região de residência e a renda de todos os membros.

O panorama na América Central

Panamá

O banqueiro e economista panamenho Carlos Alfredo Araúz García explicou a este veículo de comunicação que, no país, assim como em muitos outros da América Latina, não existe uma definição oficial e única de classe social baseada em faixas de renda. “O que vemos medindo no Panamá há vários anos é a pobreza (geral e extrema) e, mais importante ainda, a pobreza multidimensional”.

No país, 70% dos trabalhadores ganham menos de US$ 1.000 por mês, afirma o analista. Considerando que a cesta básica custa, em média, cerca de US$ 308 e que o salário mínimo é de US$ 687 por mês, “fica claro que uma grande parte da população pertence à classe trabalhadora”.

No Panamá, argumenta Araúz García, existe “a armadilha da renda”: o salário mínimo (US$ 687) é um indicador de formalidade, não de bem-estar. “Ganhar mais do que o salário mínimo não garante que se pertença à ‘classe média’”.

  • Classe baixa/trabalhadora: indivíduos e famílias cuja renda mal cobre a cesta básica, incluindo a informalidade, o subemprego e os trabalhadores do setor formal com salários próximos ao mínimo. Essa é a massa crítica de 70% da força de trabalho. Ao ganhar menos de US$ 1.000, e considerando que precisam arcar com despesas de moradia, transporte e outros serviços (que superam amplamente o custo apenas da alimentação), essa população vive em constante vulnerabilidade econômica.
  • Classe média: famílias com capacidade de consumo além das necessidades básicas, com acesso ao sistema financeiro formal, capacidade de poupança e, potencialmente, propriedade de imóvel residencial. “Poderíamos situá-la em uma faixa de renda mensal familiar (somando as rendas dos membros) entre US$ 1.500 e US$ 5.000 por mês”.
  • Classe alta: renda “significativamente superior à média”, proveniente de capital, altos cargos corporativos, propriedade de ativos ou empresas. “Possuem capacidade de investimento, diversificação de ativos e acesso a serviços premium”, afirmou o analista.

Costa Rica

A Costa Rica também não possui uma definição oficial única para as classes baixa, média ou alta, explica à Bloomberg Línea Daniel Ortiz, economista e sócio-diretor da consultoria Consejeros Económicos y Financieros (CEFSA).

Em vez disso, o país estabelece limites de pobreza e utiliza os dados de renda da Pesquisa Nacional de Famílias para classificar a população por quintis.

  • Segundo Ortiz, se considerarmos esses quintis e convertermos a renda em dólares com a taxa de câmbio de fechamento do ano passado, as famílias de menor renda ou em situação de pobreza registram renda mensal de aproximadamente US$ 800 nas áreas urbanas e entre US$ 585 e US$ 600 nas áreas rurais. Esse grupo representa 15,2% dos domicílios.
  • A classe média concentra 64,8% dos domicílios e possui renda de cerca de US$ 3.000.
  • Já aqueles com renda mais alta, ou seja, acima de US$ 3.000, representam cerca de 20%. Ortiz indicou que a renda do quintil superior situa-se entre US$ 5.700 e US$ 5.800.

------ Com a colaboração dos jornalistas da Bloomberg Línea: Filipe Serrano, no Brasil; Zenyazen Flores, no México; Belén Escobar, na Argentina; Daniel Guerrero, na Colômbia; e Raylí Luján, na Venezuela. Taxa de câmbio utilizada em 30/10/2026.