Bloomberg Línea — “Gosto de entrar em categorias onde a competição é maior, porque ataco as fraquezas dos meus concorrentes.”
É assim que o empresário João Adibe, CEO da Cimed, descreve a estratégia do grupo farmacêutico brasileiro em seu plano para atingir R$ 10 bilhões em faturamento até 2030.
A companhia, que começou com 12 produtos há 49 anos, hoje possui mais de 600 em seu portfólio. Para continuar em crescimento, Adibe entende que o caminho passa por disputar mercado em categorias dominadas por gigantes globais do consumo, como Unilever e P&G.
A Cimed deve faturar cerca de R$ 5 bilhões em 2026 com produtos que vão de gel dental a suplementos. No entanto, Adibe relata que hoje a companhia enfrenta um gargalo para expandir a produção: a elevada taxa de juros. “Como você investe em aumento de capacidade com essa Selic?”, disse em entrevista à Bloomberg Línea.
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Com a operação rodando no limite, em cerca de 800 milhões de caixas de remédios por ano, Adibe afirma que investir em aumento de capacidade produtiva levaria a um problema de retorno do capital.
“Se eu criar uma fábrica nova hoje, vou me alavancar e o juro atual não paga o lucro que eu tenho. Sou contra um país de 1% [de Selic], mas tenho que fazer escolhas. Não adianta aumentar preço porque a população não compra, temos que calibrar o tempo inteiro e não vamos perder market share”, observa.
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Cerca de 90% do custo de matéria-prima da Cimed é em dólar, o que encarece ainda mais a operação. “Desde 2019, o dólar chegou a R$ 5 e nunca mais baixou. Mas fazemos hedge a cada seis meses, não ficamos em uma montanha russa.”
No final de março, a Fitch Ratings rebaixou de ‘AA+(bra)’ para ‘AA(bra)’ a classificação Nacional de Longo Prazo da Cimed.
Em comunicado, a agência informou que o rebaixamento reflete a percepção sobre o aumento do risco de crédito da farmacêutica brasileira, diante da dinâmica competitiva dos setores onde a companhia atua e da “expectativa de um novo patamar de rentabilidade da empresa nos próximos anos, após desempenho operacional mais fraco reportado em 2025”.
A Fitch observou ainda que a exposição aos segmentos de medicamentos genéricos e consumer health “pressiona repasses de preços e margens e se caracteriza por forte concorrência”. Por outro lado, a agência manteve “perspectiva estável” para a companhia com base na expectativa de crescimento gradual nos próximos anos.
Adibe esclarece que o rebaixamento da Fitch ocorre em um cenário de pressão para todo o varejo brasileiro. “É a primeira vez na história que o setor cresce menos de dois dígitos.” Ele também afirma que houve mudanças de tributos no setor farmacêutico, o que obrigou a Cimed a alterar o planejamento financeiro e tributário.
“Nosso faturamento cresceu 40% no primeiro semestre em relação ao ano passado, em um desempenho puxado por todos os indicadores”, diz o executivo, destacando que os resultados (auditados pela KPMG) de geração de caixa e endividamento estão muito superiores ao mesmo intervalo de 2025.
“O risco de endividamento que a Fitch apontou no relatório está totalmente equacionado. Nunca deixamos de entregar aquilo que era o combinado.”
Desenvolvimento de portfólio
Adibe conta que enfrentou resistência ao apresentar a proposta de entrar no segmento de bens de consumo. “Sim, me chamaram de ‘louco’. Nosso DNA é farmacêutico e, em uma empresa de consumo, uma tendência nasce e desaparece em 18 meses. O remédio é eterno”, avalia.
Neste contexto, o executivo afirma que, para ele, as ideias de produtos surgem “caminhando pela rua”.
“Tem que ter novidade, história e precisa entregar [resultado], não pode ser enganação. Se não o consumidor não compra de novo, eu preciso de recorrência”, diz.
Hoje, na Cimed, o medicamento representa 70% do faturamento e o restante vem de bens de consumo. A meta é atingir 50/50. “O maior desafio é criar o hábito de um produto novo. Por que o cliente vai trocar o desodorante, o creme dental, o xampu? Tem que ser uma opção agradável, diferente”, diz.
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Adibe está confiante que a Cimed pode ganhar participação de mercado mesmo em um setor dominado por gigantes globais. “Acreditamos que é possível proporcionar uma experiência de produto diferente.”
Na visão do executivo, o país está dividido em dois níveis. “Atualmente, 20 milhões vivem e 180 milhões sobrevivem, substituindo itens.” Neste cenário, ele acredita que somente as marcas que navegarem bem na “pirâmide social” vão sobreviver.
Ele cita como tática a recém-lançada linha de desodorantes que possui o aerossol, que custa R$ 20, roll-on (R$ 12) e, em breve, a versão em creme, que deve custar R$ 5. “Consigo atender todos os públicos com a mesma marca. Queremos vender para os 180 milhões.”
Em paralelo, a empresa aposta em um modelo de distribuição próprio, com 26 centros (CDs) espalhados pelo país, um em cada estado. “Assim, conseguimos dar maior rentabilidade ao varejo. Sem isso, os varejistas não conseguem prosperar”, diz.
A companhia investiu R$ 150 milhões para entregar dois novos CDs para atender à transformação do portfólio. “Tivemos que fazer isso a toque de caixa. Como o mix de produtos mudou, o tamanho das embalagens também, o que altera as margens.”

Nos últimos anos, a empresa lançou novas marcas dentro do portfólio, como João e Maria, voltada para bebês, e Lavitan, de suplementos, e tem uma equipe dedicada a lançamentos da Carmed, que expandiu do hidratante labial para outros itens, como creme dental.
Agora, a companhia tem no cronograma lançamentos de produtos como um bronzeador com proteção solar, além de trabalhar na molécula para uma versão de “caneta emagracedora”, que na avaliação de Adibe pode custar até R$ 100. “A aprovação depende da Anvisa, mas é possível ter o medicamento em um ou dois anos”, estimou.
Sucessão e suporte ao crescimento
Adibe não enxerga, por ora, janela para abertura de capital. Ele afirma que o Fundo Soberano de Cingapura (GIC), que entrou no capital da Cimed no ano passado, não coloca pressão sobre um eventual IPO. “Tive a felicidade de ter um dos melhores parceiros que eu poderia ter, não só pelo valuation, mas pela visão de Brasil, governança. Tem sido um grande aprendizado”, opina.
O GIC entrou na Cimed comprando uma fatia de 5%, de olho no restrito mercado de saúde do Brasil, após nove meses de negociações, relata. Posteriormente, o fundo adquiriu participação adicional de 6%. “O GIC queria mais, mas não deixei, porque é preciso ir passo a passo em uma sociedade.”
Ele comenta que, embora ainda haja resistência de investidores acerca de empresas familiares no Brasil, o GIC buscou entender a atuação da próxima geração na Cimed. “Eles avaliaram que nossos filhos têm muito mais preparo, já que entraram em estruturas maiores. Saber quem são os sucessores foi crucial para a entrada do fundo.”
Adibe é filho do fundador da Cimed, o empresário João de Castro Marques, que faleceu em 2022.
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Além do IPO, Adibe não vê, por enquanto, horizonte para aquisições, devido à expectativa de retorno do investimento. A última ocorreu em fevereiro, com a compra da IceFresh, de creme dental. “Olhamos M&As 24 horas, mas a conta não fecha. Acho que seria muito mais fácil, hoje, fazer uma fusão.”
Enquanto isso, a empresa investe pesado em marketing. Pela terceira vez consecutiva, a Cimed patrocinou a Copa do Mundo da Fifa. “Existia um paradigma que, em dias de jogos da seleção brasileira, o varejo despenca. Nós conseguimos ter os melhores resultados de vendas no varejo justamente nessas datas.”
A estratégia incluiu anúncios e campanhas em programas de TV para levar o consumidor à farmácia com a proposta “compre 1, leve 2” nas linhas participantes.
Ele quer ampliar o poder das redes sociais da empresa e da família - somente o perfil de Adibe no Instagram soma 5,6 milhões de seguidores - para criar histórias que tragam mais engajamento e vendas. Segundo o executivo, a Copa rendeu três bilhões de visualizações com a marca Cimed, incluindo as menções à empresa em perfis pessoais da família.
Para aproveitar o êxito da Copa, a Cimed vai iniciar uma campanha em agosto com a mesma estratégia, batizada de “Semanão de ofertas”. O plano é oferecer os produtos de linhas selecionadas em dobro nos dez primeiros dias de cada mês. “É quando o varejo está aquecido”, frisa.
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