Bloomberg Opinion — Seis meses depois que o secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, prometeu que a parceria entre o país e a Venezuela levaria a um “aumento dramático” na produção de petróleo, gás natural e eletricidade, isso não aconteceu.
É verdade que os embarques de petróleo venezuelano para os EUA dispararam desde que o governo Trump transformou efetivamente o país sul-americano em um protetorado. Mas a produção estagnou em cerca de 1,1 milhão de barris por dia há três meses consecutivos, segundo fontes secundárias da Opep, após subir de cerca de 920 mil barris no início do ano.
As especulações iniciais de que se atingiria rapidamente de 1,2 milhão a 1,5 milhão de barris por dia estão se dissipando, à medida que novos investimentos não se concretizam. A indústria petrolífera da Venezuela precisa de capital, regras claras e tempo — três ingredientes que não consegue garantir, mesmo com Washington no comando.
É isso que torna tão intrigante a saída forçada de Harry Sargeant III, ex-companheiro de golfe de Trump, da segunda maior produtora privada de petróleo da Venezuela. Isso sugere uma mudança em andamento entre as autoridades americanas em direção a uma abordagem mais integrada para o problema venezuelano.
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No início do mês, Sargeant concordou em vender a Bluewave Properties, sua empresa offshore detentora de uma participação minoritária na North American Blue Energy Partners, ao empresário venezuelano Alejandro Betancourt, acionista controlador da empresa, por US$ 300 milhões, segundo informado pela Bloomberg News, citando fontes a par do negócio. Sargeant vinha sofrendo pressão do governo Trump para se desfazer de seus ativos, e o Departamento do Tesouro já havia congelado parte deles.
Por que um magnata que atuou como canal secreto regular entre Washington e Caracas durante os anos mais sombrios da ditadura de Nicolás Maduro iria se retirar justamente quando a indústria petrolífera da Venezuela supostamente está prestes a decolar?
As teorias são muitas: uma aponta para a animosidade com o secretário de Estado Marco Rubio, o autoproclamado vice-rei da Venezuela; outra destaca a linha direta do próprio Betancourt com a Casa Branca, tornando Sargeant dispensável; ou simplesmente que ele era muito próximo de Maduro para sobreviver à transição, uma vez que Donald Trump decidisse afastar o homem forte de bigode de Caracas.
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Não pretendo saber exatamente o que aconteceu. Mas pessoas que acompanharam o negócio me disseram que Sargeant tentou primeiro vender sua participação para grandes empresas internacionais e não encontrou interessados. Betancourt, um dos “bolichicos” originais que construiu sua fortuna com contratos chavistas, foi aparentemente o único comprador disposto a se apresentar.
À primeira vista, isso é desanimador. Se conexões duvidosas como as de Betancourt são a única forma de entrar no setor petrolífero da Venezuela, não há muito espaço para uma concorrência minimamente justa, muito menos para o investimento de longo prazo de que o país precisa desesperadamente.
Mas há outra interpretação: a saída de Sargeant pode fazer parte da “limpeza interna” de Washington, à medida que o governo entra em uma fase mais profunda de seu projeto de reconstrução nacional na Venezuela.
Os sinais já estão aí. Desde o terremoto de 24 de junho, que matou milhares de pessoas no noroeste e no centro do país, Rubio e sua equipe assumiram um papel mais ativo nos assuntos cotidianos do país, com liberdade concedida por Trump para definir políticas e forte influência sobre Caracas.
A primeira rodada de negociações mediadas por Washington entre o governo de Delcy Rodríguez e parte da oposição terminou na semana passada com um compromisso conjunto de renovar os tribunais superiores e recuperar as reservas de ouro mantidas no Banco da Inglaterra para auxílio às vítimas do terremoto.
As negociações devem apresentar resultados, inclusive quanto à medida fundamental de reformular o conselho eleitoral do país, até dezembro. Isso é encorajador e representa a primeira tentativa concreta de transição política na nova era do chavismo, marcada pela submissão a Washington em um momento em que Rodríguez, discretamente, reorganizou as forças armadas e mudou drasticamente a política externa da Venezuela, afastando-a da ideologia e direcionando-a para o alinhamento com aliados dos EUA, incluindo Israel. Na sexta-feira (14), o regime também anunciou a libertação de mais de 130 presos políticos.
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A direção parece correta, mesmo reconhecendo que o chavismo dominou a arte de ganhar tempo com negociações que nunca avançaram muito. Resta saber se, desta vez, os esforços serão sólidos o suficiente para levar a eleições gerais no ano que vem — meta que a Venezuela não pode continuar adiando. Mas as negociações, pelo menos implicitamente, reconhecem que o plano de Rubio em três etapas para o país — estabilização, recuperação e transição política — precisa ocorrer em frentes paralelas, e não sequencialmente.
O setor petrolífero e a falta de compradores internacionais para os ativos da Sargeant comprovam isso: a transição política não pode esperar pela recuperação econômica. Apesar de um governo desesperado por investimento estrangeiro e das fanfarronices de Trump sobre controlar o petróleo da Venezuela, as empresas — inclusive as americanas — continuam receosas de investir dinheiro em um destino que ainda carece de uma estrutura institucional e jurídica duradoura. A economia da Venezuela só decolará após a transição política, e não o contrário.

A política interna de ambos os lados está intensificando esse cálculo. Com as eleições de meio de mandato se aproximando, Rubio enfrenta uma pressão crescente para mostrar progresso e traçar um caminho credível a seguir, além de oferecer mais transparência sobre a gestão dos recursos venezuelanos.
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A resolução bipartidária em apoio a eleições livres e justas, apresentada no início deste mês, mostra que o Congresso está acompanhando de perto a situação. Enquanto isso, Rodríguez tem seus próprios problemas: sua popularidade continua caindo. Quase dois terços dos venezuelanos agora a desaprovam, depois que a resposta desastrosa do governo ao terremoto expôs a já conhecida ineficiência do chavismo. Ela também enfrenta vozes dissidentes dentro do próprio chavismo.
Tudo isso apenas reforça a necessidade de se encontrar uma saída política antes que a disputa pela sucessão de Trump comece a ganhar força. Uma transição dessa magnitude é improvável sem o envolvimento sustentado dos EUA. Mas esse envolvimento tem um custo: coloca Washington na obrigação de realmente cumprir o que promete.
Aí reside a contradição de bancar o império no século XXI. Trump pode brincar sobre a Venezuela se tornar o 51º estado americano, o Departamento de Estado pode reivindicar todo o Hemisfério Ocidental como seu quintal e os cínicos podem apontar os motivos materialistas por trás da destituição de Maduro.
Mas a posse acarreta obrigações. Quando uma grande potência assume os problemas de outro país, ela herda seu futuro. E o futuro da Venezuela custará a Washington muito mais tempo e capital político do que simplesmente remover um cara problemático do setor petrolífero.
Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.
Juan Pablo Spinetto é colunista da Bloomberg Opinion e cobre negócios, assuntos econômicos e política da América Latina. Foi editor-chefe da Bloomberg News para economia e governo na região.
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