Turbi busca debenturistas para converter dívida em ações e reduzir alavancagem

Conversão envolve titulares das debêntures da 12ª emissão, e a empresa diz que operação já estava prevista; KPMG fez alerta sobre continuidade das operações após prejuízo subir 62% no primeiro trimestre

A Turbi pretende encerrar o ano com quatro lojas em operação, estratégia para ampliar as vendas dos automóveis para consumidores finais. 70% das transações hoje são feitas no B2B

Bloomberg Línea — A Turbi busca autorização de debenturistas para converter os títulos de sua 12ª Emissão em ações da empresa, após a startup de aluguel de carros não realizar o pagamento de juros dos papéis no fim de abril.

A empresa sediada em São Paulo convocou os titulares de suas debêntures da 12ª emissão para uma assembleia no dia 1º de junho, segundo edital de convocação registrado na CVM na noite desta sexta-feira (22). O objetivo é votar sobre o não vencimento antecipado dos títulos, de acordo com o edital.

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A 12ª emissão, realizada em agosto de 2025, é de debêntures conversíveis em ações, da espécie quirografária – ou seja, sem garantia real – e foi estruturada com remuneração de CDI mais 8% ao ano. De acordo com as demonstrações financeiras do primeiro trimestre, publicadas em 15 de maio, o saldo da 12ª emissão era de R$ 34,8 milhões ao final de março.

O pagamento de juros remuneratórios venceu em 26 de abril, segundo os documentos.

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Em resposta à Bloomberg Línea, a Turbi afirmou que a possibilidade de antecipar o vencimento já estava prevista desde a estruturação, e que a proposta “já foi discutida e aprovada pela maioria dos acionistas e debenturistas, e coordenada com outros credores da companhia.”

“A conversão em ações das debêntures representa evolução concreta do perfil de crédito da Turbi e demonstra a confiança e apoio dos acionistas na companhia. A operação reduz o passivo financeiro, fortalece o patrimônio líquido e reduz a despesa financeira da companhia. O efeito, portanto, é a melhora do resultado líquido da empresa, não o oposto”, disse a empresa em nota.


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De acordo com a startup, a operação aumenta o capital social em R$ 80 milhões. A empresa diz que o não pagamento da dívida é sua prerrogativa e que os detentores da dívida são os acionistas da empresa e não credores externos. “⁠A assembleia rejeitará a proposta de não vencimento antecipado pois a ideia é converter a emissão”, disse a Turbi.

Prejuízo no 1o. trimestre e alerta de auditor

A conversão de debêntures em ações ocorre em um momento financeiro delicado. No primeiro trimestre de 2026, a Turbi registrou prejuízo líquido de R$ 19,5 milhões – 62% maior do que no mesmo período do ano anterior.

A despesa financeira trimestral chegou a R$ 48,4 milhões, mais da metade da receita operacional líquida de R$ 90,2 milhões. O caixa consolidado era de R$ 18,9 milhões em março, contra uma dívida bruta total de R$ 837,6 milhões.

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A KPMG, auditora independente da companhia, incluiu em seu relatório do trimestre uma ênfase de incerteza material sobre a continuidade operacional.

“Esses eventos e condições indicam a existência de incerteza relevante que pode levantar dúvida significativa quanto à capacidade de continuidade operacional da Companhia”, escreveu a KPMG.

Nas notas explicativas, a administração da Turbi afirmou que estima que “os recursos provenientes da venda dos veículos, somados à geração de caixa operacional vinda do aluguel desses ativos, serão suficientes para suportar as amortizações previstas”.

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À Bloomberg Línea, a Turbi disse que reitera as informações prestadas em seu último balanço, “que demonstram uma gestão meticulosa e escrupulosa de sua dívida, assim como solidez operacional e crescimento do negócio.”

A empresa destacou que registrou margem Ebitda do segmento de aluguel de carros de 60,5% no trimestre, avanço de 9,3 pontos percentuais sobre o mesmo período do ano anterior, aumento de 52% na receita líquida, para R$ 90,2 milhões; e EBITDA consolidado de R$ 33,2 milhões, 77% mais que no ano anterior.

“A frota aumentou 33% no trimestre, e a taxa de utilização aumentou 2,6 pontos percentuais em relação ao período anterior”, afirmou.

Descumprimento de covenants

Em março, a Turbi já havia convocado uma assembleia de titulares da 7ª emissão de notas comerciais para obter a dispensa do descumprimento do Índice de Cobertura de Juros — métrica contratual que mede a relação entre Ebitda e despesas financeiras e que deveria ser de ao menos 1x —, violado desde janeiro de 2026. Os titulares aprovaram o waiver por unanimidade.

A empresa disse ter identificado o descumprimento de covenants em outros contratos de dívida em abril, sem especificar, e informou que iniciaria “tratativas formais junto às instituições credoras e agentes fiduciários para a obtenção de waivers e a repactuação de cláusulas”, segundo as demonstrações financeiras do primeiro trimestre, publicadas em 15 de maio.

Dias antes de deixar de pagar os juros da 12ª emissão, o conselho de administração da Turbi aprovou uma nova captação da 13ª emissão de debêntures, neste caso com garantia real, no valor de até R$ 265 milhões. Em 30 de abril, R$ 85 milhões foram integralizados. Os recursos, segundo fato relevante publicado pela empresa, serão usados exclusivamente para comprar veículos novos.

A Turbi opera no modelo de aluguel de carros por horas, com uma frota de cerca de 6.500 veículos. Em setembro de 2025, a empresa dizia contar com cerca de 300 estacionamentos em São Paulo e cidades próximas, como Guarulhos, Osasco e região do ABC.

No primeiro trimestre de 2026, a receita de locação somou R$ 60,5 milhões no consolidado. A empresa também vende os veículos da frota após cerca de 25.000 a 30.000 quilômetros rodados, vertical que respondeu por cerca de 31% da receita líquida no primeiro trimestre de 2026.

A Turbi recorreu ao mercado de dívida em ritmo acelerado para financiar sua expansão. Desde 2018, a empresa realizou 13 emissões. Em outubro de 2025, uma captação de R$ 156 milhões foi ancorada pelo Itaú Unibanco. Na época, executivos da empresa disseram à Bloomberg News que as operações de crédito poderiam “abrir caminho para um IPO no futuro”.

À época, o CFO Mario Liao havia reconhecido que o índice de dívida líquida sobre Ebitda da empresa estava entre cinco e seis vezes e que o objetivo era reduzi-lo por meio da venda de uma participação acionária.

O balanço do primeiro trimestre registra que, no período, a Turbi recebeu um aporte de R$ 9,4 milhões da Caravela Capital, fundo descrito pela administração como “focado em tecnologia e mobilidade”. O valor foi contabilizado na reserva de capital da companhia por meio de um mútuo conversível – instrumento que pode se transformar em participação acionária.

Na carta aos acionistas, o CEO Daniel Prado apresentou a entrada da Caravela como uma das “movimentações relevantes” do trimestre, descrevendo-a como validação da tese da Turbi “como uma empresa de base tecnológica”.

-- Reportagem atualizada em 24/05/2025, às 16h, para incluir o posicionamento da Turbi e alterar o conteúdo para refletir que a empresa busca converter os títulos em ações.

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