De Ambev a Femsa: as ações de empresas favorecidas pela Copa, segundo analistas

Analistas veem nas empresas de refrigerantes, cervejarias e empresas de alimentos da América LAtina uma oportunidade de transformar o maior evento esportivo do mundo em um aumento nas vendas

A replica trophy displayed outside the stadium ahead of the FIFA World Cup 2026 Group E match between Ecuador and Ivory Coast at Lincoln Financial Field, Philadelphia Stadium, in Philadelphia, Pennsylvania, US, on Sunday, June 14, 2026. The opening days of the World Cup saw few reports of major problems, with host nations Mexico, the US, and Canada performing well and fans showing enthusiasm. Photographer: Joe Lamberti/Bloomberg

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Bloomberg Línea — A Copa do Mundo de 2026 não só colocou 48 seleções em competição. Também abriu um novo cenário para as empresas de bens de consumo da América Latina, onde engarrafadoras, cervejarias, restaurantes e varejistas buscarão transformar o maior evento esportivo do planeta em mais vendas, melhores resultados e, potencialmente, um impulso para suas ações.

Os analistas concordam que o torneio representa uma oportunidade pouco comum para várias empresas da região, embora tenham opiniões divergentes quanto à magnitude dos benefícios e aos riscos que ainda poderiam limitar o resultado final.

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O ponto de partida foi diferente do de outras Copas do Mundo. A edição de 2026 é disputada no México, nos Estados Unidos e no Canadá, com 48 seleções, 104 partidas e 16 cidades-sede — um formato que ampliou tanto a duração do torneio quanto o número de oportunidades de consumo.

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Para as empresas do setor de alimentos e bebidas, o lucro não dependerá apenas do patrocínio oficial, mas também de onde elas vendem, quais mercados representam a maior parte de sua receita e como os consumidores se comportarão durante várias semanas de intensa atividade futebolística.

Tiago Harduim, analista da Bloomberg Intelligence, afirma que “os principais fatores impulsionadores são o movimento nos mercados anfitriões, a demanda proveniente dos países classificados e a visibilidade dos patrocinadores”.

Essas três variáveis explicam por que algumas empresas aparecem repetidamente entre as favoritas de diversos bancos de investimento.

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As empresas que obtêm lucro

O primeiro critério para identificar os possíveis vencedores da Copa do Mundo é geográfico. A Bloomberg Intelligence compara a proporção da receita que cada empresa obtém nos três países anfitriões e, em seguida, leva em conta a exposição às demais seleções classificadas.

Seguindo esse critério, a Chedraui (CHDRAUIB), a La Comer (LACOMUBC) e a Tiendas 3B (TBBB) concentram 100% de suas vendas nos mercados de origem, enquanto a Walmex (WALMEX*), a José Cuervo (CUERVO*), a Arca Continental (AC*), a Gruma (GRUMAB) e a Bimbo (BIMBOA) também apresentam uma exposição elevada.

Alejandro Rodríguez Bas, diretor global de Finanças, disse durante a coletiva de imprensa que a ideia é tentar aproveitar o maior número possível de oportunidades de consumo, não apenas no México, mas em todo o mundo.

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“Isso acontece durante o verão. É nessa época que nossos pães para hambúrguer, pães e produtos salgados registram as melhores vendas. Por isso, vamos tentar aproveitar o máximo possível de oportunidades de consumo”, disse ele.

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Quando se incluem as receitas provenientes de outros países classificados, a liderança muda em alguns casos: a Ambev (ABEV3) passa a liderar o ranking, com 78% de suas vendas em mercados participantes fora dos países anfitriões.

Em seguida, vem a Arcos Dorados (ARCO), com 66%, o que reflete que o potencial do torneio não depende apenas da realização de partidas, mas também da importância das seleções classificadas nos mercados em que cada empresa atua.

Arca Continental lidera em termos de exposição

Entre as empresas latino-americanas, a Arca Continental se destaca em praticamente todos os relatórios. Harduim considera que sua principal vantagem decorre de uma combinação pouco comum.

O analista explica que “a Arca Continental é uma provável beneficiária da Copa do Mundo, graças à sua presença nas cidades-sede e às suas parcerias de patrocínio com a Coca-Cola”, que é parceira oficial do torneio.

Essa conclusão se deve a uma vantagem operacional concreta. Embora cerca de 80% das vendas da Arca Continental provenham do México, dos Estados Unidos e do Canadá, sua rede também inclui Monterrey, Guadalajara, Dallas e Houston, quatro cidades que já sediaram partidas do torneio.

A Bloomberg Intelligence considera que essa distribuição oferece uma cobertura mais ampla do que a da Coca-Cola FEMSA (KOFUBL), cuja presença nas cidades-sede está mais concentrada na Cidade do México. Esse posicionamento ganha relevância, pois o consumo durante a Copa do Mundo não depende apenas de quem vai aos estádios.

As áreas destinadas aos torcedores, restaurantes, supermercados, lojas de conveniência e encontros em casas multiplicam as oportunidades de compra ao longo de várias semanas. Quanto mais cidades-sede fizerem parte da rede comercial de uma empresa, maiores serão as chances de aproveitar esse aumento na demanda.

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O JPMorgan (JPM) chega a uma conclusão semelhante do ponto de vista financeiro. O banco considera que o segundo e o terceiro trimestres de 2026 apresentam uma combinação especialmente favorável para as engarrafadoras mexicanas, uma vez que as comparações mais favoráveis em relação a 2025 coincidem com o início da Copa do Mundo.

Em um relatório de Lucas Ferreira, Froylan Mendez e Larissa Pérez, o JPMorgan mantém uma preferência relativa pela Arca Continental em relação à Coca-Cola FEMSA, devido à maior visibilidade de suas projeções e ao impulso esperado nos lucros.

Seu cenário base prevê um crescimento de cerca de 2% nos volumes da Arca Continental no México, porcentagem que poderia chegar a 3% caso não se repitam as condições climáticas adversas do ano anterior.

Uma pesquisa realizada pelo Citi (C) reforça essa tese com base no comportamento do consumidor. O México registrou a maior intenção de consumo de refrigerantes entre os sete países analisados, com 77% dos entrevistados, enquanto a Coca-Cola foi a marca preferida por 55% deles.

Renata Cabral, analista do Citi, destaca que “o México se destaca como o mercado mais atraente para bebidas não alcoólicas na pesquisa”, uma vantagem que beneficia tanto a Coca-Cola FEMSA quanto a Arca Continental, especialmente porque o México já sediou campeonatos e a Arca também tem uma presença significativa nos Estados Unidos.

Ambev: o impulso do futebol e dos profissionais do setor

Se o México concentra o maior potencial para bebidas não alcoólicas, o Brasil surge como o principal impulsionador do mercado de cerveja. A pesquisa do Citi mostra que nenhum mercado associa o futebol ao consumo de cerveja de forma tão intensa quanto o Brasil.

58% dos brasileiros esperam aumentar o consumo de álcool durante o torneio e 26% afirmam que beberão significativamente mais, o maior percentual entre todos os países analisados. Além disso, 73% pretendem consumir cerveja durante os jogos.

Com base nisso, o Citi considera que a Ambev apresenta um dos cenários mais favoráveis dos últimos anos. Cabral afirma que “2026 poderá representar um dos cenários estruturais de demanda por cerveja mais sólidos para a Ambev em anos”, apoiado no efeito do futebol, comparações mais favoráveis e um calendário de feriados que também contribuiria para o consumo.

A Bloomberg Intelligence acrescenta mais um elemento. A Ambev obtém cerca de 78% de sua receita em países classificados para a Copa do Mundo e, além disso, participa indiretamente do torneio por meio das marcas Budweiser e Michelob Ultra, ambas associadas à FIFA. Essa combinação amplia o alcance comercial para além do Brasil, em direção a outros mercados latino-americanos.

No entanto, o consenso deixa de ser unânime quando se analisa a magnitude do benefício.

Durante uma reunião organizada pelo UBS com Paulo Petroni, diretor executivo da CervBrasil, a associação que reúne o setor cervejeiro brasileiro apresentou uma visão consideravelmente mais cautelosa para 2026.

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De acordo com os analistas Rodrigo Alcántara, Kevin Zavala e Sanjeet Aujla, o executivo explicou que “o clima, a Copa do Mundo e comparações mais favoráveis devem proporcionar importantes fatores de apoio, enquanto os obstáculos macroeconômicos provavelmente limitarão o potencial de alta”.

Essa cautela se deve a vários fatores. O endividamento das famílias, as altas taxas de juros e o crescimento das apostas esportivas continuam pressionando os gastos discricionários. Além disso, bares e restaurantes já aumentaram seus estoques antes do torneio, de modo que parte do impulso comercial pode ter ocorrido antecipadamente, caso a demanda durante a competição seja menor do que o esperado.

O UBS também identifica uma mudança estrutural no consumo. As apostas esportivas começam a competir diretamente com parte do orçamento tradicionalmente destinado à cerveja entre os consumidores de menor poder aquisitivo, uma tendência que a associação considera que se manterá ao longo de 2026.

Vencedores não dependem apenas do patrocínio

O patrocínio oficial constitui outra vantagem competitiva, embora os analistas concordem que, por si só, ele não garante melhores resultados.

Harduim, da Bloomberg Intelligence, considera que as engarrafadoras da Coca-Cola, a Ambev (ABEV3) e a Arcos Dorados, possuem as plataformas comerciais mais sólidas para transformar o torneio em campanhas de marketing, promoções e ativações em torno dos jogos.

No caso da Coca-Cola, as iniciativas incluíram promoções relacionadas ao álbum da Panini, campanhas digitais, turnês do troféu e ativações presenciais. A Arcos Dorados (ARCO), por sua vez, aproveita o fato de o McDonald’s ser o restaurante oficial para oferecer cardápios especiais associados ao torneio.

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Nem todas as empresas partem da mesma posição. A Harduim considera que a CCU (CCU) e a Coca-Cola Andina (ANDINAB) apresentam um potencial relativamente menor, pois uma parte significativa de suas receitas depende do Chile, país que não conseguiu se classificar para a Copa do Mundo. No caso da CCU, além disso, parte das vendas provém da Bolívia, outro mercado ausente do torneio.

Esse contraste mostra que o impacto econômico da Copa do Mundo dependerá menos do tamanho de uma empresa e mais da combinação entre exposição geográfica, presença nos países participantes e capacidade de transformar o aumento do consumo em maiores receitas.

A atenção do mercado se concentrará agora nos resultados do segundo e terceiro trimestres de 2026, quando começarão a se refletir os efeitos do torneio sobre os volumes de vendas, a evolução do consumo e a capacidade das empresas de transformar a maior Copa do Mundo da história em crescimento operacional.

A duração prolongada do campeonato, o maior número de partidas e a elevada visibilidade de várias empresas latino-americanas tornaram esse período o principal teste para verificar se as expectativas dos analistas acabam se refletindo nos resultados corporativos.

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