C6 planeja entrar em vale-refeição com operação própria no 2º semestre, diz CEO

Marcelo Kalim afirma à Bloomberg Línea que o banco digital emitirá vale-alimentação e vale-refeição sem parceiro, aproveitando a queda da exigência de rede própria de credenciamento; anúncio acompanha lucro de R$ 1,257 bilhão no primeiro semestre, com alta de 20%

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Bloomberg Línea — O C6 Bank vai emitir vale-alimentação e vale-refeição em operação própria a partir do segundo semestre, segundo revelou o CEO e fundador Marcelo Kalim à Bloomberg Línea.

O movimento vem depois de um semestre em que o banco digital, que tem o JPMorgan Chase como sócio, registrou lucro líquido de R$ 1,257 bilhão, alta de 20% sobre os R$ 1,049 bilhão do primeiro semestre de 2025, e ROAE (retorno sobre o patrimônio líquido médio) de 38%.

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Multibenefícios corporativos não figuravam entre os serviços operados diretamente pelo banco. A abertura veio de uma mudança nas regras do setor, que permitiu a qualquer credenciadora processar transações de cartões de benefício mediante cobrança de taxa. Até então, cada emissora mantinha rede própria de estabelecimentos, e o cartão só circulava dentro dela.

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Na prática, a exigência de ter rede própria funcionava como barreira de entrada. Com ela derrubada, quem não credencia restaurantes e supermercados passa a conseguir operar como agente emissor do benefício.

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Kalim afirmou que a operação não depende de licença específica e que a exigência remanescente é o cumprimento das regras do PAT (Programa de Alimentação do Trabalhador).

“Com a desregulamentação dessa área, que abriu a adquirência para todos, nós vamos entrar nesse segmento no segundo semestre”, disse Kalim.

A receita não virá da emissão isolada. O banco pretende amarrar o benefício aos serviços que já vende à mesma empresa, com saldo e movimentação visíveis no aplicativo em que ela opera conta, pagamentos e crédito.

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É a mesma lógica que sustenta o restante da oferta empresarial, na qual cada produto adicional aprofunda um relacionamento existente em vez de abrir um novo.

“Faremos isso integrado à nossa oferta bancária. No nosso próprio app, será possível ver o saldo”, afirmou o executivo, que considera o desenho atraente para o cliente empresarial.

A frente empresarial vem sendo adensada há mais de um ano. A carteira de crédito expandida do C6 alcançou R$ 99,8 bilhões em junho, avanço de 38% em 12 meses, com pessoa jurídica respondendo por 11% do total, atrás de consignado público e privado (45%), financiamento de veículos (30%) e empréstimo para pessoa física (13%).

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Neste ano, o banco estendeu à PME (pequena e média empresa) o atendimento e a solução de problemas por WhatsApp, recurso que já operava na pessoa física.

“PJ é para nós um segmento bastante importante”, disse Kalim, que descreve a área como uma das de maior crescimento e boa rentabilidade no banco, com espaço para continuar avançando.

O banco oferece às empresas tanto o aplicativo quanto o internet banking, este último com transferência de arquivos e alçadas múltiplas de aprovação, funcionalidades que companhias maiores costumam exigir.

O uso efetivo, porém, ficou concentrado no telefone celular, e Kalim aponta esse comportamento como um dos fatores de ganho de participação no segmento.

“É impressionante que mais de 95% de tudo o que é transacionado seja transacionado via app”, afirmou.

Os demais indicadores do semestre reforçam o quadro. As captações totais somaram R$ 125,6 bilhões em junho, alta de 34% em um ano, com depósitos à vista crescendo cerca de 24% e captações a prazo, 36%.

O índice de eficiência, que mede quanto o banco gasta para gerar receita, ficou em 42%, melhora de 4 pontos percentuais na comparação anual, com receita líquida de R$ 6,268 bilhões e despesas operacionais de R$ 2,611 bilhões.

Com R$ 170,4 bilhões em ativos totais, o C6 passou a ser classificado como banco S2 na segmentação do Banco Central, o mesmo grupo dos maiores conglomerados do país abaixo do topo.

O Índice de Basileia, que mede a folga de capital diante dos riscos assumidos, encerrou junho em 12,6%, ante 13,7% um ano antes. O Loan-to-Deposit Ratio, relação entre carteira de crédito e depósitos, ficou em 79%.

O que a inteligência artificial faz hoje

Indagado sobre o gasto crescente das companhias com inteligência artificial e a cobrança de retorno por parte dos analistas, Kalim recorreu ao ciclo do blockchain de 2018. Recebeu cerca de 50 apresentações sobre a tecnologia e, segundo ele, nenhuma respondeu à pergunta que fazia a todas: por que aquilo seria melhor na prática. A segurança não era superior, o custo não era menor, e o assunto saiu de cena.

“IA tem esse mesmo problema. O hype é igual, a natureza é diferente”, disse o executivo, que atribui valor à tecnologia e situa a diferença no fundamento, não na expectativa criada em torno dela.

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O uso atual, na descrição dele, está limitado a ganho de produtividade humana. Montar uma apresentação com auxílio de IA ficou 10 vezes mais fácil do que fazê-la no PowerPoint, comparação que ele estende ao desenvolvimento de código: a ferramenta acelera o profissional, não o substitui.

O banco colocou recursos de inteligência artificial no aplicativo para o usuário final há cerca de dois anos, antes dos grandes bancos de varejo.

“Ainda não estamos no ponto em que eu, no banco, tenha uma IA de várias agências e nenhum funcionário. Estamos longe disso”, afirmou.

A exposição de dados de clientes aparece como restrição declarada. O processamento ocorre em ambiente fechado, dentro dos provedores de nuvem que já hospedam as bases do banco, o que reduz o cardápio de modelos disponíveis a um subconjunto autorizado.

“Não conseguimos usar todas as tecnologias disponíveis, mas sim aquelas que esses provedores julgam confiáveis dentro do ambiente deles, para não expor os dados dos nossos clientes”, disse Kalim.

Sobre vulnerabilidades associadas aos modelos mais recentes, classificou a preocupação como legítima, mas ainda não materializada, porque nenhum agente executa hoje, no banco, tarefa antes atribuída a pessoas. Essa é, na avaliação dele, a próxima revolução, com chegada estimada entre seis meses e dois anos.

Inadimplência e o desenho macro

O tema que dominou a temporada de balanços também aparece nos números do C6. O NPL 90+ (créditos vencidos há mais de noventa dias) subiu de 3,2% em junho de 2025 para 3,6% em junho de 2026, puxado pelo crescimento do consignado privado. Excluído o efeito da nova regulamentação sobre critérios de baixa para prejuízo, o indicador seria de 2,6%.

A despesa com provisão para devedores duvidosos acompanhou o movimento e passou de R$ 996 milhões para R$ 2,372 bilhões na mesma comparação, pela razão registrada no documento: a carteira de consignado privado exige mais provisionamento. É a contrapartida contábil do produto que sustentou boa parte da expansão do crédito no período.

Kalim descolou a alta do calendário eleitoral. Para ele, a variável política tem correlação com o preço dos ativos, não com o indicador de crédito, que decorre da combinação vigente há alguns anos: afrouxamento fiscal, com gasto público em alta, somado a aperto monetário.

Empresas endividadas encontram mais dificuldade para pagar, e o comprometimento da renda das famílias está no topo da série histórica.

“O que leva à inadimplência é uma política fiscal leniente com uma política monetária apertada. Isso é ruim para a economia, na minha opinião”, afirmou.

O ciclo de alta deve atravessar o segundo semestre e alcançar o primeiro semestre de 2027, refletindo as concessões atuais. Sobre a eleição presidencial, Kalim avaliou que a reeleição do presidente Lula provavelmente não alteraria o quadro e que, na hipótese de outro candidato, ainda não é possível saber.

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