El Niño ameaça América Latina, e Deutsche Bank identifica os países mais expostos

Banco prevê pressões inflacionárias temporárias e alerta para possíveis efeitos sobre as taxas de juros e a política monetária em países da América Latina, incluindo o Brasil

Cracked ground at the Sogamoso hydroelectric dam near Bucaramanga, Santander department, Colombia, on Sunday, April 21, 2024. The average reservoir levels across Colombia have fallen below 29% of total capacity, just above the critical level of 27% which could trigger power outages. Photographer: Natalia Ortiz Mantilla/Bloomberg

Leia esta notícia em

Espanhol
PUBLICIDADE

Bloomberg Línea — A rápida formação do fenômeno El Niño em 2026, que poderia figurar entre os seis mais intensos desde 1870, volta a colocar a América Latina diante do risco de pressões inflacionárias, alterações na atividade econômica e possíveis repercussões para a política monetária.

Os analistas Beatriz García Núñez e Francisco Campos afirmam que o fenômeno começou a se desenvolver em maio de 2026 e que “um El Niño (muito) forte está se formando, reconfigurando os padrões de chuvas e temperaturas na América Latina e, portanto, representando riscos de alta para a inflação”, uma evolução que, segundo suas estimativas, se estenderá até o primeiro trimestre de 2027.

PUBLICIDADE

Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.


As previsões do banco indicam uma probabilidade de 97% de que o episódio atinja uma intensidade forte e de cerca de 80% de que seja muito forte, com anomalias na temperatura do mar superiores a 2 graus centígrados.

Leia também: Do mirtilo à farinha de peixe: como o El Niño põe em xeque as exportações do Peru

PUBLICIDADE

Essa rapidez no desenrolar dos acontecimentos diferencia este episódio dos registrados em 2015-2016 e 2023-2024 e leva o Deutsche Bank a prever que seus efeitos possam se concentrar em um período mais curto, especialmente sobre os preços dos alimentos e da energia.

Países com maior risco de inflação

A análise econométrica elaborada pelo Deutsche Bank conclui que a Colômbia e o Peru são as economias latino-americanas onde o El Niño terá maior impacto sobre a inflação.

Após avaliar as probabilidades de intensidade do fenômeno, o banco estima que o índice de preços possa aumentar cerca de 1,4 pontos percentuais na Colômbia e 1,1 pontos no Peru até o final de 2026, em comparação com aumentos de 0,4 pontos no Brasil e 0,3 pontos no Chile, enquanto no México o efeito não atinge significância estatística.

PUBLICIDADE

Na Colômbia, a elevada dependência da geração hidrelétrica e a vulnerabilidade da produção agrícola tornam o país um dos mais expostos.

As secas podem reduzir o nível dos reservatórios, elevar os preços da eletricidade e aumentar o risco de racionamento e apagões, além de afetarem culturas como o café.

Leia também: Petróleo, El Niño e tarifas pressionam perspectivas para Wall Street e a América Latina

PUBLICIDADE

Os economistas do Deutsche Bank destacam que “a Colômbia, juntamente com o Peru, é um dos poucos países onde os efeitos inflacionários do El Niño são grandes o suficiente para continuarem sendo estatisticamente significativos”, enquanto a atividade econômica também poderia ser afetada, embora sem resultados estatisticamente conclusivos.

O Peru enfrenta uma exposição ainda mais direta devido ao peso da pesca em sua economia. O aquecimento das águas reduz a disponibilidade de nutrientes e afeta as capturas de anchoveta e sardinha, com consequências para a indústria de processamento.

A isso somam-se chuvas intensas, inundações, deslizamentos de terra e possíveis interrupções nas atividades de mineração e transporte. Segundo o Deutsche Bank, “o impacto estaflacionário do El Niño sobre a economia peruana, embora temporário, pode ser substancial”, com um aumento significativo da inflação e uma queda na atividade econômica que poderia chegar a 1,5 ponto percentual.

Os países com um efeito moderado

O Brasil apresenta um perfil diferente. As secas afetam principalmente o norte do país, enquanto o sul costuma registrar chuvas abundantes. O banco identifica riscos para a agricultura e para os custos da eletricidade, embora suas estimativas apontem para efeitos limitados e estatisticamente não significativos.

No entanto, ele alerta que os altos preços dos fertilizantes e as restrições no fornecimento de fosfatos podem tornar o setor agrícola mais vulnerável do que em episódios anteriores do El Niño.

Leia também: El Niño deve ser o mais forte dos últimos 75 anos, afirmam meteorologistas dos EUA

No Chile, o impacto também seria relativamente moderado. As chuvas podem afetar as infraestruturas e as redes de transporte na região central, enquanto as secas aumentam os custos operacionais do setor de mineração no norte.

O relatório lembra que as chuvas acima da média já causaram inundações, bloqueios de estradas e danos materiais, embora o impacto macroeconômico histórico do fenômeno tenha sido menor do que o observado em outras economias da costa do Pacífico.

O México é o país menos vulnerável entre as principais economias analisadas. Embora o El Niño possa provocar secas e afetar a disponibilidade de água e a produção agrícola, o Deutsche Bank considera que “esses efeitos adversos podem ser parcialmente compensados por efeitos positivos decorrentes de um maior crescimento da economia norte-americana, bem como por um menor risco de furacões ao longo da costa leste do país”, um fator que contribui para que o impacto agregado sobre a inflação e a atividade econômica não seja estatisticamente significativo.

Essas são as razões pelas quais não se encontram evidências estatisticamente significativas sobre a evolução da inflação ou da atividade econômica.

Além das diferenças nacionais, o relatório destaca que o fenômeno pode gerar efeitos regionais significativos sobre o comércio internacional.

Como pano de fundo, lembre-se de que, durante o episódio de 2023, a redução das chuvas fez com que o nível dos reservatórios que abastecem o Canal do Panamá baixasse, obrigando a restrição do tráfego de navios e reduzindo em 32% o volume de carga em janeiro de 2024 em relação ao mesmo mês do ano anterior.

Bancos centrais, juros e o papel do dólar

Além do impacto sobre a inflação, o Deutsche Bank considera que a resposta dos bancos centrais dependerá do contexto macroeconômico de cada país e não apenas do fenômeno climático.

Os autores sustentam que “por se tratar de um choque transitório de oferta, o El Niño é melhor compreendido como um amplificador do que como um impulsionador autônomo da política monetária”, de modo que sua influência dependerá da evolução prévia da inflação, da credibilidade de cada banco central e das condições financeiras internacionais.

Leia também: El Niño ameaça agravar crise dos produtores de arroz no Rio Grande do Sul

Nesse contexto, o banco identifica o Banco da República da Colômbia como a instituição com maior probabilidade de reagir por meio da política monetária, devido às expectativas de inflação elevadas, à inflação persistente e aos desequilíbrios macroeconômicos mais amplos.

No extremo oposto, situa-se o Banco Central do Chile, que teria maior margem para não responder diretamente ao choque, desde que as expectativas de inflação permaneçam ancoradas e a atividade econômica continue apresentando fraqueza.

A avaliação para o Brasil, o México e o Peru é mais cautelosa. No Brasil, o Deutsche Bank considera que “o episódio de 2026-2027 poderia se assemelhar ao episódio de 2015-2016 no Brasil, no qual o choque se soma a um contexto político mais amplo e a condições externas difíceis para impedir que o Bacen flexibilize uma postura de política monetária altamente restritiva”, uma avaliação que posiciona o fenômeno climático como um fator adicional dentro de um contexto macroeconômico já complexo.

No México, as pressões adicionais sobre os preços dos alimentos poderiam reforçar o cenário previsto pelo banco de um aumento nas taxas de juros vinculado à evolução do Federal Reserve. No Peru, o banco prevê que a autoridade monetária deva equilibrar o potencial aumento da inflação com a deterioração da atividade econômica antes de decidir o rumo das taxas de juros.

O relatório também aponta a variação do dólar americano como um dos fatores externos que podem amplificar os efeitos do El Niño.

Ao analisar o período de 2015-2016, o Deutsche Bank lembra que a valorização global do dólar coincidiu com a queda do preço do petróleo, a incerteza quanto ao início do ciclo de aumento das taxas de juros pelo Federal Reserve e uma maior volatilidade nos mercados chineses, circunstâncias que contribuíram para manter a inflação elevada em alguns países da região.

No que diz respeito ao cenário atual, a instituição volta a destacar que um possível aperto monetário por parte do Fed, aliado ao impacto do petróleo, representa um risco adicional para as perspectivas das taxas de juros na América Latina, especialmente no Chile e no México.

Embora o Deutsche Bank preveja que as pressões decorrentes do El Niño sejam temporárias, ele considera que a combinação entre inflação, política monetária e condições financeiras internacionais determinará a magnitude final do impacto.

A evolução dos preços dos alimentos, da eletricidade, das expectativas de inflação, do dólar e das decisões dos bancos centrais determinará o impacto econômico de um fenômeno climático que continuará se desenvolvendo nos próximos meses.

Leia também

Chocolate mais caro? Volta do El Niño gera incerteza e ameaça mercado global de cacau

De guerras a mudança climática: tempestade perfeita ameaça a segurança alimentar global