Bloomberg Línea — A gestora espanhola Azvalor alcançou cerca de 4,5% do capital da Iguatemi (IGTI11) em seu fundo de ações globais e diz que só pretende sair quando a bolsa reconhecer que os shoppings da companhia valem mais do que o preço atual indica, de R$ 7,6 bilhões na B3.
A casa de Madri disse à Bloomberg Línea que começou a comprar participação há pouco mais de um ano, depois de conversas com a empresa, e que não pretende ocupar cadeira no conselho, porque sabe avaliar negócios, mas não administrá-los.
“Nós investimos a muito longo prazo. Em alguns casos, fomos acionistas durante 15 anos ou mais. Só vendemos quando o mercado reconhece o valor e as ações deixam de estar subvalorizadas. Se vamos aumentar ou reduzir a participação, dependerá do preço da ação e das alternativas de investimento”, disse a Azvalor à Bloomberg Línea por e-mail, em resposta após pedidos de comentários.
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O caso da espanhola faz parte de um movimento mais amplo de investidores estrangeiros, que têm demonstrado interesse na empresa que é dona dos dois shoppings com maior venda por metro quadrado entre as grandes operadoras listadas na bolsa, segundo um ranking do J.P. Morgan.
A gestora americana BlackRock também ampliou sua participação. As duas entram sobretudo por meio de ações sem direito a voto, que dão acesso aos lucros, mas não ao comando da companhia, controlada pela família Jereissati. As posições foram informadas em comunicados divulgados pela Iguatemi na sexta-feira (18).
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Para os espanhóis, os corredores da Iguatemi são território conhecido. A Zara, do grupo Inditex, tem lojas no Iguatemi São Paulo, no JK Iguatemi, no Pátio Paulista e no Pátio Higienópolis.
Já a Carolina Herrera, grife criada por uma estilista venezuelana e controlada pelo grupo espanhol Puig, está em três desses shoppings. E foi no Iguatemi São Paulo que a Loewe, fundada em Madri e controlada desde 1996 pelo grupo francês LVMH, abriu sua primeira loja no país.
A Azvalor não comentou se a presença dessas marcas pesou na decisão. Com a compra, a Espanha passa a estar dos dois lados do balcão: marcas espanholas pagam aluguel à Iguatemi como lojistas, e um fundo espanhol participa dos lucros da companhia como sócio.
Procurada pela reportagem, a Iguatemi não respondeu de imediato sobre o pedido de comentário às considerações feitas pela gestora espanhola.
O grupo Iguatemi tem participação em 17 shoppings, cinco deles na capital paulista, como o Iguatemi São Paulo, primeiro do país, e o JK Iguatemi.
Os demais ficam na Grande São Paulo, no interior paulista, no Rio, em Porto Alegre e em Brasília, e a empresa ainda tem outlets no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. No primeiro semestre, o portfólio registrou vendas de R$ 12,3 bilhões, alta de 8,2%, segundo o balanço da companhia.
Paciência como método
Independente, a Azvalor foi fundada em Madri em 2015 por ex-gestores da Bestinver, entre eles Álvaro Guzmán de Lázaro e Fernando Bernad. A gestora administra cerca de 5 bilhões de euros (aproximadamente R$ 29 bilhões) de cerca de 30 mil clientes, segundo seu site.
A especialidade da casa é comprar empresas negociadas abaixo do que valem e esperar que a bolsa corrija o preço, estilo conhecido no mercado como value investing.
“Acreditamos que, neste caso, os shopping centers valem mais, embora talvez seja preciso alguma paciência para ver os resultados”, afirmou a Azvalor à Bloomberg Línea.
Essa paciência, segundo a gestora, é concedida pelos próprios clientes, e é ela que permite à casa investir dessa forma. O horizonte se mede em anos.
“Nós investimos no longuíssimo prazo. Em alguns casos, fomos acionistas por 15 anos ou mais”, disse a gestora.
A venda só acontece quando as ações deixam de estar subavaliadas, de acordo com a Azvalor. Aumentar ou reduzir a posição vai depender do preço da ação e das alternativas de investimento disponíveis.
Desconto na bolsa
A Azvalor diz não se guiar por previsões para juros, câmbio ou crescimento econômico. “Não trabalhamos com visões macro. Apenas analisando empresas, uma a uma”, disse a gestora.
O cenário que ela deixa fora da análise é desafiador. O J.P. Morgan classificou os dados mais recentes como levemente negativos para os shoppings, com vendas do comércio abaixo da inflação em agosto e inadimplência das famílias acima de 90 dias em 7,8% em julho, segundo relatório publicado na segunda-feira (21).
O Bank of America cortou o preço-alvo da Iguatemi para R$ 30 em 18 de agosto, com recomendação neutra.
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A bolsa tem refletido essa cautela. A unit da Iguatemi acumula alta de 5,5% em 2026, cerca de um terço da valorização do Ibovespa, de 15,9%, até o meio-dia desta terça-feira (22). Cotada a R$ 26,72, está abaixo da máxima de R$ 30,43 atingida em abril.
Units do Iguatemi (IGTI11)
O J.P. Morgan, porém, vê espaço para recuperação e mantém recomendação equivalente a compra, com preço-alvo de R$ 36 para dezembro de 2026. Pelas contas do banco, a ação está mais barata que a média do setor quando comparada à geração de caixa esperada para 2027.
A companhia também acena aos acionistas. O presidente do conselho, Pedro Jereissati, afirmou que a Iguatemi vê oportunidade de ampliar dividendos e recompras de ações nos próximos anos, com o fim do ciclo de investimentos, segundo relatório do BTG Pactual neste mês.
A Azvalor reconhece dificuldades no setor, sem detalhar quais, e diz que é nesses momentos que podem surgir oportunidades para o investidor paciente.
Quem manda na Iguatemi
Mesmo com uma posição relevante, a Azvalor descarta qualquer papel na gestão. “Nós não sabemos administrar negócios. Só sabemos avaliá-los”, afirmou a gestora.
No comunicado, a Azvalor declara que não pretende alterar o controle nem a administração da companhia, compromisso também assumido pela BlackRock.
A estrutura da Iguatemi reforça essa distância. A empresa é negociada principalmente em units, que reúnem uma ação ordinária (IGTI3), com voto, e duas preferenciais (IGTI4), sem voto, mas com dividendos três vezes maiores.
A Azvalor detém 8,28% das preferenciais e 2,34% das ordinárias, ou 4,48% do capital social, segundo dados da B3. A BlackRock tem 5% das preferenciais, ou 1,81% do capital.
O controle é da família Jereissati, segundo a composição acionária divulgada pela Iguatemi. A GJ Investimentos e Participações detém 64,47% das ordinárias, e Diana Jereissati Legey, Lia Ribeiro Jereissati e Vera Ribeiro Jereissati, 1,78% cada, segundo a B3.
Fora do grupo controlador, a companhia já contava com estrangeiros como o Norges Bank, gestor do fundo soberano da Noruega, com 5,82% das preferenciais, e a Itaú USA Asset Management, com 5,15%. A maior posição em preferenciais é da gestora brasileira Radar, com 9,49%.
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