Casas Bahia protocola recuperação judicial após quatro anos de alerta do mercado

Varejista de eletrodomésticos, eletrônicos e móveis acumula prejuízo de R$ R$11,181 bilhões no primeiro semestre, dívida de R$ 17,3 bilhões em empréstimos, além de um patrimônio líquido negativo em R$ 8,270 bilhões. Além de demissões e fechamento de lojas, companhia troca comando jurídico

Casas Bahia, no Shopping Norte Shopping, zona norte do Rio de Janeiro
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Bloomberg Línea — O Grupo Casas Bahia (BHIA3) protocolou nesta segunda-feira (16) pedido de recuperação judicial perante o Juízo de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central Cível de São Paulo.

Um dos players mais tradicionais do mercado brasileiro de eletrodomésticos, eletroeletrônicos e móveis declarou na petição uma dívida de R$ 17,3 bilhões. A iniciativa materializa um cenário que analistas do setor alertavam desde o início de 2022, quando a companhia ainda se chamava Via Varejo.

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Há dois anos, o cenário se agravou quando os investidores viram seus receios serem confirmados em auditoria que apontava falta de provisões para eventuais perdas da ordem de R$ 9 bilhões em processos trabalhistas, cíveis e tributários. Foi o estopim para o início de uma reestruturação operacional com centenas de demissões e fechamentos de lojas.

O prejuízo líquido consolidado do grupo somou R$ 11,181 bilhões no primeiro semestre, ante R$ 963 milhões no mesmo período de 2025, dos quais R$ 10,117 bilhões concentrados no segundo trimestre isoladamente.


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O patrimônio líquido tornou-se negativo em R$ 8,27 bilhões, revertendo o saldo positivo de R$ 2,774 bilhões registrado em 31 de dezembro de 2025.

O passivo circulante superou o ativo circulante em R$ 7,837 bilhões no consolidado, e a dívida bruta apenas em empréstimos e financiamentos avançou para R$ 7,034 bilhões, ante R$ 6,298 bilhões no fechamento do ano anterior.

A Ernst & Young absteve-se de emitir opinião sobre as demonstrações, citando incerteza relevante quanto à continuidade operacional da companhia.

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“Nos últimos trimestres, o Grupo Casas Bahia avançou de forma relevante na transformação do seu balanço, com redução expressiva de dívida líquida e de alavancagem financeira, além de nove trimestres consecutivos de melhora sequencial da rentabilidade operacional (margem Ebitda ajustada)”, citou a companhia em seu relatório financeiro do segundo trimestre.

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A equipe de research da XP foi uma das primeiras da Faria Lima a expor em relatórios o risco de um dos mais tradicionais players do varejo popular brasileiro de eletrodomésticos de linha branca, como geladeiras e fogões, à marrom, como televisões e aparelhos de som. Em janeiro de 2022, analistas da XP já tratavam o cenário de ruptura como uma preocupação dos investidores.

Mudança do comando jurídico

O pedido de RJ, aprovado em reunião do board e referendado pela acionista controladora, inclui nove subsidiárias: ASAP Log Logística e Soluções, ASAP Log, CNT Soluções em Negócios Digitais e Logística, Cntlog Express Logística e Transporte, Globex Administração e Serviços, Cnova Comércio Eletrônico, Integra Soluções para Varejo Digital, Casas Bahia Tecnologia e Indústria de Móveis Bartira.

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A companhia também comunicou, no mesmo dia, mudanças na diretoria e no board.

Fábio Eduardo de Pieri Spina renunciou ao cargo de diretor vice-presidente jurídico e tributário, com efeitos a partir de 17 de agosto, e passa a atuar como consultor da companhia. Sírley Fabiann Cordeiro de Lima assume as áreas de jurídico, tributário, compliance e controles internos como nova diretora vice-presidente. No conselho, dois membros deixaram os cargos: Jackson Medeiros de Farias Schneider e Rogério Paulo Calderón Peres.

O pedido de recuperação judicial marca o desfecho de um processo prolongado de deterioração financeira da rede varejista, que soma décadas de operação no mercado brasileiro sob as marcas Casas Bahia e Ponto (ex-Pontofrio).

A combinação entre o pedido judicial e a reformulação simultânea da cúpula jurídica e do conselho sinaliza ao mercado que a reestruturação passa a ser conduzida sob nova governança, com assessoria da Alvarez & Marsal e do escritório Thomaz Bastos, Waisberg, Kurzweil Advogados, que acompanharam a reunião do colegiado.

O CEO Renato Franklin e o CFO Elcio Ito tentaram nos últimos três anos conduzir um processo que batizaram de “plano de transformação”, focado em simplificar a operação, enxugar folha de pagamento, reduzir estrutura e firmar parcerias, em meio a uma conjuntura desfavorável com a menor demanda no mercado de bens duráveis e maiores despesas financeiras.

No documento da RJ, a companhia atribuiu o pedido a um ambiente macroeconômico desafiador, marcado por juros elevados, restrição de crédito, aumento do custo financeiro e pressão sobre consumo e capital de giro, somados à não concretização de alternativas de liquidez que vinham sendo estruturadas, segundo fato relevante assinado pelo CFO.

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O grupo fechou 298 lojas e demitiu cerca de 1.900 funcionários em agosto, em um corte que atingiu quase 30% da rede física. A medida foi divulgada primeiro pelo jornal Valor Econômico no último dia 14.

Durante o processo de RJ, a Grupo Casas Bahia afirmou que “pretende manter as operações em todos os canais existentes, sem interrupções relevantes no atendimento a clientes e consumidores, e nos níveis de qualidade e serviço atualmente praticados”.

A estratégia de reestruturação prevê reorganização da operação em torno das linhas de negócio mais rentáveis e com maiores margens de contribuição, além de reperfilamento e alongamento das dívidas financeiras e operacionais.

Na governança, Cláudia Quintella Woods assume o comitê de auditoria estatutário no lugar de Rogério Calderón, e André Luiz Helmeister passa a integrar o comitê de finanças na mesma vaga. Jackson Schneider, apesar de ter deixado o conselho de administração, permanece como membro coordenador do comitê de auditoria, riscos e compliance e do comitê independente de investigação.

Próximos passos

A ata da reunião do Conselho, realizada no domingo (16) na sede da companhia, também aprovou a convocação de Assembleia Geral Extraordinária. A AGE deverá ratificar tanto o pedido de recuperação judicial quanto a redução do número de conselheiros em exercício, de sete para cinco membros, conforme edital a ser divulgado.

O pedido de recuperação judicial da Grupo Casas Bahia se soma a uma série de processos recentes de reestruturação no varejo brasileiro, em meio a um ciclo de juros elevados que pressiona empresas intensivas em capital de giro.

Criada em 1952 em São Caetano do Sul, na Grande São Paulo, a Casas Bahia perdeu espaço com a ascensão de players tradicionais do setor, como Magazine Luiza (MGLU3), e de entrantes digitais como Mercado Livre (MELI) e Amazon (AMZN), principalmente a partir dos anos 2000 e 2010.

Ao longo de sua história, o grupo teve seu controle vendido em 2009 por Samuel Klein ao GPA (Grupo Pão de Açúcar) e teve sua marca associada a controvérsias familiares que vieram a público em processos judiciais após a morte do fundador em 2014, como o litígio entre os herdeiros sobre a partilha e inquéritos sobre aliciamento e exploração na época em que a família Klein comandava a varejista.

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