Bloomberg Línea — Os investidores têm reagido de forma otimista no último mês ao avanço de Flávio Bolsonaro (PL) nas pesquisas eleitorais e às perspectivas de uma possível vitória do senador contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Isso tem se refletido em uma valorização do Ibovespa, em um achatamento da curva de juros e em uma apreciação do real.
Na visão de Andréa Bastos Damico, fundadora e CEO da consultoria de pesquisa econômica Buysidebrazil, o comportamento não reflete uma preferência partidária do mercado por um candidato ou outro na eleição brasileira, mas a perspectiva de como cada um deles lidaria com a necessidade de ajuste das contas públicas.
Para ela, o mercado não tem um apreço pela oposição, mas tem “apreço pelo ajuste fiscal”, e a interpretação é de que a candidatura de Flávio Bolsonaro atualmente está mais comprometida em reduzir o déficit fiscal, com base em declarações de assessores econômicos das campanhas.
“O otimismo com a oposição não é uma questão partidária. É muito mais a questão de resolver o maior problema do Brasil hoje, que é o problema fiscal”, disse Damico, em entrevista ao podcast Radar Eleitoral, da Bloomberg Línea. “Se amanhã o Lula endereçar algo extremamente forte, o mercado vai reagir da mesma forma.”
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Pesquisa Quaest divulgada na segunda-feira (21) mostra Flávio Bolsonaro com 42% das intenções de voto no segundo turno, ante 41% do presidente Lula, colocando ambos candidatos virtualmente empatados dentro da margem de erro.
Damico avalia que a tendência das últimas semanas favorece o senador, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. A economista atribui o movimento à queda da aprovação do governo e ao desgaste provocado pela crise no STF, que atinge mais o governo por causa da relação entre Lula e o ministro Alexandre de Moraes.
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Em encontros e entrevistas, a equipe de Flávio Bolsonaro tem detalhado ao mercado como pretende conduzir a política fiscal, o que inclui uma PEC de transição com corte de gastos próximo de 1,5% do PIB e uma revisão da regra fiscal do arcabouço fiscal.
Se o plano se confirmar, a Buysidebrazil projeta um upside de 10% a 15% para o Ibovespa, que superaria 200 mil pontos. O dólar cairia abaixo de R$ 5,00 e poderia chegar a R$ 4,80. A Selic fecharia 2027 perto de 10,5%, e o ciclo de cortes terminaria próximo de 8% ao longo do mandato.
Para o caso de reeleição de Lula, o cenário-base da consultoria é o que a casa chama de “Lula moderado”, o que inclui um ajuste em despesas obrigatórias em 2027.
Damico citou sinalizações do ministro da Fazenda, Dario Durigan, entre elas a unificação de benefícios sociais e a redução do limite de crescimento real dos gastos, hoje em 2,5%, para pouco abaixo de 2%.
Nesse cenário com a reeleição de Lula, o Ibovespa ficaria entre 180 e 190 mil pontos, “sem um grande upside, mas também não tem um grande downside”. O câmbio ficaria perto de R$ 5,20, e a Selic, em 12% no fim de 2027.
O risco, segundo a economista, é um governo reeleito que anuncie apenas um ajuste por meio do aumento de arrecadação, sem cortes de despesas. Ela atribui probabilidade de 5% a 10% a esse cenário, no qual as quedas do Ibovespa “começam nos 10%” e podem chegar a 15% ou mais.
Damico afirmou que, em caso de vitória, o governo Lula terá um “dever de casa” no pós-eleição, o de indicar onde fará o ajuste, para que o mercado não fique com “a última informação” de uma campanha com medidas populistas.
Medidas como o reajuste do Bolsa Família de R$ 600 para R$ 691 elevam o prêmio de risco, com queda da bolsa e alta do câmbio e dos juros, em razão do impacto fiscal.
Selic, Fed e petróleo
No cenário-base, a Buysidebrazil projeta mais dois cortes de 0,25 ponto percentual na Selic neste ano, até 13,25%, e taxa perto de 12% em 2027. Damico disse que o comunicado do Copom, na quarta-feira, manteve os trechos sobre a magnitude do ciclo de calibração, o que indica continuidade dos cortes.
A projeção, segundo ela, depende de câmbio perto de R$ 5,20 e de sinalização fiscal do governo após a eleição.
A consultoria prevê três altas do Fed, num total de 75 pontos-base, com a primeira já realizada e as demais em dezembro e no primeiro trimestre de 2027.
Para Damico, o diferencial entre uma Selic de 13,25% e juros americanos em torno de 5% mantém as operações de carry trade.
“Eu não compro muito esse argumento de que vai reduzir o diferencial de juros, então o câmbio vai depreciar”, disse. Na avaliação dela, o câmbio depende mais do prêmio de risco.

Sobre o petróleo, a economista vê efeito dúbio para o Brasil, exportador líquido da commodity. A alta dos preços internacionais melhora a balança comercial, que pode chegar a US$ 80 bilhões neste ano, ante US$ 50 bilhões projetados no início de 2026, e favorece o real em relação a outros emergentes, com o barril na faixa de US$ 90 a US$ 110. Acima de US$ 120 ou US$ 130, o risco de recessão global e de aversão a risco passa a predominar.
Damico também comentou a leitura de parte dos analistas de que os ativos brasileiros funcionam como um “antitrade de IA”. Para ela, a compra de ativos do Brasil se aproxima mais de uma aposta na economia real e em commodities, e serve também como proteção contra a inflação.
Nos próximos dois meses, disse a economista, o fator doméstico deve pesar mais que o externo, porque há prêmio de risco a reduzir depois da definição da eleição. Segundo ela, o externo volta a predominar depois dessa correção inicial.
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