Como é jantar em um dos primeiros restaurantes três estrelas Michelin de São Paulo

Restaurante Evvai, do chef Luiz Felipe Souza, foi uma das duas casas reconhecidas pelo famoso guia internacional como as melhores do país e entrega uma comida criativa e capaz de surpreeender os sentidos; Tuju, também de São Paulo, foi outro que recebeu três estrelas

Moqueca pálida e feijão frio: como é o menu de R$ 3.000 do Evvai, 3 estrelas Michelin
Por Daniel Buarque

Bloomberg Linea — Dois restaurantes de São Paulo conquistaram pela primeira vez um dos maiores prêmios da gastronomia internacional, as famosas três estrelas do Guia Michelin.

O Evvai e o Tuju foram reconhecidos como casas que fazem valer uma viagem à cidade, de acordo com os critérios do aclamado guia.

PUBLICIDADE

No caso do Evvai, a condecoração foi dada a um menu que mistura influências italianas e brasileiras em uma comida impressionante, que consegue surpreender os sentidos com visuais e sabores ao mesmo tempo familiares e inesperados. E a refeição no restaurante do chef Luiz Felipe Souza pode chegar a custar mais de R$ 3.000 por pessoa.


Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.


Menus degustação de restaurantes de alta gastronomia não raro arriscam cair em um limbo de memória em que uma sucessão de pratos muito bons acaba gerando esquecimento sobre o prazer individual gerado por cada um deles.

PUBLICIDADE

No Evvai, o trabalho é feito de forma a chamar a atenção para cada um dos serviços, gerando dúvida, curiosidade e surpresa sobre o paladar, em combinações que tentam cimentar na memória cada sabor experimentado.

Um dos principais exemplos é uma releitura de moqueca servida na casa. O prato é todo branco, com peixe, uma espuma e uma nuvem crocante de arroz por cima. Não tem nada dos tons alaranjados tradicionalmente trazidos pelo dendê, mas o sabor está todo lá, familiar e imprevisto.

Leia também: Da dívida às estrelas Michelin: o turnaround de Luiz Filipe Souza no premiado Evvai

PUBLICIDADE
Moqueca pálida e feijão frio: como é o menu de R$ 3.000 do Evvai, 3 estrelas Michelin

De forma semelhante, uma reinterpretação de pasta e fagioli, prato italiano que mistura feijão e massa, é servida fria e com tons verdes, e impressionam pelas texturas e sabores.

O estranhamento pode começar na chegada à casa. Apesar do atendimento cuidadoso, as mesas não têm toalhas, o que evoca uma simplicidade que contrasta com o alto nível da comida servida ali e com os preços cobrados.

A casa trabalha apenas com menu degustação, sempre com mais de dez etapas. A refeição acaba não sendo apenas um jantar, mas uma narrativa longa, técnica e controlada, em que cada prato funciona como capítulo de uma pesquisa que conecta Brasil e Itália - até porque cada um vem acompanhado de um cartão postal que realmente conta uma história sobre o prato.

PUBLICIDADE

O percurso servido atualmente é o Oriundi 25.2, menu autoral de 14 tempos que custa R$ 1.150 por pessoa. O valor ainda pode subir rapidamente com bebidas.

A casa oferece três harmonizações do menu com vinhos. A mais barata, Sintonia, por R$ 619, a Plena, por R$ 995, e a mais cara, Magna, por R$ 2.213. É essa última que empurra a experiência para além da marca dos R$ 3.000, antes mesmo de eventuais ingredientes extras adicionais sazonais, como trufas.

Leia também: ‘Porta de entrada’ do luxo: como a gastronomia se tornou metade do negócio do Rosewood

A refeição começa com a primeira surpresa. Uma combinação de manga, pinole e pimenta não se encaixa no que se pode esperar de um prato doce ou salgado, e dá o tom do que vai ser servido a seguir.

O primeiro passo oficial do menu é uma sequência de pequenos petiscos. Uma reinvenção do tramezzino, sanduíche clássico de Turim, é servido com merengue salgado, atum e pitanga.

Na mesma leva aparecem uma barquinha de patê de fígado de galinha com cajuína e uma tortinha de ostra com pistache e granita de jambu. São bocados pequenos, mas que trazem essas misturas de sabores que impressionam por fugir de combinações óbvias.

Moqueca pálida e feijão frio: como é o menu de R$ 3.000 do Evvai, 3 estrelas Michelin

A narrativa ganha corpo quando o menu passa a explorar temperatura e textura como linguagem. O pasta e fagioli, prato tradicionalmente servido no inverno na Itália que combina feijão e massa, aparece em versão fria e refrescante, que se afasta da ideia de comfort food para chamar a atenção em cima de sabores familiares em uma proposta nova.

Na sequência, a casquinha de não siri reforça essa lógica. O coco fresco crocante e a carne de caranguejo dividem espaço com um caldo quente preparado com cabeças de camarões carabineiros. O prato alterna doçura, gordura e umami.

Um dos pontos centrais do menu é o prato chamado The Elegant Gentleman, Dressed in White, a citada moqueca monocromática. Aqui, o gesto é de contenção. Técnicas de extração preservam aroma e pureza, e o prato evita qualquer leitura folclórica da moqueca. O resultado é delicado e silencioso, mais próximo de uma reflexão do que de um impacto imediato.

Leia também: A receita da alta gastronomia: como Ivan Ralston equilibra as contas no premiado Tuju

A bomba de vieira, presente no Evvai desde 2017, funciona como um elo entre passado e presente da casa. Inspirada no bomboloni salgado, chega com massa cozida no vapor e frita em gordura de pato, recheada com tomate verde, lardo artesanal da Serra da Bocaina e vieiras frescas.

É um prato que entrega conforto e técnica ao mesmo tempo, acompanhado de crocante de vieira e pasta aromática de molusco e ervas.

Moqueca pálida e feijão frio: como é o menu de R$ 3.000 do Evvai, 3 estrelas Michelin

Entre os principais, o pato no tucupi retorna em nova versão. Tortellini recheados com pato assado são servidos com um caldo de acidez viva, que equilibra gordura e intensidade.

Em seguida, duas apresentações de javali, lombo grelhado e costela de longa cocção, reforçam o peso do menu. A lasanha de língua e rabo de boi fecha a etapa salgada com profundidade e respeito ao tempo dos ingredientes, sem excessos de montagem.

A parte doce é conduzida pela confeiteira Bianca Mirabili, eleita Melhor Chef de Confeitaria da América Latina em 2025. O Cupuaçu Absoluto trabalha um único ingrediente em diferentes temperaturas e texturas, explorando acidez e frescor.

Depois, o prato Mandioca, inspirado no bolo Souza Leão, de Pernambuco, combina puba fermentada, leite de coco e gemas, finalizados com toffee de tucupi preto e baunilha do cerrado.

A harmonização, conduzida por Marcelo Fonseca, segue o mesmo raciocínio do menu. Na versão Magna, entram rótulos do Brasil e da Europa, pensados como acompanhamento narrativo que amplifica os sabores da comida.

No caso da moqueca pálida, um vinho alemão mais adocicado, por exemplo, talvez não fosse a combinação mais óbvia, mas consegue complementar o prato e surpreender.

Comer o menu degustação mais caro em um dos primeiros restaurantes três estrelas do Brasil é uma experiência realmente diferente de refeições comuns, e o chef consegue surpreender e entregar pratos que também são saborosos e interessantes.

Ao fim de quase quatro horas à mesa, é evidente que o preço não paga apenas ingredientes raros ou taças sofisticadas, mas a pesquisa, técnica e criatividade, além de uma experiência gastronômica de nível internacional.

-- Reportagem atualizada para corrigir informação no subtítulo de que o Tuju também é de São Paulo, não do Rio.

Daniel Buarque

Daniel Buarque

Editor-assistente