Aposta na FMU vira teste de execução para a Ânima e pressiona ações, dizem analistas

Aquisição da FMU por R$ 410 milhões transformou uma história de redução de dívida em um teste de execução; Citi rebaixou a ação para venda, JPMorgan cortou o lucro projetado e a Moody’s alertou para o aperto nos covenants

Fachada de unidade da FMU em São Paulo. A instituição, com 51 mil alunos e conceito 5 no MEC, passa a integrar novamente o ecossistema Ânima após cinco anos sob controle do fundo Farallon
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Bloomberg Línea — A aposta da Ânima Educação (ANIM3) na compra da FMU, anunciada em 14 de julho, deixou de ser uma história de crescimento e virou um teste de execução, segundo analistas de bancos estrangeiros. Três casas de análise refizeram suas contas sobre a companhia, e o resultado fez a ação acumular uma queda de 59% em seis meses.

Na sexta-feira (24), o papel fechou cotado a R$ 2,05, queda de 5,53% no dia. No acumulado de 2026, a desvalorização passa de 37%. Em 12 meses, a baixa chega a 43%.

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A Ânima vinha sendo vendida ao mercado como uma história de simplificação e redução de dívida, segundo analistas. Ao comprar um ativo ainda em recuperação judicial por um valor considerado alto, a empresa trocou esse enredo por outro, o da capacidade de integrar a nova instituição sem tropeçar.

Em meio a dúvidas, o mercado passou a cobrar um desconto. O gatilho foi o acordo para adquirir a FMU (Faculdades Metropolitanas Unidas) por um equity value (valor atribuído ao patrimônio) de cerca de R$ 410 milhões.

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A instituição tem 51 mil alunos e seis campi na cidade de São Paulo, e sua incorporação eleva a base da Ânima em cerca de 15%, de 340 mil para 392 mil estudantes, além de acrescentar aproximadamente 7% à receita líquida, que passaria de R$ 4,1 bilhões para R$ 4,4 bilhões.

O ponto sensível está na conta financeira. A Moody’s, agência de classificação de risco, considerou a operação neutra para a nota de crédito, hoje em AA.br estável, mas alertou para o que vem depois.

“Pressões adicionais poderão enfraquecer o perfil de crédito da companhia”, escreveram as analistas Barbara Rocha e Patricia Maniero.

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A margem operacional da FMU, em torno de 19%, está abaixo dos 34% a 47% dos ativos comparáveis dentro do grupo. Recuperar essa rentabilidade é descrito pela agência como “importante oportunidade de geração de valor”, mas dependente de execução gradual.

A alavancagem líquida ajustada, usada nos covenants (cláusulas contratuais que protegem os credores), sobe de 2,4 para 2,7 vezes o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização), aproximando-se do teto de 3,0 vezes e deixando, segundo a Moody’s, “margem de manobra mais estreita” diante de qualquer frustração de resultado.

Procurada pela reportagem, a Ânima confirmou que a alavancagem passa de 2,39 para 2,73 vezes, conforme apresentado em webinar ao mercado.

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A empresa, porém, diz que não se trata de uma projeção, e sim de um múltiplo proforma, obtido ao somar o resultado da FMU nos 12 meses encerrados em 31 de março de 2026 aos números públicos da Ânima no mesmo período.

O múltiplo proforma retrata o passado combinado das duas empresas, não uma estimativa de para onde a dívida caminha.

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A reavaliação do valor da ação veio rápido. O JPMorgan manteve recomendação neutra, mas cortou em 18% a projeção de lucro por ação para 2027, por causa do múltiplo de 10 vezes o Ebitda pago pela FMU, um preço equivalente a dez anos do lucro operacional atual do ativo, que eleva as despesas financeiras da compradora. O banco reduziu o valor justo estimado para a faixa de R$ 3,10 a R$ 4,00 por ação.

O tom mais duro veio do Citi, que rebaixou a ação de neutra para venda e reduziu o preço-alvo de R$ 4,80 para R$ 1,80, com cortes de 7% e 24% nas estimativas de lucro de 2026 e 2027 e uma destruição de valor calculada em cerca de R$ 387 milhões.

Para o Citi, a aquisição transformou a narrativa da empresa “de uma história de desalavancagem e simplificação para complexidade de integração e aumento da alavancagem”.

O banco ainda ponderou que os desafios de integração e a pressão sobre o balanço “aumentam o risco de execução”, num momento em que as tendências operacionais já se deterioram, com evasão de alunos em alta. A casa espera um segundo trimestre fraco, a ser divulgado em 14 de agosto, com queima recorrente de caixa de R$ 38 milhões.

Há contrapontos. O aumento recente da participação dos controladores é lido como sinal de confiança, e a FMU carrega atributos relevantes: é a quinta maior instituição privada de ensino presencial da capital paulista, forte em direito e na área de saúde, com nota máxima do MEC (Ministério da Educação).

O negócio ainda depende do aval do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) e pode não se concretizar.

O balanço de 14 de agosto será o primeiro teste da tese. Ele mostrará se a deterioração apontada pelos analistas se confirma antes mesmo de a FMU entrar nas contas, o que está previsto para 1º de janeiro de 2027.

Sobre a onda de revisões, a Ânima informou que não comenta relatórios de analistas nem reações do mercado.

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