Bloomberg Línea — A Lojas Marisa (AMAR3) encerrou o primeiro trimestre de 2026 sob alerta formal de seus auditores independentes sobre a capacidade da companhia de manter suas operações.
No relatório de revisão, a BDO RCS Auditores Independentes incluiu parágrafo de ênfase sobre continuidade operacional.
A Marisa reportou prejuízo de R$ 95,8 milhões no trimestre, e o passivo circulante excedeu o ativo circulante em R$ 446,4 milhões nas demonstrações individuais e R$ 441,3 milhões nas consolidadas.
Em outras palavras, as obrigações de curto prazo superam em quase meio bilhão de reais os recursos disponíveis para honrá-las no mesmo horizonte.
O auditor afirma que esses eventos “indicam a existência de incerteza relevante que pode levantar dúvida significativa quanto à capacidade de continuidade operacional”.
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O capital de giro negativo é o ponto mais sensível. O passivo circulante consolidado saltou para R$ 1,01 bilhão (de R$ 925,9 milhões em dezembro), pressionado por aumento de empréstimos de curto prazo (R$ 250 milhões) e do risco sacado a fornecedores (R$ 88,5 milhões).
No mesmo período, o caixa consolidado encolheu de R$ 48 milhões para R$ 10,6 milhões. O patrimônio líquido caiu para R$ 128,8 milhões, ante R$ 224,2 milhões no fechamento de 2025, uma erosão de 43% em três meses, reflexo direto do prejuízo acumulado, que já atinge R$ 2,19 bilhões.
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A alavancagem também subiu: a dívida líquida passou de R$ 277,3 milhões para R$ 336,8 milhões, elevando o múltiplo dívida líquida/Ebitda de 0,8x para 1,3x em um trimestre.
A ação da companhia fechou nesta segunda-feira (18) em queda de 8,75%, cotada a R$ 0,73, com investidores ao sinal de que o turnaround da varejista de moda feminina, embora mostre avanços operacionais pontuais, ainda não dissipou a fragilidade financeira estrutural.
Ações da Marisa (AMAR3)
Provisão
Há um segundo elemento de risco apontado pelo auditor. A BDO sustenta que a Marisa deveria ter constituído provisão para contingências tributárias da controlada indireta M Serviços (ex-M Cartões), classificadas pela administração apenas como perda “possível”.
Caso a provisão fosse reconhecida, o patrimônio líquido estaria superavaliado em R$ 210,8 milhões. Considerado esse ajuste, o patrimônio líquido da companhia seria negativo. A CVM (Comissão de Valores Mobiliários) chegou a determinar o refazimento de demonstrações de 2022 a 2025, com efeito suspensivo posteriormente concedido, uma disputa regulatória ainda aberta.
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A administração argumenta que está implementando ações para reestabelecer o equilíbrio econômico-financeiro, e o seu relatório destaca indicadores que sustentam essa narrativa: o Ebitda recorrente em mesma base de lojas cresceu 60,6%, para R$ 20,4 milhões, e as despesas gerais e administrativas caíram 17,2%. A receita líquida em mesmas lojas ficou praticamente estável (-0,7%).
A operação mostrou disciplina de custos e ganho de eficiência, mas o resultado consolidado foi distorcido pela base comparativa de 2025, inflada por créditos tributários não recorrentes.
Fechamento de loja da Paulista
O movimento de enxugamento da rede ganhou seu símbolo mais visível com o encerramento das atividades da loja da Avenida Paulista, em São Paulo, unidade próxima ao Masp (Museu de Arte de São Paulo) que, por mais de uma década, funcionou como vitrine institucional da marca em um dos endereços mais valorizados do país.
O ponto carregava peso histórico para a varejista fundada em 1948 por Bernardo Goldfarb, ainda que o controle tenha migrado da família para fundos de investimento na reestruturação iniciada em 2022. Phoenix, Alligator 2 e Fantines concentram hoje cerca de 86% do capital, com os herdeiros Goldfarb pulverizados, cada um abaixo de 1%.
A Marisa vende moda acessível à mulher de classes populares, com força em vestuário feminino e lingerie, além de linhas masculina e infantil, e o Cartão Marisa, que responde por 26% das transações. Desde 2022, quando a crise eclodiu, a varejista fechou mais de 100 lojas.
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