Modelo econômico de Milei vira símbolo da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro

Adversários usam resultados distintos da Argentina para defender visões opostas sobre gastos públicos, impostos e regras trabalhistas. Senador de direita defende ‘tesouraço’, e presidente aponta aumento do desemprego no país e da insatisfação popular com o líder argentino

Posse de Javier Milei
Por Martha Beck
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Bloomberg — A duas semanas de uma acirrada eleição presidencial, os principais candidatos brasileiros transformaram a Argentina de Javier Milei em um símbolo de suas visões econômicas antagônicas.

O senador Flávio Bolsonaro apresenta a transformação econômica promovida pelo presidente argentino como um exemplo da disciplina fiscal de que, segundo ele, o Brasil precisa.

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Já a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem o argumento oposto, apontando para a desaceleração da economia argentina e para as dificuldades no mercado de trabalho como um alerta do que pode aguardar os trabalhadores brasileiros caso Bolsonaro vença.


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Milei exerce uma influência forte sobre a política brasileira desde que chegou à Presidência da Argentina, há três anos. Sua receita de austeridade fiscal e reformas pró-mercado o transformou em um rival econômico natural de Lula, que há muito considera gastos públicos como algo crucial para o crescimento.

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Javier Milei, presidente da Argentina, à esquerda, e Flavio Bolsonaro (Foto: Maira Erlich/Bloomberg)

O apoio de Lula ao adversário de Milei na eleição de 2023 também transformou os dois em adversários políticos. O argentino deu o troco em julho, lançando uma série de ataques contra o presidente brasileiro durante um evento da campanha de Bolsonaro, o que provocou uma crise diplomática entre os dois países.

O capítulo mais recente dessa disputa vem se desenrolando em fóruns com investidores e anúncios digitais, com as duas campanhas apostando que a “terapia de choque” de Milei pode ajudar a definir a escolha que os eleitores enfrentam na maior economia da América Latina.

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“Vamos usar de inspiração o que foi feito pelo governo de Javier Milei na Argentina”, disse Daniella Marques, principal assessora econômica da campanha de Bolsonaro, durante um evento em São Paulo na semana passada. “Milei é um ótimo exemplo em voltar a ter capacidade de investimento, em redução de burocracia e redução de impostos.”

A mensagem tinha como alvo investidores cada vez mais preocupados com a deterioração da situação fiscal do Brasil sob Lula e que continuam à espera de detalhes sobre como Bolsonaro pretende enfrentar o problema.

Mas o Partido dos Trabalhadores aproveitou a declaração para contra-atacar, publicando nas redes sociais um vídeo que apresentou a expressiva perda de empregos e o fechamento de empresas na Argentina como consequências do modelo econômico de Milei.

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A capacidade de Milei de reduzir uma inflação que estava na casa dos três dígitos, ao mesmo tempo em que produziu superávits orçamentários mensais, eliminou entraves regulatórios e aprovou uma ampla reforma trabalhista, fez dele um dos favoritos dos investidores.

Ele também se tornou uma referência recorrente para candidatos conservadores que defendem políticas semelhantes — e vêm vencendo eleições — nas Américas. Flávio Bolsonaro é o exemplo mais recente: ao longo da campanha, ele tem defendido um tesouraço nos gastos públicos brasileiros, empunhando uma tesoura como uma versão mais modesta da famosa motosserra de Milei.

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“Se na Argentina teve motosserra, no Brasil vai ter um tesouraço nos impostos, na burocracia e na corrupção”, disse Bolsonaro após encontro com Milei em Buenos Aires.

Mas o outro lado dessa experiência agora fornece munição para adversários como Lula.

A economia argentina encolheu no segundo trimestre, e os avanços no combate à inflação agora esbarram na frustração dos eleitores com o desemprego em um país que perdeu 246 mil empregos formais no setor privado — cerca de 4% do total — desde que ele assumiu o cargo.

A aprovação de Milei estava em 38% em agosto, enquanto cerca de 70% dos argentinos classificaram a situação do mercado de trabalho do país como ruim em uma pesquisa da AtlasIntel para a Bloomberg News.

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Aliados de Lula têm usado esses dados para destacar sua principal proposta de campanha: a redução da jornada semanal de trabalho. O Partido dos Trabalhadores comparou o plano a um dispositivo da reforma trabalhista de Milei que permite aos funcionários trabalhar até 12 horas por dia, ante o limite anterior de oito horas.

Bolsonaro tem defendido regras trabalhistas mais flexíveis como contraponto à proposta de Lula, argumentando que isso daria mais liberdade aos trabalhadores em um momento em que muitos estão optando pelo trabalho por aplicativos em vez de empregos tradicionais.

O senador e seus aliados conseguiram impedir uma votação sobre o plano de reforma trabalhista de Lula antes da eleição, evitando a aprovação de uma proposta que conta com elevado apoio entre os eleitores brasileiros.

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