Banco do Brasil é desafio para novo governo Lula em meio à inadimplência no agronegócio

Depois de despencar 29% no dia seguinte à eleição e ter estimativas de lucro do terceiro trimestre cortadas, o banco vê a taxa de pagamentos em dia estacionada em 75%, abaixo do projetado, e analistas apontam a BB Seguridade como a primeira fonte de capital a ser acionada antes de um aporte do governo

Banco Do Brasil Releases Earns
Por Matheus Piovesana - Cristiane Lucchesi
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Bloomberg — O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem uma longa lista de tarefas após conquistar uma surpreendente vitória nas eleições no Brasil no mês passado. Entre as prioridades está encontrar uma solução para o Banco do Brasil, controlado pelo governo e que enfrenta dificuldades — e uma das alternativas pode envolver o braço de seguros da instituição.

A BB Seguridade, holding de capital aberto controlada pelo banco, possui subsidiárias que utilizam a rede de distribuição do BB para vender seguros. Os contratos de compartilhamento de receitas que regem essa relação vencem entre 2031 e 2033, e investidores avaliam a possibilidade de uma renegociação antecipada em condições mais favoráveis ao banco.

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“Há soluções antes de o governo fazer algum tipo de aporte,” disse Gustavo Schroden, analista do Citi, em entrevista à Bloomberg News. Schroden recomenda venda das ações da BB Seguridade, argumentando que esse seria o primeiro lugar ao qual o banco recorreria para reforçar seu capital, seja vendendo parte de sua participação, seja revisando os contratos de compartilhamento de receitas.


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As discussões podem começar em breve, embora nenhuma negociação esteja em andamento neste momento, segundo pessoas familiarizadas com o assunto, que pediram para não ser identificadas ao tratar de discussões que não são públicas.

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A prioridade do Banco do Brasil é enfrentar o aumento da inadimplência em sua carteira de crédito ao agronegócio, disse uma das pessoas, acrescentando que eventuais conversas envolvendo a BB Seguridade dificilmente começarão antes de Lula decidir se fará mudanças na administração do banco.

 Novas regras de capital pressionam banco

A atual presidente do Banco do Brasil, Tarciana Medeiros, deverá ser substituída, segundo o jornal O Globo, o que pode significar uma mudança de estratégia.

A escolha para o principal cargo executivo do banco costuma ficar a cargo do presidente da República, e a maioria dos presidentes veio de dentro da própria instituição. Mas o posto é cobiçado por políticos por causa de sua influência.

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“O banco aprendeu ao longo de vários anos que existe uma passagem de bastão,” disse Eduardo Nishio, analista da Genial Investimentos. “O importante é que seja, eu acho, para modos de motivação do pessoal, um funcionário da casa, um funcionário de carreira.”

Os poucos nomes de fora do banco que assumiram o cargo no passado tiveram mandatos mais curtos, como Rubem Novaes e André Brandão, ambos indicados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. Medeiros, a primeira mulher a presidir o banco, permaneceu no cargo durante todo o terceiro mandato de Lula e fez apenas algumas mudanças em sua diretoria.

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Banco do Brasil

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Queda das ações

Muitos investidores veem a BB Seguridade como opção mais segura do que o BB, pois seus negócios não tem risco de crédito. As ações da seguradora acumulam alta de 4,4% neste ano, em comparação com a queda de 24,8% do Banco do Brasil, que é o pior desempenho entre os maiores bancos brasileiros.

No dia seguinte à eleição presidencial do mês passado, as ações do Banco do Brasil caíram 29%, a maior queda em pelo menos 32 anos, diante da preocupação de que a política fiscal do governo Lula prejudique as perspectivas de cortes nas taxas de juros.

Um dia depois, o Citi rebaixou sua recomendação das ações para venda, afirmando que os aumentos esperados nas taxas de juros poderiam dificultar ainda mais a capacidade do banco de gerar receita. O lucro líquido ajustado do Banco do Brasil no primeiro semestre de 2026 foi de R$ 7,34 bilhões, queda de 34% em relação ao mesmo período de 2025.

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O Banco do Brasil é o segundo maior banco da América Latina em ativos. É também o maior financiador do agronegócio no Brasil, mas o setor, há muito um dos motores da economia do país, enfrenta agora um aumento da inadimplência, enquanto as margens dos produtores rurais permanecem comprimidas. O impacto dessa situação sobre os lucros colocou a posição de capital do banco sob os holofotes.

Um programa do governo para aliviar as dívidas dos produtores rurais teve adesão menor do que a esperada, alimentando especulações de que o banco precisará buscar capital em breve, segundo relatório de outubro do BTG Pactual.

Um representante do Banco do Brasil não quis comentar. A BB Seguridade não retornou a um pedido de comentário.

Atraso nos pagamentos crescem desde 2024

O capital principal (Common Equity Tier 1) do banco estava acima do patamar de 11% que a instituição afirmou pretender manter, e seus executivos disseram esperar que ele permaneça próximo a esse nível daqui para a frente. No entanto, uma parcela crescente do patrimônio líquido do BB é composta por créditos fiscais, decorrentes de pagamentos de impostos em excesso, ativos considerados de qualidade inferior uma vez que não estão imediatamente disponíveis para uso.

Segundo um relatório do Goldman Sachs, esse percentual subiu para 53% no segundo trimestre, ante 37% quatro anos antes. A expectativa é que surjam ainda mais ativos fiscais, visto que eles decorrem, em grande parte, de provisões para perdas com empréstimos. Desde o ano passado, os bancos no Brasil têm um prazo de 10 anos para eliminar esse tipo de ativo acumulado antes de 2024; caso não consigam gerar lucro suficiente para isso, deverão deduzir o valor desses ativos diretamente do patrimônio líquido.

“O equity de qualidade tem caído, então tem, na minha leitura, um problema de capital à frente,” disse Schroden, do Citi.

Em uma tentativa de preservar capital, o Banco do Brasil renegociou os pagamentos de um instrumento de híbrido de capital e dívida de R$ 4,2 bilhões devido ao governo, adiando a maior parte desses pagamentos para 2029, disse a instituição em junho. A medida preservaria cerca de sete pontos-base de capital em 2026 e 2027, integrando uma estratégia de capital mais ampla que também incluiu um corte nos dividendos no ano passado.

“Isso dá ao banco um pouco de fôlego”, disse Alexandre Albuquerque, analista da Moody’s, em entrevista.

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No início deste ano, o banco elevou seu limite de capital total; contudo, as opções para captar novos recursos e atingir esse novo nível estão mais restritas do que no passado.

Restrições implementadas na última década limitaram os mecanismos pelos quais o governo poderia injetar recursos, ao passo que a sua participação acionária — que é majoritária, mas por uma margem estreita — deixa pouco espaço para diluição sem colocar em risco o controle da instituição.

O governo brasileiro detém pouco mais de 50% do Banco do Brasil, e as atuais dificuldades fiscais tornam mais difícil uma nova injeção de capital, disse Albuquerque. Segundo o analista, a administração do banco já sinalizou ao mercado que não descarta a venda de ativos.

As estimativas para o lucro do Banco do Brasil no terceiro trimestre caíram cerca de 23% nas últimas semanas, chegando a R$ 3,3 bilhões, segundo analistas acompanhados pela Bloomberg. A taxa de pagamentos em dia permaneceu em 75% — abaixo dos 90% projetados pelo banco para o segundo semestre —, o que, conforme nota do BTG, levanta a possibilidade de um aumento no custo do crédito.

“O banco está em uma situação muito complexa”, disse Schroden, do Citi. “Alguma coisa tem de ser feita.”

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