Bloomberg Línea — A desaceleração da atividade econômica, em especial do consumo, sustenta a visão de que o Banco Central poderá continuar a cortar a taxa básica de juros até meados do ano que vem, de acordo com a equipe econômica do Bradesco.
Economistas do banco esperam mais dois cortes da Selic em 2026, um ritmo maior de redução no início do próximo ano e encerramento do ciclo de baixa antes do fim de 2027.
O diretor de pesquisa econômica, Fernando Honorato Barbosa, disse em entrevista a jornalistas nesta segunda-feira (21) que, se o cenário-base se confirmar no primeiro semestre de 2027, com câmbio estável e atividade fraca, é “bastante provável” que o Banco Central acelere o ritmo de cortes.
Em resposta à Bloomberg Línea, ele afirmou que o cenário do banco inclui três ou quatro cortes de 0,50 ponto percentual em 2027, concentrados no início do ano, e um corte residual de 0,25 ponto na virada entre o primeiro e o segundo semestre.
Na atualização do cenário, com data de sexta-feira (18), o banco reduziu a projeção para a Selic ao fim de 2026 de 13,75% para 13,25%. A taxa está em 13,75% desde 16 de setembro, após o quinto corte seguido de 0,25 ponto percentual.
A nova projeção corresponde a cortes de 0,25 ponto nas duas reuniões finais do Copom do ano, em novembro e dezembro. Para o fim de 2027, a estimativa do banco está em 11,00%.
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A projeção de crescimento do PIB foi revista de 1,9% para 1,7% em 2026 e de 1,3% para 1,0% em 2027. O consumo deve avançar cerca de 1% nos dois anos, segundo Myriã Bast, superintendente sênior de pesquisa econômica do Bradesco. “Quando a gente não está em crise, o nosso consumo cresce 3,5% ao ano”, disse.
O consumo das famílias caiu 0,4% no segundo trimestre, na comparação com o primeiro, de acordo com dados do IBGE.
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Segundo Bast, os sinais de esfriamento se acumulam nos segmentos mais vulneráveis. Ela nota que, nos dados do Caged por porte de empresa, só as grandes empresas registram contratações líquidas, e as demais, demissões.
A economista ressalvou que a relação entre esse movimento e a fraqueza da economia não é tão clara, já que as micro e pequenas empresas foram as que mais contrataram no pós-pandemia e, com o estoque maior de empregados, passaram a demitir.
Uma recessão técnica não faz parte do cenário principal, mas o risco aumentou com o crescimento próximo de zero, disse a economista.
O banco vê no comprometimento da renda com dívidas o principal fator de perda de fôlego do consumo. Pelo cálculo da instituição, que considera concessões, pagamentos e baixas de prejuízo, as famílias pagam aos bancos mais recursos do que recebem líquidos em novo crédito.
Inflação
Os economistas afirmaram que a atividade fraca limita o repasse de choques. Bast lembrou que, em março, com o Estreito de Ormuz fechado, havia receio de um repasse como o de 2021 e 2022.
O choque de petróleo chegou às cadeias de produção, mas não ao consumidor final. “Não é que o plástico não foi contaminado, ele foi, ele só não passou para o consumidor final”, disse.
O banco espera núcleos próximos de 4% até 2027 e inflação de serviços perto de 5%. As projeções para o IPCA são de 4,9% em 2026 e de 4,1% em 2027.
Para a alta das commodities agrícolas, o banco vê um choque típico de oferta que, com a economia fraca, não deveria levar o BC a mudar de postura.
A réplica que o banco faz do modelo do BC indica um IPCA ao redor de 3,2% no primeiro trimestre de 2028 com a trajetória de Selic do Boletim Focus, segundo Barbosa.
Isso abre espaço para cortar a Selic a pelo menos 12% até o fim de 2027. Segundo o banco, com as projeções de câmbio e de PIB da instituição, o modelo comportaria Selic perto de 11% em 2027.
Fiscal e cenário externo
Na área fiscal, o banco parte da premissa de que o arcabouço fiscal será cumprido em 2027, sem mudança de regras. Barbosa disse que parte da incerteza fiscal vem do custo dos juros e que uma Selic em queda pode “comprar tempo” para os ajustes, num quadro que descreveu como de equilíbrio frágil.
Medidas que evitem a desaceleração após a eleição, disse, podem limitar o corte da Selic e tensionar esse cenário.
Sobre o câmbio, Barbosa disse que Selic de 11% e Fed Funds de 4,5%, níveis do cenário do banco, não devem gerar pressão relevante sobre o real.
O banco estima que o diferencial só alimentaria discussão importante sobre carry trade na faixa de 500 a 600 pontos-base.
Segundo ele, o comportamento do dólar no mundo, medido pelo índice DXY, pesa mais para o real do que o diferencial de juros.
De acordo com o cálculo do Bradesco, o câmbio real, ajustado pela inflação, está em R$ 5,12, acima da média de R$ 4,40 desde 1999, e o déficit em conta-corrente é de 2,5% do PIB em julho de 2026, ante 4,5% em dezembro de 2014. Para o economista, isso torna a moeda menos vulnerável do que em outros episódios.
De todo modo, um Fed mais duro é um dos riscos ao cenário que pode fazer os ativos brasileiros voltarem a sofrer. Entre os riscos para a inflação, o banco lista El Niño, o fim da escala 6x1, a pressão dos preços do petróleo e de derivados, a reforma tributária e a depreciação cambial.
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