Tênis cresce no Brasil com impulso das mulheres e turbina marcas, eventos e academias

Participação feminina em torneios, quadras de treino e consumo de material esportivo cresce em ritmo acelerado, formando uma nova base de praticantes e consumidoras para o esporte

Luisa Stefani, dupla da canadense Gabriela Dabrowski, é uma das principais tenistas da nova geração brasileira. Em julho, foi vice-campeã em Wimbledon
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Bloomberg Línea — João Fonseca se tornou o principal símbolo de uma nova fase do tênis brasileiro, em que desempenho esportivo e a projeção comercial caminham lado a lado. Aos títulos e à ascensão no circuito internacional somam-se o interesse crescente de patrocinadores e o potencial de atrair uma nova geração de fãs e praticantes para o esporte.

A ascensão do jovem tenista ocorre após o período de protagonismo de Bia Haddad, que ajudou a recolocar o tênis feminino brasileiro no centro das atenções antes de anunciar uma pausa temporária na carreira recentemente.

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O movimento, porém, vai além de seus principais expoentes: Luisa Stefani e Marcelo Melo mantêm o Brasil em evidência nas duplas, enquanto nomes como Guto Miguel, Victoria Barros e Naná Silva (Nauhany Silva) representam uma geração que começa a ampliar as perspectivas do país no cenário internacional.

E essa visibilidade dos atletas, somada a outros fenômenos, tem atraído cada vez mais participantes para o esporte. Em especial, as mulheres, numa conexão que une esporte, moda e senso de coletividade.

Da arquibancada e das telas para a quadra

Lúcia Zaragoza, gerente de atendimento no YouTube do Google, é um exemplo desse movimento. Entusiasta de longa data, inclusive acompanhando in loco eventos como o Australian Open, ela começou a jogar tênis há cerca de um ano após não se encontrar em outras atividades físicas.

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Na quadra que frequenta, no Real Parque, em São Paulo, Zaragoza também percebe o reflexo dos números: “Tem mais mulher do que homem. E não só mulheres mais novas”, diz.


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A prática despertou também um consumo mais frequente de material esportivo e alinhado ao esporte. De Paris, nas férias, trouxe itens ligados a Roland Garros, e pretende fazer o mesmo nos Estados Unidos.

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“Por azar, eu não vou pegar o US Open, mas já estou vendo os itens que tem na loja do torneio. A Ralph Lauren, por exemplo, tem uma loja específica”, diz ela, que afirma fugir do que chama de perfil “caricato” dos praticantes de tênis.

A percepção da nova praticante é de que o crescimento do esporte no Brasil tem acelerado mudanças no posicionamento das marcas locais, que oferecem hoje muito mais opções. “Tem muito mais produtos e é muito mais acessível. Antes, o visual que você conseguia construir era mais básico”, diz.

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Os números confirmam a percepção: de torneios profissionais a academias e marcas de material esportivo, o público feminino cresce em ritmo mais acelerado que o masculino em praticamente todas as pontas da cadeia do esporte.

No Rio Open, que chegou à 13ª edição em fevereiro, a participação de mulheres no público saltou de 30% para 45% nos últimos anos, segundo Marcia Casz, diretora-geral do torneio e também do SP Open, evento feminino da WTA lançado no ano passado. Ela cita ainda um dado da Confederação Brasileira de Tênis segundo o qual o interesse feminino pelo esporte cresceu cerca de 33% desde 2020.

No SP Open, torneio dedicado ao tênis feminino, a proporção é mais equilibrada. “Nós temos pelo menos ali 50-50%. Existe essa identificação feminina e as mulheres querendo assistir aos jogos de outras mulheres”, diz Casz.

É um novo impulso que contribui para os números comerciais do negócio. O Rio Open hoje reúne mais de 50 marcas entre patrocinadores e parceiros, com índice de renovação de 80%, e recebe mais propostas de patrocínio do que consegue acomodar.

O impacto econômico estimado do evento no Rio de Janeiro foi superior a R$ 200 milhões, com 40% dos compradores de ingresso vindos de fora do estado — fatia que, segundo a executiva, só cresce.

“Nós estamos no melhor momento da história do Rio Open”, afirma Casz.“E queremos o mesmo movimento com o SP Open”. O evento acontece entre os dias 14 e 20 de setembro.

Na PlayTennis, rede com 16 academias e mais de 13 mil clientes ativos, a fatia de mulheres na base passou de 19% para 32% nos últimos três anos, segundo Daniel Couri, sócio e diretor de expansão, marketing e parcerias da empresa.

Para o executivo, o gatilho inicial do boom recente não foi nenhum atleta específico, mas a pandemia — fator citado também por Casz. “O segundo grande momento, tão grande quanto o Guga, não foi o João Fonseca, não foi a Bia (Haddad), foi a pandemia”, diz Couri, lembrando que o tênis foi promovido globalmente como esporte de distanciamento social.

Ele descreve ainda um efeito de “transbordamento” vindo do beach tennis: praticantes que começaram no esporte de praia estariam migrando para as quadras em busca de mais complexidade técnica. O movimento é, segundo ele, puxado “em particular, pelas mulheres”.

A expansão no número de praticantes fez com que a PlayTennis triplicasse o seu faturamento desde 2020, segundo o executivo, sem abrir os números totais. Negócios correlatos — eventos, clínicas de marca e experiências — também têm avançado para atrair os novos atletas.

A expansão no número de praticantes fez com que a PlayTennis triplicasse o seu faturamento desde 2020. Na rede, número de mulheres subiu de 19% para 32%

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O efeito nas marcas esportivas

O apetite feminino também reconfigurou o mercado de material esportivo. Na Slyce, marca com apenas dois anos de operação e crescimento de 120% ao ano em receita, a linha feminina saltou de cerca de 20% para 50% do faturamento em menos de dois anos, segundo Jorge Castello Branco, fundador e CEO da empresa.

O tíquete médio das consumidoras é hoje superior ao dos homens — resultado, segundo ele, de um comportamento de compra que privilegia looks completos em vez de peças avulsas. A marca tem a duplista Luisa Stefani, vice-campeã em Wimbledon, como uma das atletas patrocinadas.

A demanda fez com que a marca redesenhasse a sua estratégia de comunicação: 95% das parcerias com influenciadores hoje são com mulheres.

“A mulher tende a comprar o look, a estética e o lifestyle que a marca representa, enquanto o homem responde mais fortemente ao atleta, à competição e à performance. Isso influencia diretamente nossa estratégia de comunicação”, afirma Castello Branco.

“No produto, também trabalhamos de maneiras diferentes. Para o feminino, temos ampliado a variedade de SKUs, modelagens e possibilidades de combinação”.

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Na Fila Brasil, o portfólio feminino cresceu 28% entre 2025 e 2024, com ganho de 4 pontos percentuais de participação de mercado — avanço que continua em 2026, com mais 2 pontos percentuais de share até o momento, segundo Adriana Magalhães David, diretora de branding e marketing da companhia.

“O feminino tem sido uma das principais alavancas de crescimento da Fila nos últimos anos”, afirma a executiva, que aposta na convergência entre performance esportiva, moda e bem-estar como próxima fronteira de expansão da marca. “Saias, vestidos, plissados, jaquetas e conjuntos esportivos se tornaram parte de um estilo de vida que combina conforto, funcionalidade e moda”, conta.

Segundo a Amazon Brasil, a categoria de tênis, incluindo raquetes e acessórios, cresceu mais de 16% em receita. No último ano, o tíquete médio registrou alta de 45%. A plataforma notou também uma migração do consumidor para produtos mais específicos e profissionais, com investimento em equipamentos de performance de marcas como Babolat, Tecnifibre e Wilson.