Sanções migram de bancos para o mar e põem Brasil em ‘zona de risco’, diz pesquisador

‘Navalização’ levou a guerra econômica para o espaço físico, segundo John Calabrese, da American University; em entrevista à Bloomberg Línea, ele afirmou que o ataques recentes à Venezuela devem ser lidos como precedente e que exportadores brasileiros podem enfrentar fretes e seguros mais caros

Oil Advances As Tanker Seizures Keep Tensions High
Por Daniel Buarque
PUBLICIDADE

Bloomberg Línea — Desde o fim de 2025, quando os Estados Unidos impuseram um bloqueio naval ao petróleo da Venezuela, a interceptação de navios em alto-mar deixou de se limitar aos petroleiros ligados à Rússia e passou a alcançar embarcações iranianas e venezuelanas, em um esforço ao qual autoridades europeias e indianas também aderiram.

Para John Calabrese, professor da School of Public Affairs da American University e pesquisador sênior não residente do Middle East Institute, em Washington, os episódios têm um fio condutor. A aplicação de sanções está saindo do sistema financeiro e se voltando ao espaço físico.

PUBLICIDADE

Calabrese descreveu o fenômeno em artigo acadêmico no qual usou o termo “navalização” (navalization) da guerra econômica para resumir a mudança. O principal motor da mudança, disse Calabrese, é “a quase exaustão das ferramentas exclusivamente financeiras”, uma vez que atores determinados como Rússia, Irã e Coreia do Norte desenvolveram sistemas paralelos para contornar as medidas.

Em entrevista por à Bloomberg Línea, ele detalhou o argumento e avaliou os riscos para países do Sul Global, incluindo o Brasil.


Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.

PUBLICIDADE

Durante a maior parte do período pós-Guerra Fria, as sanções funcionaram longe do mar, por meio da infraestrutura financeira global, que inclui a compensação em dólar, o sistema de mensagens bancárias Swift e os seguros marítimos. Esse arranjo foi corroído pela chamada frota fantasma, estimada em cerca de mil petroleiros, o equivalente a algo entre 17% e 18,5% da capacidade global de transporte de petróleo, segundo ele.

O risco, para o pesquisador, é que apreensões, inspeções e abordagens de embarcações passem a formar um conjunto de precedentes que outros países poderão usar como justificativa para suas próprias ações. Mesmo quando uma abordagem seja defensável em termos legais restritos, sua repetição pode enfraquecer a liberdade de navegação, explicou.

Calabrese fez uma ressalva sobre o alcance do argumento. “Não quero sugerir que a abordagem forçada de navios substituiu, ou que necessariamente venha a substituir, o uso de ferramentas financeiras”, explicou. “Minha percepção é que a interdição marítima será utilizada ao lado delas, e talvez aumente de frequência.”

PUBLICIDADE

Precedente venezuelano

O caso mais sensível para a América Latina está no Caribe.

Desde setembro de 2025, e até pouco antes de capturar o presidente Nicolás Maduro, o governo de Donald Trump combinou ataques letais contra barcos que acusou de transportar drogas, operações que destruíram dezenas de embarcações e mataram mais de cem pessoas, com o bloqueio a petroleiros que movimentam o petróleo venezuelano.

Leia também: Petróleo da Rússia se acumula em navios após sanções dos EUA e pressiona o mercado

PUBLICIDADE

Calabrese separou as duas frentes. “O bloqueio ao petróleo venezuelano se encaixa diretamente no padrão de ‘navalização’. É a lógica de abordagem e inspeção aplicada a um novo conjunto de alvos”, disse. “Mas os ataques letais a barcos suspeitos de tráfico são uma categoria distinta e mais perigosa, porque aplicam força letal e o fazem sem o ato de interdição ou qualquer adjudicação.”

Para os governos da região, a recomendação foi direta. “De um ponto de vista puramente prudencial, os governos regionais provavelmente deveriam tratar a Venezuela como o precedente de abertura, e não como um episódio isolado”, afirmou. Uma vez que um governo normaliza a abordagem de navios como instrumento de sanções em um teatro, “o mesmo raciocínio jurídico parece se transferir para novos alvos”, disse.

Brasil na zona de risco

O Brasil, na avaliação de Calabrese, é um alvo de “segunda ordem”. A concentração das exportações de commodities transportadas por via marítima, caso do minério de ferro, da soja e do petróleo, e a posição de comprador de diesel e fertilizantes russos com desconto colocam o país “dentro da zona de risco”, mesmo sem ser alvo de sanções, avaliou.

Leia também: PF bloqueia R$ 10,4 bi e prende alvo de sanções dos EUA por suposta ligação com PCC

Na prática, isso poderia significar custos maiores de frete, aumento de seguros de risco de guerra, atrasos em inspeções e até retenções de cargas brasileiras ou destinadas ao Brasil, disse.

Os vencedores desse sistema híbrido emergente, segundo ele, tendem a ser os países com marinhas de águas profundas e equipes jurídicas experientes para sustentar e defender suas ações.

“Os perdedores provavelmente serão os Estados menores e os armadores menores”, disse. O comércio de potências pequenas e médias ficaria mais exposto porque deixaria de contar com o “escudo” que a ordem do pós-guerra deveria oferecer.

O risco, para o professor, é cumulativo. Cada abordagem unilateral, mesmo quando defensável em seus próprios termos, alimenta um corpo crescente de precedentes, que atores com intenções malignas poderão citar para justificar suas próprias medidas coercitivas. “É possível vislumbrar um futuro em que a ‘autoajuda naval’ (naval self-help, no original) se torne a opção padrão", afirmou.

As instituições existentes, na visão dele, não estão preparadas para conter o processo.

A Organização Marítima Internacional não tem força para aplicar sanções, avaliou, e o Conselho de Segurança da ONU está paralisado.

“Não há tribunal compartilhado, nem autoridade de inspeção, nem mecanismo acordado para resolver disputas sobre o status de embarcações”, disse. Esse vácuo institucional, somado à exaustão das ferramentas financeiras e à ascensão de táticas sofisticadas de ofuscação, é o que, segundo Calabrese, nos trouxe até aqui.

Leia também

Trump ameaça atacar navios iranianos com início de bloqueio no Estreito de Ormuz

Daniel Buarque

Daniel Buarque

Editor-assistente