Bloomberg — Assessores do presidente Javier Milei na Argentina disseram ao governo Trump que não têm votos no Congresso do país para ratificar o acordo comercial bilateral assinado em fevereiro, segundo pessoas a par do assunto ouvidas pela Bloomberg News.
O governo Milei quer renegociar os termos por causa da decisão da Suprema Corte dos EUA sobre as tarifas globais do presidente dos EUA, Donald Trump, segundo as pessoas, que pediram anonimato para falar sobre conversas privadas.
Embora Trump tenha chamado Milei de “meu presidente favorito”, integrantes de sua equipe viajaram a Buenos Aires nas últimas semanas para transmitir uma mensagem clara: renegociar está fora de questão, pois isso abriria um precedente para que outros países buscassem condições mais favoráveis.
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Os americanos pressionam a Argentina a ratificar o acordo e não veem uma estratégia legislativa coerente nem um cronograma por parte do governo Milei, disseram pessoas a par da situação.
O tempo está se esgotando, já que o ano legislativo da Argentina termina em novembro. Milei prioriza outros projetos de grande importância, e a campanha pela reeleição em 2027 provavelmente tornará reformas ambiciosas como essa arriscadas demais para serem aprovadas.
O Ministério das Relações Exteriores da Argentina e o Representante de Comércio dos EUA não responderam a pedidos de comentário.
Pessoas a par do assunto em Washington e Buenos Aires disseram que o atraso não está desgastando a relação mais ampla entre os países e que, caso Trump e Milei conversem à margem da Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova York nesta semana, o diálogo entre os dois poderá recolocar o acordo nos trilhos.
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Por enquanto, a divergência sobre como avançar contrasta com a afinidade ideológica entre os dois e ocorre após os EUA concederem à Argentina, há um ano, uma linha de swap cambial de US$ 20 bilhões para conter uma onda de vendas nos mercados antes das eleições legislativas do país.
Os dois lados também celebraram o acordo comercial em fevereiro como um marco que consolidou a aproximação bilateral, caracterizada por mais de uma dúzia de viagens de Milei aos EUA para se reunir com Trump, Elon Musk e outros.
A situação também reflete a perda de impulso político de Milei. A ajuda de Trump contribuiu para que o partido do libertário conseguisse uma virada e mais que dobrasse sua representação no Congresso nas eleições legislativas.
Essa força política ajudou Milei a assinar o acordo comercial e aprovar uma ampla reforma trabalhista, além de alimentar o otimismo de que a Argentina estava prestes a registrar forte crescimento. Autoridades americanas viam a ratificação, na época, como mera formalidade, e não como um obstáculo de fato, disseram as pessoas.
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Desde então, porém, um escândalo de corrupção e o crescimento econômico fraco derrubaram os índices de aprovação de Milei para perto dos níveis mais baixos de sua Presidência. A agenda de reformas sofreu reveses no Congresso, cenário que reacendeu as preocupações dos EUA sobre como e quando ele ratificará o acordo comercial.
Autoridades americanas argumentam que já fizeram muito para conceder benefícios comerciais favoráveis a Milei — entre eles, um aumento de 80.000 toneladas na cota argentina de exportação de carne bovina, além de mais de 1.600 isenções tarifárias previstas no acordo — e que agora cabe ao governo argentino cumprir sua parte, disseram as pessoas.
Jeff Goettman, representante adjunto de Comércio dos EUA, visitou Buenos Aires em agosto e se reuniu com a principal autoridade comercial da Argentina, o ministro das Relações Exteriores, Pablo Quirno.
“O embaixador Goettman também ressaltou a importância da ratificação do Agreement on Reciprocal Trade and Investment (ARTI), concluído no início deste ano, para concretizar nossa visão econômica compartilhada”, publicou o USTR no X.
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Autoridades argentinas apontam a decisão da Suprema Corte dos EUA de derrubar as tarifas globais de Trump como justificativa para buscar novos termos, já que o acordo foi assinado poucas semanas antes da decisão. Segundo elas, não é possível ratificar um acordo baseado em um arcabouço jurídico que ficou desatualizado.
Ainda assim, o governo Milei começou a implementar alguns dos compromissos regulatórios e de propriedade intelectual previstos no acordo, embora as principais disposições tarifárias continuem paralisadas. Em março, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial da Argentina, o INPI, revogou normas de 2012 que restringiam a possibilidade de patentear produtos farmacêuticos. A Argentina também liberalizou algumas importações.
Além da oposição política em um país historicamente protecionista, empresas farmacêuticas argentinas fazem forte lobby junto ao governo contra a implementação de outros aspectos das regras de propriedade intelectual incluídas no acordo, segundo várias pessoas.
Essa legislação, conhecida como PCT, ainda aguarda aprovação no Senado após ter passado pela Câmara dos Deputados com alterações.
Em um sinal de como o tema se tornou politicamente delicado, o acordo não foi mencionado em um evento realizado na semana passada na Embaixada dos EUA, dedicado ao comércio bilateral e que contou com a presença de Quirno, segundo várias pessoas que participaram da reunião e disseram ter se surpreendido com a ausência do assunto.
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