Bloomberg Línea — A Saab apresentou nesta terça-feira (2) o primeiro Gripen F-39F destinado à Força Aérea Brasileira (FAB).
Trata-se da primeira unidade da versão biposto do caça supersônico desenvolvida em parceria com a indústria brasileira.
A aeronave representa um novo marco do programa Gripen no Brasil, que combina aquisição de aeronaves, transferência de tecnologia e participação da indústria nacional no desenvolvimento do projeto.
A Bloomberg Línea acompanhou a apresentação, que ocorreu nas instalações da fabricante sueca em Linköping, pouco mais de dois meses após a cerimônia de apresentação do primeiro Gripen E produzido no Brasil, realizada no complexo da Embraer em Gavião Peixoto (SP).
“Esse lançamento não teria sido possível sem o Brasil. Reflete anos de colaboração. Isso é sobre construir conhecimento para as gerações futuras. É a maior transferência de tecnologia já feita pela Saab e eu acredito que também no mundo todo”, disse o CEO da Saab, Micael Johansson, durante a cerimônia de lançamento.
Johansson também ressaltou que o modelo Gripen F é uma “plataforma adaptável para as tecnologias de amanhã, como por exemplo o uso de IA”.
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Enquanto o Gripen E é a versão monoposto destinada às operações regulares da FAB, o Gripen F incorpora um segundo assento e pode ser usado em missões mais complexas.
Segundo a Saab, a configuração biposto reduz o tempo necessário para a conversão operacional ao permitir treinamento diretamente na plataforma de combate.
O ministro da Defesa do Brasil, José Mucio Monteiro Filho, também participou da cerimônia de apresentação do Gripen F, e ressaltou a transferência tecnológica desse programa, que permite inovação e fortalece a indústria de defesa.
“É uma relação ganha a ganha, produz uma resultante que supera as capacidades isoladas de cada a um sozinho”, disse na cerimônia.
Ao todo, a aeronave possui capacidade de 10 pontos externos para armamentos, tem comprimento de 15,9 metros e 8,6 metros de largura. O modelo é cerca de 60 cm maior do que o Gripen E.

O diferencial do Gripen F
Embora compartilhem a mesma plataforma, os mesmos sensores, sistemas e armamentos, as versões E e F foram projetadas para funções complementares.
O Gripen F mantém todas as capacidades operacionais do Gripen E, mas acrescenta um segundo cockpit (ou assento) para acomodar um instrutor ou um segundo operador de missão.
Segundo a companhia, em cenários mais exigentes, a presença de dois tripulantes possibilita distribuir tarefas e ampliar a consciência situacional durante a missão, e, por isso, é destinado para operações mais complexas.
“O Gripen F representa uma conquista compartilhada entre a Saab, a indústria brasileira e a FAB”, disse, em nota enviada à imprensa, Lars Tossman, chefe da área de negócios Aeronautics da Saab.
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Segundo a Saab, o segundo tripulante também amplia o potencial da aeronave para funções de coordenação de missão e gerenciamento de sistemas conectados, incluindo futuras aplicações envolvendo plataformas ou veículos não tripulados.

Brasil como parceiro de desenvolvimento
A aeronave faz parte do contrato de cerca de R$ 5,4 bilhões assinado entre Brasil e Saab em 2013, durante o governo Dilma, para o fornecimento de 36 caças Gripen, sendo 28 unidades da versão E e oito da versão F. As entregas começaram em 2020 e 11 aeronaves já foram entregues à FAB.
Diferentemente de programas tradicionais de aquisição militar, o acordo brasileiro incluiu um amplo pacote de transferência de tecnologia e participação da indústria local.
O Brasil, por sua vez, participou diretamente do desenvolvimento do Gripen F, com o envolvimento de engenheiros da Embraer, e das empresas brasileiras Akaer e da AEL Sistemas em diferentes etapas do projeto.
O programa também capacitou engenheiros brasileiros na Suécia.
Em entrevista à Bloomberg Línea um dia antes do lançamento do Gripen F, Peter Dölling, presidente da Saab Brasil, explicou que os componentes produzidos no país já abastecem toda a linha global do Gripen, independentemente do cliente final.
De acordo com o executivo, a unidade brasileira alcançou níveis de qualidade e produtividade equivalentes aos da operação sueca, o que pode favorecer a transferência de novas etapas produtivas para o país.
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“A fuselagem traseira, a fuselagem dianteira, os freios aerodinâmicos e o cone de cauda vão para todos os clientes”, disse.
Segundo executivos da Saab, as unidades do Gripen F serão produzidas, por ora, na Suécia, enquanto a produção brasileira segue concentrada inicialmente na versão monoposto Gripen E.
Produção no Brasil
A parceria entre Saab e Embraer tem avançado para além do desenvolvimento tecnológico.
Em 2023, as empresas inauguraram a linha de produção do Gripen em Gavião Peixoto, o que transformou o Brasil no único país fora da Suécia com uma linha de produção do Gripen.
O primeiro Gripen E produzido no país foi apresentado em março deste ano, e reforça a estratégia de nacionalização gradual da produção e de criação de uma base industrial capaz de prestar suporte à frota brasileira e a potenciais clientes internacionais.
Recentemente, a Colômbia assinou um acordo de US$ 4,3 bilhões para adquirir 17 caças Gripen E/F da Saab. Segundo executivos da empresa, o Brasil tem potencial de produzir a aeronave - ou ao menos partes dela - para o país vizinho. A previsão é que os aviões comecem a chegar na Colômbia em 2028.
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Segundo o Vice-presidente e diretor de marketing (CMO) da companhia, Mikael Franzén, um dos diferenciais do Gripen é a capacidade de preparação rápida entre missões.
“A linha Gripen é focada para uma resposta rápida de combate. Para que o avião retorne à base, abasteça e retorne ao ar”, disse o executivo em coletiva de imprensa com jornalistas em uma das sedes da empresa em Linköping.
A produção de cada aeronave leva aproximadamente três anos para ser concluída, e reflete a complexidade do processo de fabricação e integração de sistemas.
Próximos passos
Antes de ser entregue à FAB, o primeiro Gripen F passará por uma campanha de testes no Centro de Ensaios em Voo da Saab, na Suécia.
A versão F biposto já recebeu a confirmação de encomendas de outros clientes, incluindo Tailândia e Colômbia.
Nesta semana, porém, Suécia e Ucrânia informaram que avançaram nas negociações para que Kiev adquira um lote inicial de até 20 caças Gripen E/F, enquanto o governo sueco pretende doar até 16 aeronaves Gripen C/D às forças ucranianas se a compra das aeronaves for concretizada.
Segundo o último balanço financeiro divulgado pela empresa referente ao primeiro trimestre do ano, cerca de 72% da carteira de pedidos, ou backlog, ao fim de março estava associada a mercados internacionais.
Nos pedidos contratados no trimestre, mercados internacionais responderam por 59% do total, enquanto a Suécia representou os 41% restantes.
No trimestre, as vendas para a Suécia cresceram 23% em relação ao mesmo período do ano passado. Para a Europa, o aumento foi de 53%.
Para a América Latina, o aumento foi de 25%, seguido pela América do Norte, (+5%). Para a Ásia, a queda foi de 33%, e, para a África, de 17%.
Desde o início da invasão russa na Ucrânia houve um aumento significativo da demanda em relação à indústria de Defesa.
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