Milei descarta recessão na Argentina e afirma estar ‘tranquilo’ sobre reeleição

Presidente argentino minimiza a contração da atividade econômica do país, a piora do mercado de trabalho e a queda da sua aprovação e aposta em crescimento próximo de 3% em entrevista à Bloomberg News

Presidente conseguiu reduzir a inflação, mas a economia encolheu 0,6% no segundo trimestre (Foto: Bloomberg)
Por Manuela Tobias
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Bloomberg — O presidente argentino Javier Milei minimizou as preocupações com a estagnação da economia argentina e destacou o crescimento anual consistente, que o deixa “muito tranquilo” quanto às chances de conquistar outro mandato no próximo ano.

“Não vemos problema com o crescimento”, disse Milei nesta quinta-feira, em entrevista ao editor-chefe da Bloomberg News, John Micklethwait, no Economic Club of New York.

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“Neste ano, vamos crescer em torno de 3%, talvez um pouco menos, e, para o próximo ano, a expectativa é de algo mais ou menos semelhante.”

Milei conseguiu reduzir a inflação, que estava na casa dos três dígitos quando assumiu o cargo, há três anos. Mas a economia encolheu 0,6% no segundo trimestre, a primeira contração trimestral em dois anos.


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Economistas consultados pelo banco central do país também reduziram a projeção de crescimento para 2,1% em agosto, ante estimativa de 3,5% em dezembro. Dados divulgados mais tarde nesta quinta-feira (24) mostraram que a atividade econômica contraiu 2,9% em julho ante o mês anterior, resultado muito pior que o esperado. Na comparação anual, houve queda de 1,4%, enquanto a pobreza aumentou no primeiro semestre do ano.

A desaceleração provocou um debate entre analistas sobre o risco de a Argentina entrar em recessão técnica neste ano e alimentou preocupações de investidores de que o líder favorável ao mercado enfrentará uma disputa difícil pela reeleição. Pesquisas que mostram que os eleitores agora estão mais preocupados com o desemprego do que com a inflação ampliaram o desafio.

A taxa de aprovação de Milei estava em 38% em agosto, perto dos níveis mais baixos de sua presidência, segundo pesquisa AtlasIntel para a Bloomberg News. Cerca de 70% dos argentinos classificaram o mercado de trabalho como ruim, mostrou o levantamento. Milei descartou as pesquisas como pouco confiáveis na Argentina.

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A Argentina perdeu quase 250 mil empregos formais no setor privado desde pouco antes da posse de Milei, e a taxa de desemprego subiu para quase 8%.

Milei, no entanto, atribuiu o crescimento mais lento a índices ponderados que, segundo ele, não levam em conta a transformação estrutural da Argentina, especialmente a expansão do setor de petróleo e gás. Também rebateu as críticas ao afirmar que a economia criou 520 mil empregos, muitos dos quais não aparecem nas estatísticas por serem informais.

“O que está acontecendo é que esses empregos estão sendo criados no setor informal”, afirmou.

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Analistas apontam a estratégia de Milei para conter os preços como a principal responsável pelo crescimento fraco.

O peso argentino perdeu 3,7% em relação ao dólar neste ano até agosto, enquanto os preços ao consumidor subiram 21%. Essa valorização em termos reais recebeu apoio, nas últimas semanas, da intervenção oficial nos mercados de títulos e futuros, enquanto a política monetária permanece restritiva.

‘Sou louco, mas não como vidro’

Milei argumentou que o crescimento do trabalho informal decorre, em grande parte, do receio do setor privado de uma volta das políticas intervencionistas de seus adversários na eleição do próximo ano. Citou especificamente o governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, considerado o adversário mais provável de Milei e tradicional aliado da ex-presidente de esquerda Cristina Kirchner.

A oposição também é responsável pela permanência dos controles de capital na Argentina, afirmou Milei. Embora tenha flexibilizado a política cambial, a Argentina ainda adota uma taxa de câmbio administrada e mantém algumas restrições à repatriação de dividendos pelas empresas.

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“Temos de tomar precauções”, disse Milei. “Não sou tão anarquista quanto gostaria nem tão libertário quanto gostaria. Mas tenho a responsabilidade de governar para 48 milhões de pessoas, sabendo que, do outro lado, há pessoas dispostas a destruir tudo. Sou louco, mas não como vidro.”

Antes das eleições gerais de 2027, a Argentina também deverá realizar uma eleição primária nacional preliminar conhecida como PASO, que normalmente oferece uma primeira indicação das preferências dos eleitores. Milei enviou ao Congresso, no início deste ano, um projeto para extinguir as PASO, numa tentativa de evitar a volatilidade de mercado observada no passado.

“Política não é a minha praia”, afirmou Milei ao ser questionado sobre o motivo de o projeto estar parado.

Em ciclos anteriores, a votação levou à deterioração das reservas do banco central, pois argentinos compraram dólares para proteger as economias diante da incerteza eleitoral.

Milei, porém, afirmou que a iniciativa para eliminar as PASO busca acabar com o que descreveu como instrumento de “política suja”, e não decorre de cálculos políticos.

Acordo comercial com os EUA

A Argentina continua trabalhando para obter novas isenções tarifárias dos EUA, afirmou Milei, em referência ao fato de o país ainda não ter ratificado o acordo comercial assinado em fevereiro com o governo do presidente dos EUA, Donald Trump.

O governo tentou renegociar alguns termos do acordo após a decisão da Suprema Corte dos EUA sobre as tarifas globais de Trump, segundo noticiou a Bloomberg News na terça-feira.

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Embora Trump tenha chamado Milei de “meu presidente favorito”, integrantes do governo americano viajaram a Buenos Aires nas últimas semanas para transmitir uma mensagem clara: não haverá renegociação.

Milei também reiterou a reivindicação da Argentina sobre as Ilhas Falkland, território ultramarino sob controle britânico que está no centro de uma antiga disputa territorial.

“Somos os donos das ilhas por geografia, por direito e por história”, afirmou sobre as Malvinas, como são conhecidas na Argentina.

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