Bloomberg Línea — “Foi um call denso”, avaliou o CEO do Itaú Unibanco (ITUB4), Milton Maluhy Filho, ao fim da teleconferência com analistas sobre os resultados do terceiro trimestre, que durou cerca de duas horas.
As perguntas vieram num contexto de incerteza, após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que surpreendeu o mercado e provocou forte volatilidade.
Três expressões resumem as preocupações que dominaram a conversa. Credit crunch (crise de crédito) é a contração brusca do crédito, quando bancos e investidores fecham a torneira e empresas e famílias ficam sem financiamento.
Moral hazard, ou risco moral, ocorre quando a expectativa de um socorro futuro estimula comportamentos mais arriscados, como tomar empréstimo contando com uma renegociação adiante. Market share é a fatia de mercado que cada banco detém.
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Maluhy disse que ninguém antevê um credit crunch, mas que as condições são complexas. Apontou o risco de moral hazard em programas governamentais que socorrem devedores só na fase da cobrança. E afirmou que aumentar market share, para o Itaú, é consequência, não objetivo.
A maior parte das perguntas mirou 2027. O CEO descreveu um cenário desafiador, com atividade desacelerando, aumento do desemprego na ponta, comprometimento de renda das famílias em patamar elevado, inflação perto de 6% e juros restritivos por um período prolongado.
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A seguir, os principais temas da teleconferência do Itaú.
Credit crunch e moral hazard
Daniel Vaz, do Safra, perguntou se o “super ciclo de crédito” dos últimos anos, apoiado em fintechs, mercado de capitais e programas do governo, vai continuar ou se haverá uma retração em 2027 ou 2028.
“Eu não tenho a menor dúvida de que houve uma sobreoferta de crédito no mercado”, disse Maluhy, retornado ao tema abordado por ele em 2022, durante a última crise de inadimplência no país.
Segundo ele, em 2013 um cliente tinha em média 1,3 a 1,4 cartão. Hoje tem cinco ou seis. “A liquidez vai até onde o bolso do poupador aguentar. (...) Ninguém está antevendo um cenário de estresse, nem um credit crunch, mas as condições colocadas são complexas.”
Os programas governamentais, segundo o CEO, “ajudam, mas não resolvem estruturalmente”. Para ele, é melhor estimular o crédito na concessão, como fazem Pronampe e FGI, do que atuar só na cobrança. “Isso gera até um moral hazard. As pessoas vão começar a tomar crédito esperando que esse salvamento aconteça”.
Ações do Itaú Unibanco (ITUB4)
Market share
Yuri Fernandes, do JPMorgan, quis saber o que faria o Itaú ganhar fatia de mercado num cenário difícil, em que os bancos já não contam com ferramentas como o cheque especial.
“Market share, para a gente, é consequência. Não é um objetivo”, disse Maluhy, citando os cartões. “Consciente, by design, o nosso market share em cartões caiu. Tivemos que fazer renúncias de market share. Ainda bem que a gente fez.”
Segundo o CEO, abrir mão de mercado faz sentido quando há crescimento insustentável e concorrentes mais agressivos.
“Essa é a hora de perder mercado e não perder dinheiro. Para depois, quando a oportunidade surgir, ganhar dinheiro e ganhar mercado”.
Cenário de 2027 e eleição
Antonio Ruette, do Bank of America, indagou se o banco espera um 2027 particularmente difícil. Quis saber também se o Banco Central pode adotar medidas de capital ou de provisão para conter concorrentes com balanços menos robustos.
“Muitas das medidas que vão gerar o efeito inflacionário e a desaceleração da atividade já estavam contratadas. Então, independentemente de qualquer resultado das urnas, o cenário para 2027 já era desafiador. (...) A gente não trabalha para um cenário conservador, a gente trabalha para um cenário realista.”
Sobre os concorrentes, disse que a principal restrição de qualquer instituição é o índice de capital. E admitiu que a visibilidade “é mais incerta hoje do que era antes de ontem”.
Custo de capital
Eduardo Rosman, do BTG Pactual, observou que, com os juros longos acima de 15%, o custo de capital do Itaú, o retorno mínimo exigido pelos acionistas, se aproxima do topo da série histórica. E perguntou como o banco vê sua posição competitiva.
Maluhy disse que esse custo subiu de 14,5% para 15,25%. “Temos o macro, essa é uma restrição ativa, mas restrições próprias, não. Não temos restrição de capital, não temos restrição de liquidez, não temos restrição de provisões no balanço. (...) É continuar trabalhando para entregar uma rentabilidade sólida, sempre o spread sobre o custo de capital, e reprecificando os negócios na medida que as condições econômicas vão mudando. Então, de novo, não tem bala de prata”.
Provisões
Gustavo Schroeder, do Citi, perguntou quanto das provisões do terceiro trimestre se deve ao crescimento da carteira e quanto já antecipa problemas de 2027.
“O modelo de perda esperada é consequência para a gente. Ele não é um input para a nossa gestão. (...) Se você me perguntar, Milton, você tem algum desconforto em relação às provisões? Ao contrário. Eu tenho um excesso de conforto. (...) Nenhuma disrupção prevista em nenhum dos negócios, mas um cenário que tem desafios”.
Rentabilidade
Marcelo Mizrahi, do Bradesco BBI, quis saber se um mix de crédito com mais garantias, que reduz a margem financeira, pode levar a um ROE (retorno sobre o patrimônio) mais baixo em 2027.
“A gente não dá guidance de ROE. (...) Eu acho que a dinâmica da margem não vai mudar muito. (...) Se vai ser um pouco menor o ROE, é difícil dizer agora. No começo do ano vai ter no guidance um ROE implícito, mas certamente com um nível de rentabilidade bastante adequado para um cenário desafiador”.
Dividendos
Henrique Navarro, do Santander, perguntou se um crescimento mais comedido da carteira, com sobra de capital, vai significar mais dividendos ou reforço de capital.
Maluhy disse que o banco vai manter a política de distribuir como dividendo adicional o capital que exceder 12% do índice de capital principal. O valor deve ser maior em reais, porque o lucro deste ano é mais alto, mas ainda é cedo para estimar o payout, a fatia do lucro distribuída aos acionistas.
“Não estou antevendo nada que justifique uma retenção maior do que a gente já tem retido”.
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