Bloomberg Línea — A Dasa (DASA3), dona dos laboratórios Lavoisier, Delboni e Pasteur, não pretende renegociar dívidas relevantes até 2028. A companhia antecipou em julho a rolagem de R$ 700 milhões que só venceriam no segundo trimestre de 2027, pagando juros mais altos em troca de prazo mais longo, e agora tem o calendário limpo por dois anos.
“Estamos resolvidos em 2027. Só vamos ter que avaliar novas possíveis rolagens a partir de 2028”, afirmou o CEO Rafael Lucchesi, em entrevista à Bloomberg Línea.
A operação encareceu a dívida. A taxa passou de CDI mais 1,06 ponto percentual para CDI mais 2,75 pontos percentuais, e o vencimento foi empurrado do começo de 2027 para meados de 2028.
Indagado se essa era a única saída disponível, Lucchesi descartou a leitura de alguns analistas de que a companhia estivesse pressionada com o calendário de vencimentos. As ações da Dasa acumulavam perdas da ordem de 42% em 2026 até a terça-feira (25).
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“Isso foi uma opção nossa. A gente quis, por questões macroeconômicas: a eleição agora, a taxa de juro ainda alta, e uma questão até de conservadorismo nosso. A gente preferiu já fazer a rolagem esse ano”, explicou.
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O movimento foi feito por meio da 23ª emissão de debêntures da companhia, acompanhada do resgate antecipado dos papéis da 16ª emissão. O prazo médio da dívida ficou em 3,7 anos, com custo médio de CDI mais 2,31 pontos percentuais.
O balanço do segundo trimestre explica por que 2028 aparece como marco. A Dasa encerrou junho com R$ 959 milhões em caixa e aplicações. Vencem R$ 423 milhões ainda em 2026 e R$ 360 milhões em 2027, montantes cobertos com folga pela posição de liquidez atual.
A partir daí, a curva muda de patamar. Em 2028 vencem R$ 1,34 bilhão, em 2029 outros R$ 1,65 bilhão, e de 2030 em diante R$ 2,66 bilhões.
Ações da Dasa (DASA3)
É exatamente para 2028 que a companhia empurrou os R$ 700 milhões renegociados, e é o mesmo ano em que o CEO diz que volta a avaliar novas rolagens.
O quadro geral de endividamento vem melhorando desde 2024. A dívida líquida financeira, somada a aquisições a pagar e antecipação de recebíveis, caiu de R$ 10,07 bilhões no segundo trimestre de 2024 para R$ 5,62 bilhões no mesmo período deste ano, resultado de um ciclo de venda de ativos que incluiu o Hospital São Domingos, a Mantris Saúde Corporativa e a operação de diagnósticos na Argentina.
Peso na alavancagem
O balanço traz um dado que contraria essa trajetória. A alavancagem financeira reportada subiu para 3,52 vezes o Ebitda no segundo trimestre, ante 2,82 vezes um ano antes. A explicação do CEO é contábil.
A venda do Hospital São Domingos, concluída no quarto trimestre de 2025, produziu um efeito negativo relevante que segue carregado na base de 12 meses usada para calcular o indicador. O balanço apresenta, por isso, dois quadros distintos de alavancagem: o reportado, de 3,52 vezes, e o de escopo atual, que exclui esse efeito e mostra 2,91 vezes, em queda desde as 3,13 vezes do quarto trimestre de 2025.
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Segundo Lucchesi, as duas curvas devem convergir no fim deste ano, quando o efeito da venda sair da base de comparação.
Em relatório sobre o balanço, o BB Investimentos registrou ainda um terceiro índice, o de alavancagem para fins de covenants, cláusulas contratuais que estabelecem limites de endividamento nas escrituras das debêntures, que subiu de 2,88 para 3,39 vezes.
A Dasa informa no material de resultados que o cálculo de dívida líquida e Ebitda para essa finalidade foi atualizado a partir do primeiro trimestre de 2026, passando a incluir contas a pagar por aquisição de controladas.
Joint venture com a Amil
Parte relevante da reorganização patrimonial da Dasa passou pela Rede Américas, plataforma hospitalar formada em abril de 2025 e dividida meio a meio com a Amil. A companhia reconhece metade do resultado por equivalência patrimonial.
No segundo trimestre, a joint venture teve receita líquida de R$3,2 bilhões, alta de 12%, e Ebitda de R$441 milhões, crescimento de 39%, com margem de 13,7%. A alavancagem da JV caiu de 2,74 para 1,69 vez, também sob o novo critério de cálculo adotado neste ano.
A Rede Américas teve o prejuízo reduzido de R$140 milhões para R$ 37 milhões na mesma comparação anual. A geração operacional de caixa foi negativa em R$ 60 milhões no trimestre, revertendo os R$ 18 milhões positivos registrados um ano antes. Indagado sobre o consumo de caixa, Lucchesi apontou um efeito de comparação entre trimestres.
“O trimestre anterior teve uma antecipação de uma fonte pagadora, que esse trimestre não teve. Então esse consumo de caixa não é todo operacional”, explicou.
A Dasa desembolsou R$40 milhões no trimestre, referentes à última das três parcelas de uma indenização ligada ao ajuste de dívida líquida na formação da sociedade.
Uma variável fora do alcance da companhia
“A nossa missão aqui é de longo prazo, de colocar a empresa num outro patamar. O acionista não pressiona a gente por questões de curto prazo”, disse o executivo.
A companhia tem o controle concentrado. Fundos de investimento ligados à família fundadora, os Godoy Bueno, somam mais de 75% do capital votante da empresa, segundo a posição de acionistas mais recente, com data-base de 31 de julho de 2026, divulgada pelo site da B3.
Em abril, a base de acionistas pessoa física somava 8.490 CPFs, ante apenas 116 pessoas jurídicas e 7 investidores institucionais cadastrados diretamente, um sinal de que mesmo o capital fora do núcleo familiar está mais concentrado em poucos blocos organizados do que pulverizado no mercado.
Há um ponto de atenção sobre a Rede Américas que não depende da gestão da Dasa. A Amil estaria em processo de venda, segundo uma fonte ouvida pela reportagem que pediu anonimato: as gestoras Bain Capital e Advent International querem comprar a operadora do atual controlador, o empresário José Seripieri Filho, o Júnior, em um negócio estimado em até R$ 18 bilhões.
Lucchesi não comentou o rumor sobre a possível venda da Amil evitando falar sobre o que o acordo de acionistas entre Dasa e Amil prever caso a sócia mude de controle, e se a Dasa teria preferência para comprar a outra metade da JV.
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