Bloomberg Opinion — Além de estarem entre os clubes de futebol mais populares do Brasil, Flamengo, Corinthians e Palmeiras têm outra coisa em comum: os três fecharam contratos de patrocínio com montadoras chinesas neste ano.
O futebol pode ser rei no Brasil, mas não é o único campo em que empresas chinesas estão conquistando espaço rapidamente no país. Dos carros elétricos da BYD e smartphones da Xiaomi ao aplicativo de transporte 99, da Didi, marcas chinesas se tornaram presença constante nas ruas e nas telas dos celulares dos brasileiros, resultado de uma ofensiva agressiva no maior mercado consumidor da América Latina.
Isso amplia a influência, o soft power e o poder econômico de Pequim num momento em que Washington tenta explicitamente reduzir a presença da China no Hemisfério Ocidental.
A geopolítica pode não estar no topo das preocupações dos quase 159 milhões de brasileiros aptos a votar no domingo (4), mas a rivalidade entre Estados Unidos e China estará discretamente presente na eleição mais importante do ano.
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Uma vitória do adversário Flávio Bolsonaro aproximaria o Brasil dos EUA, dados os laços estreitos de sua família com a Casa Branca do presidente dos EUA, Donald Trump. A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, por outro lado, provavelmente reavivaria muitas das tensões que marcaram os últimos dois anos desde a volta de Trump ao poder, entre elas o ativismo do bloco Brics, liderado pela China.
Mas essa visão binária deixa de lado uma questão maior: sob vários aspectos, os EUA já perderam para a China boa parte da influência estratégica que tinham no Brasil, enquanto Pequim constrói uma aliança comercial, empresarial e política mais profunda com a maior economia da região. É improvável que isso seja revertido tão cedo, independentemente do resultado da votação de 4 de outubro.
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Sim, Flávio Bolsonaro provavelmente se alinharia mais a Trump no combate ao crime organizado e na proteção de setores estratégicos. Ele provavelmente construiria uma parceria sólida com a Casa Branca em iniciativas de grande repercussão, como o Escudo das Américas. Talvez consiga até reduzir as tarifas injustificáveis dos EUA sobre exportações brasileiras e acelerar a cooperação em minerais críticos. Mas, se você acha que uma presidência de Flávio Bolsonaro estaria disposta a colocar em risco a relação do Brasil com a China, é melhor reconsiderar.

Veja o comércio. A China se tornou o maior parceiro comercial do Brasil em 2009, e a relação só se expandiu desde então. O gigante asiático respondeu por pouco mais de 29% do comércio total brasileiro nos primeiros oito meses deste ano, ante apenas 11,5% dos EUA, segundo dados do governo. Uma década atrás, a diferença era bem menor: 19% contra pouco menos de 15%.
Neste ano, as exportações brasileiras para a China devem bater outro recorde, impulsionadas pelos embarques de soja e petróleo, o que torna o país asiático responsável por quase metade de todo o superávit comercial do Brasil. O país também compra cada vez mais da China: até agosto, importou US$ 52,3 bilhões em mercadorias chinesas, quase o dobro dos US$ 27,3 bilhões comprados dos EUA em meio à guinada protecionista de Trump.
O Brasil foi o principal destino mundial dos investimentos chineses em 2025, segundo estimativas do Conselho Empresarial Brasil-China, organização sem fins lucrativos com sede no Rio de Janeiro e dedicada às relações bilaterais. Desde 2007, a China acumulou um estoque de investimentos de US$ 85,5 bilhões em 355 projetos, segundo o grupo.
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Entre os exemplos recentes de maior destaque, o TikTok, da ByteDance, anunciou em dezembro mais de R$ 200 bilhões em investimentos em data centers no Ceará, seu primeiro projeto na América Latina.
Como resultado, a integração econômica do Brasil com a China, outro integrante dos Brics, tornou-se tão ampla que qualquer líder que a colocasse em risco cometeria suicídio político. Jair Bolsonaro, pai de Flávio e atualmente preso, governou de forma pragmática entre 2019 e 2022 apesar de sua simpatia por Trump, plenamente consciente da dependência do poderoso agronegócio brasileiro em relação à demanda chinesa.
Se eleito, Flávio Bolsonaro pode ser mais enfático ao defender um alinhamento com Washington, mas dificilmente se afastará muito da antiga tradição brasileira de equilibrar as relações entre grandes potências. Se há algo que os formuladores de políticas públicas do Brasil temem hoje é serem obrigados a escolher entre EUA e China. E, ao contrário dos EUA, a China não está pedindo que façam essa escolha.

Essa é a dimensão do desafio estratégico que os EUA enfrentam no Brasil. Apesar do histórico sentimento pró-americano do país, a presença econômica da China avança para segmentos de maior valor agregado, enquanto os repetidos ataques de Trump prejudicaram a imagem dos EUA entre os brasileiros.
Uma pesquisa recente do PoderData constatou que 52% dos eleitores dizem que o Brasil deveria fortalecer os laços comerciais com a China, enquanto apenas 35% afirmam que deveria priorizar os EUA. É quase o inverso do resultado da mesma pesquisa um ano antes. O déficit de soft power dos EUA não desaparecerá com um novo governo em Brasília nem com um pouco de afago diplomático. Afinal, Trump passou até agora seu segundo mandato sem um embaixador confirmado em Brasília.
Apesar das recentes turbulências nas relações bilaterais, Washington tem uma oportunidade real e oportuna de reconstruir a presença e a influência dos EUA no Brasil. Em uma viagem recente a Brasília, ouvi estrategistas alertarem para os riscos de uma aproximação excessiva com a China — e não apenas pela reação que isso poderia provocar na Casa Branca.
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Cresce a preocupação com a dinâmica subjacente das relações econômicas entre Brasil e China: o país ainda exporta principalmente commodities, ao mesmo tempo que importa da China produtos manufaturados e bens intermediários, o que o deixa em posição menos favorável para criar empregos industriais de maior valor agregado.
O boom de veículos híbridos e elétricos chineses relativamente baratos, por exemplo, é uma ótima notícia para os consumidores brasileiros. Mas representa um sério desafio para a indústria automobilística brasileira e seus fornecedores, que argumentam, não sem razão, que enfrentam condições desiguais de concorrência. Esse é exatamente o tipo de setor em que EUA e Europa poderiam se associar ao Brasil para construir cadeias alternativas de suprimentos que fortaleçam a indústria local e reduzam a crescente dependência do país em relação à China.
Isso, porém, exigirá tempo, dinheiro e envolvimento contínuo — características que não definem exatamente a política atual. Washington pode interpretar uma vitória de Flávio como uma vitória própria, uma validação de sua política para o Brasil e uma prova de que a guinada da América Latina à direita está completa.
Transformar isso em negócios, investimentos e influência estratégica duradoura, no entanto, será muito mais difícil. Basta perguntar a Javier Milei, da Argentina, ou a Daniel Noboa, do Equador, dois dos aliados regionais mais próximos da Casa Branca que continuam aproveitando os laços econômicos com a China. Se os EUA quiserem reconquistar o coração e a mente do Brasil, afinidade ideológica no topo não será suficiente.
Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.
JP Spinetto é colunista da Bloomberg Opinion e escreve sobre negócios, economia e política na América Latina. Anteriormente, foi editor-executivo de economia e governo da Bloomberg News na região.
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