Under Armour amplia formatos no Brasil com 1ª loja em shopping de alta renda em SP

Marca americana operada pela Vulcabras no país estreia no formato no Villa Lobos; à Bloomberg Línea, o gerente-geral da Under Armour no Brasil Jefferson Lemos trata a unidade como etapa de aprendizado com foco no ticket mais elevado

Under Armour Ahead Of Earnings Figures
PUBLICIDADE

Bloomberg Línea — A Under Armour, dona da chuteira usada pelo jogador Ferran Torres, que marcou o gol do título da Espanha na Copa, decidiu abrir em outubro sua primeira loja em shopping center no Brasil.

A marca americana de vestuário, calçados e acessórios esportivos escolheu o Shopping Villa Lobos, em São Paulo, para sua nova aposta. A companhia já opera seis lojas de outlet no país.

PUBLICIDADE

À Bloomberg Línea, Jefferson Lemos, gerente-geral da Under Armour no Brasil, disse que a unidade será a primeira fora do formato de outlet, o que desloca a operação do desconto para o varejo de preço cheio. A gestão da marca no Brasil cabe à Vulcabras (VULC3), dona da Olympikus e representante da japonesa Mizuno.


Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.


O endereço é um ativo da Allos (ALOS3), uma das maiores gestoras de shoppings da América Latina. Segundo o balanço do primeiro trimestre, a Allos detém 63,4% do Villa Lobos, que tem 28.394 m² de ABL (Área Bruta Locável) e ocupação de 96,1%.

PUBLICIDADE

Inaugurado em 2000, o shopping fica no Alto de Pinheiros, bairro de renda alta na zona oeste, mas se define como shopping de vizinhança, com mix de moda concentrado em marcas nacionais.

Leia também: C&A aposta em marca própria de athleisure: ‘Nova avenida de crescimento’, diz CEO

O Villa Lobos passa por reforma em 2026, com modernização do corredor principal de circulação (promenade) e um novo boulevard gastronômico integrado ao edifício vizinho.

PUBLICIDADE

A chegada de uma marca global de ticket mais alto se soma ao esforço de elevar mix e rentabilidade de um ativo maduro, num trimestre em que a gestora reportou vendas totais de R$ 9,46 bilhões, alta de 4,7% na comparação anual.

O movimento acompanha uma transição no varejo esportivo, em que marcas estrangeiras trocam a dependência de multimarcas e atacado por lojas próprias em São Paulo.

A suíça On abre loja no JK Iguatemi, da Iguatemi (IGTI11), e no MorumbiShopping, da Multiplan (MULT3), depois de anos restrita a e-commerce e multimarcas. Nesse último shopping, um tapume sinaliza uma futura operação da Track&Field, marca brasileira de vestuário esportivo.

PUBLICIDADE

Etapa de aprendizado

Lemos descreve a loja menos como ponto de venda e mais como laboratório de operação, um teste antes de qualquer plano de expansão.

“Vamos abrir a loja para aprender a operar ainda mais no detalhe, para descobrir as nuances do negócio, para que tenhamos um processo natural de crescimento”, disse.

O aprendizado brasileiro contrasta com o momento da matriz. Fundada em 1996 e sediada em Baltimore, a Under Armour atravessa a quarta reestruturação de sua história.

No ano fiscal encerrado em março, a receita global caiu 4%, para US$ 5 bilhões, com recuo de 8% na América do Norte e alta de 22% na América Latina, a região que mais cresce para a marca. O corte de 25% no portfólio de produtos em dois anos resume a estratégia: encolher para reposicionar em preço mais alto.

Leia também: Bath & Body Works planeja expansão no Brasil após estreia com fila em São Paulo

O descompasso entre matriz em contração e filial em expansão nasce do modelo de operação. No Brasil, a Vulcabras define os canais, fabrica parte da linha e a administra a marca da Under Armour ao lado de Olympikus e Mizuno. A tese de varejo próprio, o capital e o risco pertencem à licenciada.

A Vulcabras fechou o primeiro trimestre com lucro líquido recorrente de R$ 86,1 milhões, queda de 18,9%, e receita recorde de R$ 776,4 milhões, no 23º trimestre seguido de alta. A ação da empresa (VULC3) fechou a R$ 13,81 em 23 de julho, ante cerca de R$ 20 no início do ano, e a parceria com a Under Armour completa dez anos em 2028.

Boa parte do portfólio vem da Ásia, sobretudo da China, o que pressiona o preço para cima, e a produção pela Vulcabras, em seu centro de inovação em Parobé, no Rio Grande do Sul, devolve competitividade ao calçado desenhado para o consumidor brasileiro. São 16 modelos concebidos no país, a caminho de 18, entre eles o Non-stop e o Endless, que estrearam em abril na linha de performance.

“Hoje os nossos calçados da Under Armour têm muitas vezes origem na Ásia, muitas vezes na China, e isso faz com que tenham um ticket médio mais alto”, afirmou Lemos, que não abriu o preço médio nem o ticket esperado para a loja.

A loja traduz essa dupla origem, global e local, em uma vitrine editada. Serão de 250 a 300 SKUs (código único de cada combinação de modelos, cores e tamanhos de produto no sistema), ante mais de mil no site, com 80% da área em vestuário e acessórios e 20% em calçado. Os preços vão de R$ 359 a R$ 1.999, faixa do Velocity Elite 3, modelo global de corrida, e a rede soma 4 mil pontos de venda no país.

“No nosso site temos uma prateleira infinita, mais de mil SKUs. Para a loja, vamos trabalhar entre 250 e 300, muito bem qualificados, mostrando o que a marca tem de novidade tecnológica, de inovação e de performance”, afirmou.

Mudança do consumidor

A loja própria também responde a um deslocamento de hábito. O consumo esportivo deixou de ser evento e virou rotina, com corrida e treino no centro.

Lemos afirma que treino e academia são a segunda atividade física mais praticada no país, atrás apenas da caminhada, e planeja usar o espaço para mostrar tecnologias hoje restritas ao site, como o boné StealthForm e a mochila No Weigh Backpack. Para ele, o e-commerce é canal de conveniência, e a loja, de experiência.

Três marcas esportivas sob a mesma gestora acendem a questão da canibalização, sobretudo entre Under Armour, Olympikus e Mizuno, que disputam o mesmo corredor e a mesma academia. Lemos sustenta que os posicionamentos não se sobrepõem e cita mais de 20 trimestres consecutivos de crescimento do grupo.

“No nosso portfólio temos marcas complementares. Cada marca tem um papel e uma função, e não existe canibalização”, disse.

No portfólio global, corrida e treino concentram a demanda brasileira, enquanto futebol americano e golfe pesam mais no exterior. A marca não tem linha de tênis, categoria em alta no país.

Leia também

Do vôlei aos investimentos: o que o bicampeão olímpico Giovane aprendeu sobre dinheiro