Cidade do Pará rebelada contra política ambiental abraça campanha de Flávio Bolsonaro

Novo Progresso, no Pará, tornou-se um dos principais bastiões eleitorais do candidato conservador em meio a uma disputa sobre a ocupação de terras públicas, onde produtores rurais defendem a regularização fundiária e o governo Lula busca conter desmatamento

Disputa ambiental na Amazônia coloca Novo Progresso no centro da eleição presidencial (Foto: Bloomberg)
Por Fabiano Maisonnave
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Bloomberg — “A gente vem lutando contra o meio ambiente.”

É assim que Rosana Gonzaga, vice-prefeita de Novo Progresso (PA), explica como essa cidade da fronteira agrícola amazônica se tornou um dos maiores redutos do candidato conservador a presidente, Flávio Bolsonaro.

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Pecuarista filiada ao Partido Liberal, Gonzaga citou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva entre os adversários da cidade em uma disputa que se arrasta há duas décadas em torno de uma unidade de conservação.

Nos últimos dias, ela tem liderado uma campanha para que Flávio Bolsonaro obtenha 90% dos votos de Novo Progresso no segundo turno da eleição presidencial, no domingo (25).


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No primeiro turno, ele obteve 84,13% dos votos no município. Foi a segunda maior votação proporcional do candidato entre os 5.569 municípios brasileiros. O objetivo no domingo é fazer de Novo Progresso o município com o maior apoio ao filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Área em que Flávio Bolsonaro é mais forte na Amazônia

O segundo turno expõe uma divisão profunda em relação à Floresta Amazônica e ao meio ambiente. Lula prometeu zerar o desmatamento líquido — a maior fonte de emissões de carbono do Brasil — até 2030 e vinculou sua agenda aos compromissos assumidos pelo país no Acordo de Paris. Flávio Bolsonaro questiona que as mudanças climáticas sejam causadas pela atividade humana e prometeu eliminar apenas o desmatamento ilegal, deixando espaço para derrubadas de floresta legalmente autorizadas.

A disputa continua extremamente acirrada, com pesquisas indicando empate técnico. No primeiro turno, opositor ficou à frente, com 47%, contra 45,2%.

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Em Novo Progresso, apoiadores de Flávio imprimiram camisetas e adesivos para carros com a inscrição “90%” e organizaram uma carreata com picapes, carros, motocicletas e até escavadeiras usadas na mineração de ouro, da qual participou o governador eleito do Pará, Dr. Daniel (PODE). Gonzaga adesivou seu carro com imagens de campanha em que aparece ao lado de Flávio Bolsonaro, do pai dele, condenado por uma tentativa de golpe e cumprindo pena em prisão domiciliar, e da esposa de Jair, a senadora eleita Michelle Bolsonaro.

No carro, havia o slogan: “Votei no pai, voto no filho.”

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A família de Gonzaga se mudou para Novo Progresso, perto da divisa do Pará com o Mato Grosso, em 2003. Eles compraram de uma empresa uma área de floresta nativa, embora a terra em si pertencesse ao governo federal e não houvesse título de propriedade definitivo.

Três anos depois, o governo Lula incluiu a área em uma nova unidade de conservação. Gonzaga afirma que a medida deixou sua família e outros ocupantes sem acesso a crédito e os expôs a multas e ações de fiscalização.

A história de sua família segue um modelo que molda o Brasil há décadas, se não há séculos: colonos de ascendência europeia empurrando a fronteira agrícola cada vez mais para o interior do país.

Na Amazônia, essa expansão ocorreu em vastas extensões de terras públicas não destinadas. Grileiros identificam e ocupam essas áreas, derrubam a floresta e criam uma documentação para os lotes antes de vendê-los. Estados e o governo federal frequentemente regularizam esse tipo de ocupação, criando incentivos para que a prática continue.

Durante o primeiro mandato de Lula, seu governo, tendo Marina Silva como ministra do Meio Ambiente, buscou transformar a região de Novo Progresso em uma vitrine para a redução do desmatamento.

A cidade fica às margens da rodovia BR-163, importante corredor de exportação da soja produzida em Mato Grosso. Para impedir que a devastação avançasse ao longo da estrada — o padrão mais comum de desmatamento na Amazônia —, o governo implementou um conjunto de medidas que incluía a criação de áreas protegidas e o reforço da fiscalização ambiental.

Em 2006, foi criada a Floresta Nacional do Jamanxim, colocando a fazenda de Gonzaga e várias outras dentro da unidade federal de conservação.

No Brasil, as florestas nacionais pertencem ao Estado e destinam-se apenas ao uso sustentável dos recursos florestais e à pesquisa científica. Desde então, Gonzaga tornou-se uma das líderes de um movimento que busca privatizar cerca de 486 mil hectares dentro dessa área protegida, aproximadamente seis vezes a área da cidade de Nova York — objetivo que Flávio Bolsonaro promete cumprir.

“Vou fazer a maior regularização fundiária que o Pará já viu”, disse ele durante uma visita à cidade de Marabá na segunda-feira. “A sua terra vai ser sua no papel.” E acrescentou: “A gente vai acabar com esses entraves ambientais que existem por razões ideológicas.”

Durante os quatro anos de seu mandato como presidente, Jair Bolsonaro não avançou na regularização das terras na região, mas o enfraquecimento da fiscalização ambiental em seu governo provocou um forte aumento do desmatamento.

Leia também: Obras na BR-319 expõem disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro sobre Amazônia e ambiente

De 2019 a 2022, período que coincide em grande parte com o seu mandato, cerca de 52.300 hectares foram desmatados dentro da Floresta Nacional do Jamanxim, quase o dobro da área registrada entre 2015 e 2018. De 2023 a 2026, sob Lula, o desmatamento caiu cerca de 86%, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

Em 2019, Novo Progresso tornou-se um símbolo da postura permissiva de Jair Bolsonaro em relação à Amazônia depois que fazendeiros locais organizaram queimadas coordenadas para demonstrar apoio ao seu governo e, segundo reportagens da época, numa tentativa de dificultar o monitoramento do desmatamento por satélite. O episódio ganhou manchetes em todo o mundo e ficou conhecido como o “Dia do Fogo”.

Após ser reeleito para um terceiro mandato, Lula restabeleceu a fiscalização ambiental em toda a Amazônia, mas também tentou construir pontes com Novo Progresso e outras cidades com altas taxas de desmatamento. Em 2024, o governo lançou o programa União com Municípios, que combina regularização fundiária e reforma ambiental com assistência técnica para ajudar agricultores familiares a terem acesso a programas públicos e crédito.

Mas o programa teve pouco impacto, segundo o prefeito de Novo Progresso, Gelson Dill (MDB), político de centro-direita que não é alinhado a Bolsonaro. A cidade recebeu parte dos investimentos prometidos, afirmou ele, mas não o suficiente, e a iniciativa nunca se tornou o ponto de virada na relação do município com o governo federal que as autoridades esperavam.

Dill concorda que a região precisa legalizar as terras que já são utilizadas para a agropecuária, inclusive no Jamanxim. Mas, enquanto apoiadores de Bolsonaro esperam uma mudança na política ambiental, o prefeito também enxerga um risco.

“Espero que essa expectativa que está tendo aí do novo governo não venha a trazer nenhum tipo de corrida pelo desmatamento para a gente”, afirmou.

Desmatamento em Novo Progresso cresceu sob Jair Bolsonaro

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