Bloomberg — O alívio dos preços do petróleo com o acordo assinado entre EUA e Irã para reabrir o Estreito de Ormuz permitirá ao Banco Central cortar a Selic em 0,25 ponto percentual, pela terceira vez seguida, para 14,25% ao ano, segundo expectativa majoritária do mercado e dos economistas.
Para os próximos passos, no entanto, há divergências, tanto sobre a continuidade do ciclo à frente quanto para os sinais que o BC poderá emitir no comunicado que acompanha a decisão desta quarta-feira (17).
Parte dos analistas enxerga a possibilidade de continuidade do ciclo de “calibração” dos juros, que é como o BC tem chamado o processo de redução da Selic para um patamar ainda no terreno restritivo.
Há ainda os que esperam que o corte de quarta-feira seja o último, em função da desancoragem das expectativas inflacionárias, atualmente acima da meta no horizonte relevante para a política monetária, da atividade aquecida e do dólar mais alto. Um grupo menor de operadores acredita ainda que a Selic será mantida no atual patamar.
⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.
Sobre o tom do comunicado, a maior parte espera uma linguagem cautelosa, mas não há consenso se o BC dará uma indicação explícita sobre os próximos passos — indicando um novo corte ou uma pausa — ou se adotará uma postura “dependente de dados”.
O Citi acredita que, caso o corte se confirme, “a autoridade monetária adote um tom mais duro em sua comunicação, possivelmente reconhecendo que o ciclo de calibração da taxa de juros é mais curto do que se imaginava inicialmente” pela desancoragem das expectativas, disseram os analistas do banco em relatório.
A diversidade de visões se deve à volatilidade do cenário e das condições econômicas. A combinação de avanço das expectativas na Focus, a reprecificação das apostas para os juros do Federal Reserve e o posicionamento técnico dos agentes financeiros nos juros futuros pressionaram recentemente a curva do DI futuro, que chegou a precificar uma improvável alta da Selic para até 15,25% em meados de 2027.
Leia também: Reabertura de Ormuz pode levar meses mesmo após acordo EUA-Irã, dizem analistas
Após o acordo EUA-Irã, as apostas recuaram e agora indicam chance de um último corte da Selic na quarta-feira como cenário mais provável.
“Eu estava num vaivém e decidi manter a minha previsão de mais três cortes de juros”, incluindo o da próxima reunião, disse Olga Yangol, chefe de pesquisa econômica e de estratégia para mercados emergentes do Crédit Agricole.
Para ela, a comunicação do BC será “aberta, dependente de dados e não comprometida”, provavelmente mantendo referência sobre os impactos do conflito no Oriente Médio.
Leia também: EUA e Irã chegam a acordo para encerrar a guerra e reabrir o Estreito de Ormuz
Já Milena Landgraf, sócia e CIO macro da Jubarte Capital, avalia que uma pausa na reunião seguinte seria um movimento importante “para preservar sua credibilidade e evitar uma deterioração adicional das expectativas”.
Confira os comentários de analistas abaixo:
- Alberto Ramos, economista-chefe para América Latina do Goldman Sachs:
- Expectativa é de que o Copom promova um novo corte de 0,25pp na Selic, para 14,25%, acompanhado de uma sinalização hawkish
- BC deve indicar barra elevada para a continuidade do ciclo de afrouxamento ou mesmo uma comunicação explícita sugerindo uma pausa no processo de normalização da política monetária
- “Avaliamos em 40% a probabilidade de manutenção da taxa, diante do cenário desafiador para a inflação”
- Itaú Unibanco, em relatório:
- BC deve cortar Selic em 0,25pp e comunicar que o espaço remanescente para qualquer calibração adicional é mais incerto
- “Não acreditamos que o comitê irá descrever o balanço de riscos para a inflação como assimétrico, uma vez que tal mudança poderia levar o mercado a passar a discutir altas de juros de forma mais concreta”
- Cenário atual sugere trade-off bastante delicado entre avançar no processo de flexibilização (em particular, em meio às incertezas crescentes no âmbito doméstico, dado o alto grau de alavancagem das empresas e das famílias), e o risco de deterioração adicional do ambiente inflacionário
- “Em termos líquidos, desde a última reunião, o tamanho total do ciclo parece ter diminuído”
- Milena Landgraf, sócia e CIO macro da Jubarte Capital:
- Prevê corte de 0,25pp acompanhado de comunicação mais cautelosa pelo Copom
- Avalia que BC deve sinalizar pausa no ciclo de cortes já na reunião seguinte, “movimento que consideramos importante para preservar sua credibilidade e evitar uma deterioração adicional das expectativas”
- Destaca que a curva de juros já precifica prêmio para eventuais altas de juros a partir do final deste ano
- Guilherme Preciado, membro da equipe de gestão do Opportunity Total:
- Espera mais corte de 0,25pp, sem comunicar explicitamente o fim do ciclo, mas adotando postura de mais cautela citando desenvolvimentos piores do cenário inflacionário
- Discurso deve ser “‘data dependent’, mantendo o leque de possibilidades aberto, mas na prática o tom mais ‘hawkish’ tende a conduzir o mercado para esperar que esse seja o ultimo corte”
- Mauricio Une, economista-sênior para Brasil do Rabobank:
- Avalia que BC deve seguir notando riscos simétricos no balanço para inflação, mas que autoridade monetária precisa “sublinhar a necessidade de cautela na avaliação dos efeitos secundários”
- Expectativas de inflação podem voltar a ceder ao longo do segundo semestre, considerando que demanda agregada deve se manter estável ao longo de 2026 e há a possibilidade de choques secundários se dissiparem em sua maior parte
- Alejandro Cuadrado, responsável global para câmbio e estrategista-chefe para América Latina do BBVA:
- Vê corte de 0,25pp, com linguagem ‘hawkish’, sem forward guidance
- Flávio Serrano, economista-chefe do Banco BMG:
- Espera que o Copom corte novamente a taxa básica em 0,25pp
- “Acreditamos que a estratégia do BC é deixar a comunicação aberta e decidir, em agosto, se é possível cortar, ou não, mais uma de 0,25pp”
- Dan Pan, economista para Américas do Standard Chartered:
- Ainda vê espaço para cortar os juros nesta semana, diante da postura monetária restritiva e da perspectiva de que o choque impulsionado pelos preços de energia provavelmente atinja seu pico em breve
- Também reconhece que o forte ritmo de crescimento dá ao BC pouca urgência para reduzir os juros
- Citi, em relatório:
- Caso corte se confirme, autoridade monetária deve adotar um tom mais duro em sua comunicação, possivelmente reconhecendo que o ciclo de calibração da taxa de juros é mais curto do que se imaginava inicialmente, sobretudo em razão do processo de desancoragem das expectativas de inflação
- Vê Copom reafirmando a necessidade de “serenidade e cautela” na condução da política monetária, mas também adotando uma abordagem mais dependente dos dados nas próximas reuniões
- Ian Lima, gestor de renda fixa da Inter Asset:
- BC deveria dar uma pausa e deixar o ciclo de recalibração em aberto, “deixando implícito que o próximo movimento quando acontecer será de queda e não de alta”
Veja mais em bloomberg.com
© 2026 Bloomberg L.P.








