Riqueza mais jovem muda o perfil de compradores de iates no Brasil, dizem estaleiros

Em entrevista à Bloomberg Línea, CEOs da Azimut Yachts e do Grupo OKEAN falam de um comprador que não trata mais o iate como troféu de carreira, quer seguir conectado ao trabalho mesmo no mar, e já inspira prédios com garagem para embarcações

Vista aérea do convés de proa de um iate da linha Grande, da Azimut: espaço pensado para uso a bordo por dias seguidos, não só passeios de fim de semana — parte do apelo que atrai um comprador cada vez mais jovem ao mercado náutico brasileiro
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Bloomberg Línea — Comandar um iate de 30 metros com um joystick. Monitorar o motor pelo celular, conectado à internet mesmo em alto-mar. Guardar o barco na garagem do próprio prédio. Poucos dessas facilidades eram tão acessíveis há uma década no mercado náutico brasileiro. Hoje eles abrem a porta para um comprador que nunca teve décadas de experiência no mar para aprender.

A mudança de perfil aparece, sob formas diferentes, no desenho dos iates, nos empreendimentos residenciais que os abrigam e na infraestrutura das marinas que tentam recebê-los.

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É um fenômeno sentido de perto por quem domina o segmento de luxo, caso da italiana Azimut Yachts, detentora do único estaleiro do grupo fora da Itália, em Itajaí, litoral norte de Santa Catarina.

“Os nossos clientes são relativamente jovens”, diz Carlo Alberto Sisto, CEO da Azimut Yachts no Brasil, em entrevista à Bloomberg Línea.

Ele credita a diferença à comparação com mercados mais tradicionais, “Às vezes a idade deles no Brasil é inferior ao cliente que compra o mesmo barco nos EUA ou na Itália”.

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Roberto Paião, CEO do Grupo OKEAN, concorrente direto da Azimut no segmento de megaiates, confirma a tendência: hoje esse comprador tem entre 35 e 45 anos e não trata mais o iate como um troféu de carreira.

“Ele quer a experiência do mar, de navegar, de explorar: a aventura, a conexão com os amigos, a família”, afirmou à Bloomberg Línea.

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Um estudo do estaleiro italiano Rossinavi com a Universidade de Monaco, citada pela revista americana Robb Report, projeta também que a idade média global desse comprador, hoje perto de 60 anos, caia para a faixa de 35 a 40 anos na próxima década.

Leia também: Como os brasileiros se tornaram o novo foco desta rede de cruzeiros fluviais na Europa

Essa mudança de perfil não é exclusiva desses dois estaleiros, e aparece também no jeito como o mercado imobiliário e a infraestrutura náutica do país tentam se adaptar a um público relativamente mais jovem.

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O pano de fundo é uma expansão da riqueza brasileira. Parte dela nasce mais jovem do que a fortuna tradicional: fintechs que cresceram rápido nos últimos anos e a elite do agronegócio hoje tocado por uma geração de herdeiros mais nova que a anterior, como citam executivos dos estaleiros.

O Brasil ganhou 9.215 milionários no último ano. O total de pessoas com patrimônio superior a US$ 1 milhão no país chegou a 386 mil, segundo o Global Wealth Report 2026, do UBS, divulgado pelo jornal Valor Econômico no dia 30 de junho.

O país ocupa a 19ª posição no ranking mundial. Outras 43 mil pessoas têm patrimônio entre US$ 5 milhões e US$ 100 milhões, faixa que concentra boa parte do público de embarcações grandes. O número é pequeno diante dos 23,6 milhões de milionários americanos, dentro de um total de 57,5 milhões no mundo.

O deck superior de um iate da linha Grande, da Azimut, com radar e antenas de satélite Simrad visíveis no topo, ao lado de lounge e bar.

Privacidade também é um endereço

Ter dinheiro novo, porém, não explica por que ele é gasto assim. A resposta de Sisto é comportamental.

“Os clientes gostam de aproveitar o tempo, querem passar o tempo com as famílias, querem passar o tempo com os amigos, querem ficar em um lugar onde eles se sentem bem, onde tem privacidade”, diz.

Para o executivo, o iate funciona como compensação por uma rotina de trabalho intensa, não como ostentação pura. Roy Capasso, diretor comercial da Azimut, descreve a origem heterogênea desse comprador: agronegócio, tecnologia, profissões liberais, como advogados, indústria.

“O barco vai viver de uma maneira totalmente diferente do que vai viver na Itália ou no resto do mundo”, diz Sisto.

Leia também: Azimut se expande em Itajaí, capital náutica do Brasil, e mira R$ 1 bi em receitas

Essa privacidade, porém, não significa desconexão. A internet via satélite em embarcações não é novidade, mas só recentemente, com o Starlink, ficou rápida e barata o suficiente para uso constante a bordo.

“Com Starlink, o dono do iate está no mar de segunda a sexta trabalhando normalmente”, diz Paião.

Segundo ele, o tempo de permanência a bordo, que costumava durar quatro, cinco, seis semanas por ano, dobrou nos últimos anos.

“A pandemia abriu esse canal. As pessoas perceberam que dinheiro guardado não serve a ninguém”, resume o executivo da OKEAN.

Simulação do Charles II Yacht Royal Home by OKEAN mostra a garagem náutica privativa com acesso direto ao canal, em Itapema (SC), onde moradores poderão atracar o próprio iate a poucos metros do apartamento

Garagem náutica no prédio

Essa busca por privacidade não fica restrita à água. Já alcançou o mercado imobiliário. Em Itapema, a poucos minutos de Itajaí, a incorporadora Gessele e o estaleiro OKEAN lançaram o Charles II Yacht Royal Home, apresentado como o primeiro branded residence náutico da América Latina. A torre de 255 metros terá garagem náutica, atracadouro próprio e vagas para mais de 100 jet skis.

Do lado da incorporadora, Paula Gessele, vice-presidente da Gessele Empreendimentos, descreve o objetivo em termos parecidos: estruturar “uma experiência de moradia conectada ao mar, com conforto, funcionalidade e identidade própria”.

Ou seja, o comprador mais jovem não quer só ancorar perto de casa. Quer que o barco seja parte do endereço.

“É a transposição do conceito náutico para a arquitetura, com o mesmo nível de exigência que aplicamos na construção de iates”, diz o CEO do estaleiro por trás do projeto.

Central de comando de um iate da linha Grande, da Azimut, com telas touchscreen Garmin e joystick i

Tecnologia que resolve o que falta

Só que ter o endereço perto da marina não resolve tudo. Falta vaga para atracar. O Brasil tem cerca de 1 milhão de embarcações registradas e um déficit estimado entre 55 mil e 60 mil vagas, estima a ACOBAR (Associação Brasileira dos Construtores de Barcos).

É esse déficit que sustenta projetos como o Rioparque, bairro planejado de 460 mil m² em Tijucas (SC), que apresentou no Marina Itajaí Boat Show sua marina para 90 embarcações e 150 jet skis.

“A infraestrutura náutica deixou de ser apenas um diferencial de lazer e passou a fazer parte da análise de investimento, valorização e qualidade de vida”, diz Ricardo Laus, CEO da Novo Ambiente Urbanismo, responsável pelo empreendimento.

Para quem já trata o iate como ativo patrimonial, a vaga de atracação ficou tão escassa quanto valorizada, na mesma proporção da própria embarcação.

O outro obstáculo não é de oferta, mas de experiência. Pilotar um iate grande sempre exigiu prática acumulada por décadas, o tipo de conhecimento que passava de pai para filho em famílias tradicionalmente náuticas. A nova geração de compradores não necessariamente cresceu a bordo, e a indústria resolve isso com tecnologia.

Na Azimut Fly 56, avaliada em R$ 16 milhões e com fila de espera de 12 meses, o destaque é um joystick que funciona como controle de videogame, integrado à tecnologia Garmin: quando ativado, liga o piloto automático e mantém o barco em linha reta, facilitando correções rápidas de curso mesmo em espaços apertados de marina, com a opção de manobrar tudo por tablet.

O salão principal de um iate da linha Grande, da Azimut, com design italiano e integração entre sala de estar e sala de jantar. É esse tipo de ambiente open space, mais parecido com um apartamento do que com uma cabine tradicional, que a marca aposta para atrair o comprador mais jovem

Sistemas parecidos já não são exclusividade dos megaiates. A tecnologia em si não é nova: o joystick para embarcações existe desde os anos 2000, criado originalmente pela Volvo Penta. O que mudou foi a escala.

Na Fishing Raptor 440, lancha esportiva de 44 pés fabricada em Santa Catarina, “joystick intuitivo e sistemas eletrônicos de manobra aproximam a pilotagem da experiência dos carros de alta performance”, descreve Fernando Assinato, CEO da fabricante.

É a mesma equação que Sisto e Capasso descrevem em termos de comportamento: o comprador quer o resultado, privacidade, status, tempo de qualidade, sem pagar o pedágio da tradição para chegar lá.

A Azimut vai além do controle remoto para resolver esse pedágio. A empresa repensa o próprio produto: não só motor e casco, mas o layout interno da embarcação, adaptado ao que Sisto chama de “tropicalização” das necessidades locais.

É o caso da Grande 30 Metri, novo megaiate que a marca vai passar a produzir em Itajaí: a versão brasileira deve replicar a engenharia do modelo italiano, com ajustes pensados para um comprador que ainda está descobrindo o que significa ter tempo livre, e o dinheiro para ocupá-lo com privacidade, joystick na mão e sinal de internet no meio do mar.

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