Bloomberg — A vitória surpreendente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na eleição presidencial do Brasil significa que o país não fará uma guinada brusca na abordagem às mudanças climáticas, como prometia o adversário de Lula, Flávio Bolsonaro, que defendia mais políticas pró-agronegócio na Amazônia e regras ambientais menos rígidas.
“Os brasileiros fizeram a escolha nas urnas, e a Floresta Amazônica ganhou uma nova chance”, disse Natalie Unterstell, presidente do Instituto Talanoa, centro brasileiro de estudos sobre o clima.
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O TSE declarou Lula vencedor do segundo turno de domingo, com 51,8% dos votos, ante 48,2% de Flávio. O resultado mantém o Brasil em uma trajetória de política climática centrada na proteção das florestas, cuja destruição é a principal fonte de emissões de carbono do país. Também significa que o país continuará a desempenhar papel de destaque nas negociações climáticas das Nações Unidas, cuja próxima rodada, a COP31, começa em 9 de novembro na Turquia.
Lula iniciará o novo mandato de quatro anos com a oportunidade de cumprir a promessa de acabar com a perda de florestas. Em 2022, comprometeu-se a alcançar desmatamento líquido zero em todos os biomas brasileiros até 2030.
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O país avançou significativamente em direção à meta, com o desmatamento da Amazônia caindo neste ano para o menor nível desde o início do monitoramento oficial, em 1988.

Em 2025, o Brasil sediou a cúpula climática COP30 da ONU em Belém. Agora, o governo ganhará novo impulso para avançar em duas agendas com as quais Lula se comprometeu na ocasião: um roteiro para a transição para longe dos combustíveis fósseis e outro para zerar o desmatamento. A expectativa é que ambos sejam divulgados no próximo mês.
A vitória de Lula também dará novo impulso ao Fundo Florestas Tropicais para Sempre, ou TFFF na sigla em inglês, iniciativa lançada em Belém para mobilizar bilhões de dólares dos mercados de capitais e ajudar países na conservação das florestas.
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A Noruega, maior participante e copresidente ao lado do Brasil, comprometeu-se com um empréstimo concessional de até US$ 3 bilhões, condicionado a que o fundo alcance US$ 10 bilhões até o fim de 2026.
Horas depois da reeleição de Lula, a Holanda anunciou na segunda-feira (26) um aporte de capital de até US$ 500 milhões ao longo de uma década, o que elevaria os compromissos anunciados para cerca de US$ 7,8 bilhões. Os demais participantes são Brasil, Reino Unido, Indonésia, Alemanha, França e Luxemburgo, além da The Nature Conservancy e da Minderoo Foundation.
Para levar o Brasil a uma matriz energética de menor emissão de carbono, Lula propõe ampliar a geração renovável, as linhas de transmissão e o armazenamento em baterias, além de defender avanços em biocombustíveis, hidrogênio e eletrificação do transporte público.
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Isso, porém, não significa recuar nos combustíveis fósseis. Um plano do governo brasileiro afirma que a Petrobras, controlada pelo Estado, deve ampliar a exploração em terra e no mar, inclusive perto do rio Amazonas; expandir o refino; e investir na logística de gás natural liquefeito.
“Lula irá à COP31 com um mandato. Mas o mundo não julgará o Brasil apenas pelas florestas, mas também pelos campos de petróleo”, disse Joana Setzer, pesquisadora associada brasileira da London School of Economics, com foco em clima. “Discursos só levam até certo ponto.”
O próximo teste, disse Unterstell, “é saber se o Brasil consegue transformar a proteção das florestas em uma estratégia econômica mais ampla que afaste o país dos combustíveis fósseis. Isso não pode mais ser adiado.”
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