Bloomberg Línea — A Copa do Mundo concentra a atenção de milhões de torcedores a cada quatro anos, mas também altera o comportamento dos mercados financeiros. Uma análise da Bloomberg Intelligence constatou que a atividade no mercado de ações costuma diminuir quando as seleções nacionais jogam e que as derrotas tendem a ter um impacto mais visível sobre o ânimo dos investidores do que as vitórias.
Embora algumas das maiores oscilações no mercado de ações tenham coincidido com os resultados do torneio, o estudo conclui que os mercados costumam olhar além do que acontece em campo.
Jennie Li, analista da Bloomberg Intelligence, destaca que “os investidores que buscam sinais para os mercados nos resultados das eleições provavelmente ficarão decepcionados”.
Os dados abrangem partidas disputadas entre 1998 e 2022 e mostram que o desempenho das bolsas de valores permaneceu, em média, próximo de zero após vitórias e derrotas. No entanto, o relatório identifica padrões consistentes no volume negociado e na forma como os mercados reagem a resultados adversos.
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Investidores negociam menos durante a Copa do Mundo
Um dos efeitos mais visíveis do torneio se manifesta na atividade diária dos mercados. A Bloomberg Intelligence constatou que o volume negociado costuma diminuir quando as seleções nacionais disputam partidas da Copa do Mundo, um sinal de que parte da atenção dos participantes se desvia temporariamente das telas de negociação para os jogos.
De acordo com o relatório, “o volume de negociação tende a diminuir quando as seleções nacionais disputam partidas da Copa do Mundo, especialmente nas regiões onde o futebol ocupa um lugar central”.
As quartas de final registraram a maior queda na atividade, com uma redução média de 26% em relação à média dos 30 dias anteriores. Um dos exemplos citados foi a partida entre Brasil e Colômbia nas quartas de final de 2014, quando o volume negociado caiu para 72% de sua média recente.
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O estudo também observou diferenças entre os países com maior tradição no futebol e aqueles onde o esporte tem menor importância. Nos mercados considerados “futebolísticos”, o volume negociado caiu 16,5%, ante 11,6% registrados em outros mercados.
Ainda antes do início do torneio, alguns mercados dos países anfitriões apresentaram um desempenho favorável. As bolsas de valores dos países organizadores registraram um retorno médio de 17,8% durante os doze meses que antecederam a Copa do Mundo, embora esse padrão tenha se enfraquecido após a competição.
Os ganhos médios posteriores foram de apenas 0,1%, uma diferença que sugere que outros fatores econômicos acabam tendo um peso maior sobre os retornos do mercado de ações.

América Latina, a região mais sensível
O relatório identifica a América Latina como a região mais sensível aos efeitos da Copa do Mundo nos mercados financeiros.
O volume negociado nas bolsas latino-americanas caiu, em média, 26% nos dias de jogo, a maior redução entre todas as regiões analisadas. O número supera as quedas observadas na África e no Oriente Médio (-21,1%), na Europa (-11%) e na América do Norte (-7,8%).
Essa diferença mostra que o torneio não apenas atrai uma atenção extraordinária por parte dos torcedores, mas também altera temporariamente a participação dos investidores nos mercados de ações.
A região também aparece com frequência entre as oscilações mais acentuadas do mercado de ações associadas a partidas da Copa do Mundo. Entre as maiores altas está a Colômbia, cuja bolsa subiu 12,73% após uma vitória sobre a Tunísia em 1998, enquanto a Argentina registrou um aumento de 4,47% após conquistar a Copa do Mundo no Catar em 2022.
A Bloomberg Intelligence alerta, no entanto, que muitos desses movimentos coincidiram com outros acontecimentos econômicos e financeiros. Por isso, o relatório destaca que “as condições econômicas e de mercado mais amplas provavelmente são fatores mais importantes para o desempenho do que o torneio em si”.
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Vitórias e derrotas
A assimetria entre ganhar e perder constitui uma das conclusões mais consistentes da análise.
Enquanto as vitórias quase não foram associadas a movimentos positivos nas bolsas, as derrotas coincidiram com recuos mais visíveis. Nos países considerados apaixonados por futebol, as ações registraram um retorno médio de 0,04% após uma vitória e de -0,27% após uma derrota.
A diferença foi ainda mais acentuada na América Latina. As vitórias estiveram associadas a um avanço médio de 0,06%, enquanto as derrotas coincidiram com uma queda de 0,28%.
De acordo com a Bloomberg Intelligence, “as derrotas parecem pesar mais sobre o sentimento do mercado do que as vitórias impulsionam o otimismo”.
Essas evidências também estão em consonância com pesquisas acadêmicas anteriores. Um estudo dos economistas Alex Edmans, Diego García e Øyvind Norli, com base em mais de 1.100 partidas internacionais disputadas por 39 países, constatou que as derrotas das seleções nacionais estavam associadas a retornos negativos no mercado de ações no dia seguinte.
Nesse caso, as vitórias não geraram um efeito estatisticamente significativo. Os autores observaram ainda que o impacto tendia a aumentar nos jogos de maior importância, especialmente nas fases de eliminação direta da Copa do Mundo.
No entanto, o estudo da Bloomberg Intelligence conclui que o impacto agregado continua sendo limitado e que os investidores continuam prestando maior atenção às condições macroeconômicas e aos fundamentos corporativos.
À medida que a Copa do Mundo de 2026 for avançando, os mercados continuarão oferecendo uma nova oportunidade para observar até que ponto o resultado de uma partida pode influenciar o ânimo dos investidores e se as derrotas voltarão a deixar uma marca mais profunda do que as vitórias.
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