Bloomberg — Muito se tem falado sobre a “gordura” acumulada pelo Banco Central ao longo das últimas reuniões para cortes de juros, mas esse espaço não é infinito e já está próximo do fim, avalia o ex-presidente da instituição, Gustavo Loyola.
Na avaliação do ex-banqueiro central, um segundo corte de 0,25 ponto percentual da Selic nesta quarta-feira ainda é possível. Mas, diante de um cenário externo cada vez mais incerto, a tendência é de freio: com uma possível sinalização de pausa para junho e retomada do ciclo de flexibilização mais adiante ao longo do ano.
“O corte de 0,25pp não é tão certo quanto foi há um mês”, afirmou Loyola, em entrevista à Bloomberg News. “Não me surpreenderia, e seria perfeitamente explicável, se o Banco Central não fizesse nenhum movimento agora.”
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Com o conflito no Oriente Médio mais prolongado, os integrantes do Copom — que muitas vezes se abstinham de dar uma sinalização sobre os próximos passos — devem se tornar ainda mais cautelosos, em razão da imprevisibilidade do cenário externo e dos choques inflacionários já sentidos internamente, avalia o ex-presidente do BC.
Neste contexto, uma mudança no balanço de riscos — até então descrito como simétrico — é esperada e necessária, segundo ele.
“O balanço de riscos piorou desde a última reunião. Os riscos para a inflação aumentaram, enquanto o IBC-Br e outros indicadores de atividade vieram mais fortes do que o esperado.
Se houve surpresa, foi para cima”, disse Loyola. “Há sinais de que a economia ainda não está desaquecida, com o mercado de trabalho permanecendo bastante apertado.”
Até a última reunião, em março, a taxa Selic vinha se mantendo no patamar de 15% por vários meses — o nível mais alto em duas décadas.
Na ocasião, uma parcela significativa de economistas foi obrigada a revisar as apostas para o início do ciclo de flexibilização às vésperas da reunião, reduzindo as expectativas de corte de 0,5pp para 0,25pp, em meio à disparada do petróleo.
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Agora, quase todos os 31 analistas consultados pela Bloomberg preveem um corte modesto de 0,25pp, para 14,50%, com apenas um projetando uma manutenção da taxa básica.
Cabo de guerra
Enquanto o Banco Central puxa de um lado para desacelerar a economia, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva puxa para o outro, colocando em prática medidas de estímulo fiscal e de crédito.
“Há uma preocupação no Palácio do Planalto em relação à reeleição de Lula”, afirmou Loyola. “Isso acaba refletindo sobre a própria política econômica, que fica totalmente à mercê da questão eleitoral.”
Além da ampliação da isenção do Imposto de Renda, outras medidas de caráter expansionista podem pressionar o fiscal ao longo do ano, incluindo iniciativas voltadas ao alívio do endividamento das famílias, como novos programas de renegociação de dívidas e subsídios em combustíveis, avalia.
“Temos visto ações do governo que são expansionistas do ponto de vista fiscal e creditício. Mesmo quando uma medida não tem impacto fiscal direto, ela pode afetar a política monetária”, disse o ex-BC.
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