Nova guerra do delivery: como apps chineses desafiam a liderança do iFood no Brasil

Rivais apostam em descontos, tecnologia e expansão para transformaar o mercado em ascensão do país em palco de uma disputa por usuários, restaurantes e entregadores, com bilhões de reais em jogo

Mercado do país representa uma porta de entrada regional tentadora para marcas globais (Foto: Maira Erlich/Bloomberg)
Por Carolina Pulice - Rachel Gamarski

Bloomberg — A rivalidade entre as plataformas de entrega de comida está acirrada nas ruas de São Paulo, onde aplicativos chineses enfrentam o líder do mercado brasileiro em busca de vantagem na competição pelos consumidores digitais no maior mercado da América Latina.

Com uma população de mais de 200 milhões de habitantes, alta densidade urbana e ampla adesão ao mundo digital, o Brasil representa uma porta de entrada regional tentadora.

PUBLICIDADE

Os aplicativos chineses de entrega de comida 99Food, da Didi Global, e Keeta, da Meituan, lutam para destronar o líder do mercado brasileiro iFood, da investidora holandesa Prosus. À medida que a competição se intensifica, as rivais aumentam seus investimentos, oferecendo diversas ofertas aos brasileiros — e atraindo a atenção dos órgãos reguladores.


Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.


O Brasil é um mercado de peso. Outras plataformas de entrega de comida, como a Rappi, o Uber Eats, da Uber, e as startups locais Delivery Much e Aiqfome, tentaram entrar no mercado, mas não conseguiram superar o iFood. Após inícios turbulentos, os aplicativos chineses parecem estar ganhando terreno.

PUBLICIDADE

Durante o Carnaval, mais de um milhão de fãs lotaram o parque do Ibirapuera para ouvir a cantora Ivete Sangalo. A estrela pop, vestida com lantejoulas amarelas neon, representava a patrocinadora do evento, 99Food, que aposta em publicidade com grandes nomes para se defender do crescente Keeta.

Há muito em jogo. Segundo estimativas de Keeta, o número total de usuários de aplicativos de entrega no Brasil pode dobrar para 120 milhões em cinco anos.

A perspectiva otimista de crescimento reflete o perfil do consumidor brasileiro, que é bastante familiarizado com tecnologia. O e-commerce já representa 23% do varejo brasileiro, bem acima da média de 16% registrados na América Latina, de acordo com Tiago Harduim, Equity Research Analyst de consumo da América Latina da Bloomberg Intelligence.

PUBLICIDADE

Início turbulento

A 99Food anunciou o relançamento de seu serviço de entrega de comida no Brasil em abril de 2025, após um início fraco dois anos antes, aproveitando seus serviços consolidados de transporte por aplicativo e pagamentos para oferecer aos consumidores um ecossistema completo. A empresa prometeu investir R$ 2 bilhões em seu primeiro ano de operação.

A entrada da Keeta no mercado local também foi conturbada. A empresa começou a operar em São Paulo em dezembro, com um plano de investir R$ 5,6 bilhões nos próximos cinco anos. Mas, no final de fevereiro, adiou o lançamento no Rio de Janeiro e demitiu funcionários. Ainda não há previsão para o início das operações do serviço na cidade.

Leia também: Fim do ‘almoço grátis’? Gigantes do delivery na China elevam preços após investigação

PUBLICIDADE

Em termos de usuários ativos mensais, a Keeta teve um crescimento exponencial. “A Keeta ultrapassou a Rappi em usuários ativos mensais em menos de três meses após o lançamento, demonstrando sua rápida ascensão em popularidade”, segundo Abe Yousef, analista sênior de insights da empresa de inteligência de mercado Sensor Tower.

Em resposta a reclamações, principalmente da Keeta, o Cade iniciou recentemente uma investigação contra a 99Food para apurar se a empresa está abusando de sua posição dominante no setor de entrega de comida. A Keeta argumenta que a 99Food estava proibindo restaurantes parceiros de firmar contratos com ela e a Rappi através de incentivos financeiros.

Em comunicado, a 99Food disse que o procedimento está de acordo com o protocolo padrão do Cade e “é essencial para garantir condições que permitam a efetiva atuação de novos players, como a 99Food, ampliando a concorrência e a diversidade de ofertas a consumidores, restaurantes e entregadores”.

A atenção regulatória agora se estende aos aplicativos. Em maio, o Cade abriu uma investigação contra a iFood por suspeita de descumprimento do acordo de 2023 que limitou contratos de exclusividade com restaurantes.

O iFood se defendeu, afirmando que segue comprometido com o cumprimento integral dos termos do acordo. Dias depois, o iFood entrou com uma ação civil contra a Keeta por concorrência desleal, alegando espionagem corporativa.

Apesar do escrutínio regulatório, o iFood continua forte. Entre abril de 2025 e março de 2026, a empresa afirmou que seus investimentos diretos totalizaram R$ 17 bilhões.

A empresa acaba de adquirir uma participação minoritária na Daki, uma plataforma digital de supermercados local, para expandir sua presença no setor varejista.

A empresa planeja novos investimentos em parcerias com restaurantes, farmácia, mercado e pet shop e infraestrutura digital para transformar o iFood em uma empresa agêntica, afirmou o CEO Diego Barreto.

Leia também: Guerra do delivery: 99Food chega a São Paulo e prevê investir R$ 500 milhões neste ano

Os consumidores utilizam outros aplicativos de forma oportunista para aproveitar descontos subsidiados que chegam a uma média de 50%, “mas assim que as promoções retornam a patamares corretos, em que não existem preços predatórios, a frequência volta a um estágio normal e se concentra no iFood”, disse Barreto.

Em um relatório do ano passado, analistas do BTG Pactual afirmaram que o ecossistema autossustentável do iFood — infraestrutura logística, pedágios de publicidade e programas de fidelidade — continua sendo “extremamente difícil” de replicar em nível nacional.

“Ao combinar fintech, IA, fidelidade e logística, o iFood está transformando a frequência em retorno financeiro e superioridade de dados”, disseram os analistas.

A empresa anunciou no início de fevereiro uma nova experiência de compra para membros de um programa de benefícios exclusivo, o Clube iFood, que oferece R$ 250 em créditos mensais para utilizar em marcas dentro do aplicativo.

O recurso visa aumentar o engajamento e gerar um “novo fluxo de consumidores para os lojistas parceiros, impulsionando o varejo físico e digital”, afirmou a empresa.

Os assinantes do clube têm acesso gratuito ao Spotify Premium e ao YouTube Premium, além de descontos de até 25% na Decolar, entre outras vantagens.

Os aplicativos chineses também estão expandindo suas ofertas.

Leia também: Amazon compra fatia na Rappi e acirra guerra do delivery na América Latina

A plataforma 99Food opera dentro do 99 SuperApp, que oferece transporte de passageiros por carro e moto, entrega de objetos com a 99Entrega e transações financeiras com a 99Pay. Esse ecossistema conta com uma base de mais de 60 milhões de usuários ativos em 3.300 cidades brasileiras, segundo a 99.

A Meituan, empresa controladora da Keeta, afirmou em relatório que busca mudar comportamentos e conquistar clientes que ainda estão à margem do mundo digital.

A estratégia se reflete no Brasil. “No setor varejista, grandes grupos chineses estão de olho no mercado brasileiro e buscando replicá-lo — visando mudar os hábitos de consumo dos brasileiros para plataformas digitais”, segundo Inty Scoss, chefe do escritório da InvestSP em Xangai.

Apesar da vasta experiência em logística, operar localmente exige um período de aprendizado, afirmou Tony Qiu, CEO da Keeta, em entrevista à Bloomberg News no ano passado. “Somos novos aqui, somos humildes. Há muitas coisas que ainda não sabemos e precisamos aprender.”

Em uma mensagem de texto recente, Qiu afirmou que o “foco da Keeta no Brasil é, e continuará sendo, a entrega de alimentos”.

Batalha dos Aplicativos

Alguns locais estão torcendo pelos concorrentes chineses.

Donos de restaurantes e associações do setor esperam que a Keeta e a 99Food aprimorem suas operações locais com embalagens e tecnologia de melhor qualidade, segundo Paulo Solmucci, presidente executivo da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel).

Os entregadores, que frequentemente utilizam vários aplicativos simultaneamente, também veem benefícios.

Leia também: Na batalha do delivery, chinesa Meituan chega ao Brasil com plano de R$ 5,6 bi

Edson Cardozo dos Santos começou a fazer entregas para a Keeta em dezembro, após seis anos no iFood. Embora o iFood inicialmente oferecesse uma remuneração atraente, as condições pioraram com o tempo, disse ele, forçando os entregadores a organizar greves para garantir taxas mais altas.

“O iFood, para mim, não era ruim, mas quando eles se tornaram líder no mercado, as coisas começaram a piorar”, disse ele.

Edson está otimista de que a rivalidade beneficiará tanto os entregadores quanto os consumidores. “Sem concorrência, as empresas fazem o que querem com a gente”, afirmou.

Veja mais em bloomberg.com