Irmãos Moreira Salles destoam de empresários e se opõem a Flávio Bolsonaro

Integrantes da família mais rica do Brasil e donos de uma fortuna conjunta de US$ 18 bilhões adotam posições contrárias ao senador na disputa presidencial, financiam candidaturas progressistas e produzem obras críticas ao conservadorismo

Ao contrário de João e Walter Moreira Salles, boa parte da elite empresarial brasileira buscou ativamente se aproximar do candidato na esteira do seu avanço na corrida presidencial (Foto: Arthur Menescal/Bloomberg)
Por Marcelo Rochabrún
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Bloomberg — Os irmãos João e Walter Moreira Salles, dois integrantes da família mais rica do Brasil, se tornaram opositores de Flávio Bolsonaro (PL) diante do disputado segundo turno da eleição presidencial, no domingo (25).

Herdeiros de uma fortuna nos setores bancário e de mineração, com patrimônio líquido conjunto de US$ 18 bilhões, segundo o Bloomberg Billionaires Index, eles são grandes doadores de candidatos progressistas e de esquerda ao Congresso e produziram trabalhos jornalísticos e filmes críticos de posições conservadoras defendidas por Flávio, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.

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A postura coloca os irmãos em desacordo com boa parte da elite empresarial brasileira, que buscou ativamente se aproximar do candidato na esteira do seu avanço na corrida presidencial.

“Flávio nada mais é do que o filho do pai. Um homem medíocre e sem expressão, sem história e sem ideias”, escreveu João Moreira Salles em ensaio publicado no início deste mês, acrescentando que ele é “menos um político que um sobrenome”.


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Flávio Bolsonaro disputa uma corrida voto a voto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), rejeitado por líderes empresariais que o acusam de gastar demais e não conseguir sanear as contas públicas do país. Flávio venceu de forma inesperada o primeiro turno, em 4 de outubro, com vantagem de dois pontos, mas os dois estão em empate técnico antes do segundo turno.

Flávio Bolsonaro é aliado do governo Trump e se apresenta como herdeiro político do pai, que atualmente cumpre prisão domiciliar depois de ser condenado por tramar um golpe em 2023 para permanecer no poder à força. Lula também foi preso, em 2018, até que a condenação por corrupção foi anulada em 2021.

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O ensaio de João Moreira Salles foi publicado na Piauí, revista brasileira comparável a The New Yorker, que ele fundou e à qual destinou uma doação de US$ 70 milhões em 2021. O texto destacou o apoio da família Bolsonaro à antiga ditadura brasileira, que durou duas décadas, até 1985. Jair Bolsonaro chegou à Presidência em 2018 como defensor convicto daquele regime autoritário e afirmou que os brasileiros devem a liberdade de hoje aos ditadores do passado.

O ensaio também citou nominalmente duas dezenas de executivos brasileiros que recentemente participaram de jantar com Flávio Bolsonaro. Entre eles estava Milton Maluhy, presidente do Itaú Unibanco (ITUB4), maior banco da América Latina e principal origem da fortuna da família Moreira Salles.

Em nota, porta-voz do Itaú afirmou que o banco é apartidário e não tem orientação política, acrescentando que a “participação de Maluhy em eventos com ambos os candidatos que disputam o segundo turno ocorreu de forma neutra e institucional, sem representar apoio a nenhum dos candidatos”.

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Juntos, os dois irmãos doaram US$ 750 mil a candidatos progressistas e de esquerda ao Congresso na última década, segundo registros oficiais. O total inclui US$ 50 mil de João neste ciclo eleitoral e US$ 125 mil de Walter, diretor vencedor do Oscar, distribuídos entre nove candidatos que declararam apoio a Lula. Uma delas foi Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente de Lula, que não conseguiu se eleger ao Senado.

Os irmãos e Flávio não responderam aos pedidos de comentário.

‘Maior retrocesso’

A família Moreira Salles ainda detém participação significativa no Itaú, que controla em conjunto com outra família bilionária. Os dois irmãos eram acionistas do Itaú até 2022, quando transferiram as participações aos outros dois irmãos, Pedro e Fernando. A transferência gerou bilhões de dólares em recursos para Walter e João.

Os quatro irmãos também detêm participação de controle na CBMM, mineradora brasileira de capital fechado que é a maior produtora mundial de nióbio, mineral raro usado para aumentar a resistência do aço. Eles também têm participação na Alpargatas, fabricante dos chinelos da icônica marca Havaianas.

Fora das doações políticas, Walter Salles manteve-se em grande parte em silêncio nesta campanha. Em um festival internacional de cinema em São Paulo na semana passada, falou apenas sobre cinema, mesmo quando outros diretores fizeram declarações políticas explícitas.

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A postura provocou críticas nas redes sociais em meio à pressão para que artistas brasileiros tornem públicas as escolhas políticas num momento de forte polarização eleitoral. Também contrasta com declarações anteriores de Walter sobre o pai de Flávio, cuja Presidência ele classificou como “o maior retrocesso desde a ditadura militar”.

A ditadura brasileira foi tema do filme Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, vencedor do Oscar, que retratou o sequestro e assassinato, na década de 1970, do político de esquerda Rubens Paiva. O longa venceu o Oscar de melhor filme internacional em 2025 e recebeu elogios de Lula, que telefonou ao diretor para parabenizá-lo.

Desde então, Walter Salles apareceu ao fundo em uma peça de campanha com o candidato a vice de Lula, que destacava os investimentos do atual governo nas artes.

Jair Bolsonaro afirmou que não assistiu ao filme, mas que conheceu pessoalmente o personagem retratado na obra.

“Nem vou perder meu tempo, tenho o que fazer. Conheço a história melhor que eles”, disse ele à Bloomberg News em entrevista em 2025, referindo-se a Salles e à equipe do diretor. “Como o filme não me consultou, não tem validade.”

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