BC está ‘muito perto’ de reconhecer que terá de fazer uma pausa, diz Ramos, do Goldman

Em entrevista à Bloomberg Línea, o diretor de pesquisa macroeconômica para América Latina do banco, Alberto Ramos, avalia que o BC ficou mais pressionado com a inflação elevada, a atividade econômica resiliente e os estímulos do governo

Alberto Ramos, do Goldman Sachs

Bloomberg Línea — A possibilidade de pausa no ciclo de corte de juros no Brasil tem ganhado força entre agentes do mercado diante de um quadro de preços em alta, expectativas de inflação ainda mais distantes da meta do Banco Central e de uma atividade econômica resiliente no país.

Na visão de Alberto Ramos, diretor de pesquisa macroeconômica para América Latina do Goldman Sachs, o espaço para cortes tem se reduzido rapidamente sem uma solução para a retomada dos fluxos de petróleo no Oriente Médio.

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Com isso o BC já está “muito perto” de reconhecer que precisará fazer uma pausa, segundo ele.

“Dois cortes de 25 pontos-base, com uma sinalização que deixa os próximos passos em aberto, me parecem apropriados. Mas, em condições normais, não fosse o juro tão restritivo, o Banco Central neste momento não deveria cortar”, disse Ramos em entrevista à Bloomberg Línea.


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O diretor do gigante de Wall Street reconhece que o Banco Central “deu um pouco de azar” por ter começado o ciclo de cortes logo depois da guerra no Irã, e agora está sendo obrigado a lidar com três tipos de choque.

Um deles é o choque global de oferta, que elevou os preços do petróleo. O segundo é o choque local, uma vez que o aumento dos combustíveis pressiona o custo dos alimentos. E o terceiro é um choque de demanda, já que a atividade econômica continua sobreaquecida.

“O Banco Central está lidando com uma situação bastante complexa”, disse Ramos, em entrevista por vídeo a partir da sede do Goldman, em Nova York.

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“Não é só que a inflação realizada está subindo. Mas as expectativas de inflação deterioraram, a economia continua operando com um hiato do produto positivo [acima do potencial], o mercado de trabalho está muito apertado e a renda bruta disponível das famílias está crescendo mais de 11% anualmente.”

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Ramos ressalta que as próprias projeções do Banco Central mostram que a inflação não converge à meta dentro do horizonte relevante de seis trimestres à frente. Ele aponta ainda que, mesmo olhando em um intervalo mais curto, de três a quatro trimestres, a projeção para a inflação está ainda mais elevada.

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“O Banco Central resolveu começar os cortes num ritmo conservador esperando, ou talvez ansiando, que esse choque global de energia se resolveria e isso adicionaria mais espaço para continuar o ciclo. Se isso não acontecer, esse espaço se reduz rapidamente”, disse ele. “Em algum ponto uma pausa se justificaria.”

O economista de origem portuguesa reconhece que existe um risco de que a pausa possa ocorrer já na próxima reunião de junho e que a probabilidade tem aumentado, embora ainda não seja o cenário dominante.

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Ele avalia que o Banco Central parece inclinado a continuar a fazer cortes em um ritmo prudente, de 0,25 ponto percentual, mas não descarta que a autoridade monetária sinalize que se o cenário da inflação não melhorar ela vai interromper o ciclo.

“Se daqui até a reunião [de junho] houver mais deterioração das expectativas de inflação, o choque de petróleo se intensificar, a própria inflação realizada continuar a se surpreender para cima e o crescimento também para cima, é possível que já para esta reunião o Copom aproveite a comunicação com o mercado para sinalizar que seria mais prudente parar para fazer uma recalibração”, disse.

‘Hiperativismo fiscal’

No Brasil, Ramos ressalta que o Banco Central também tem sido mais pressionado pelo que ele classifica de um “hiperativismo fiscal” da parte do governo, com medidas que estimulam ainda mais a demanda já aquecida, em um ano de eleições.

Ele projeta que as medidas fiscais, quase fiscais, e de impulso ao crédito, tomadas pelo governo Lula, equivalem a um estímulo de cerca de 1,1% a 1,3% do Produto Interno Bruto (PIB).

“Dia atrás dia o governo vem com outra iniciativa beneficiando um determinado grupo com o objetivo de manter a economia resiliente e olhando que no final do ano vai ter uma eleição. Isso complica muito a vida do Banco Central. Vai ser muito difícil entregar a inflação na meta”, afirmou.

Connecting the dots, a gente vai chegar à conclusão que esse ciclo de recalibração monetária talvez tenha vida curta.”

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Ramos, que também já trabalhou como economista sênior no Fundo Monetário Internacional (FMI), questiona ainda se o ritmo de crescimento acelerado da renda bruta é sustentável com o equilíbrio macroeconômico – o que acaba exigindo uma restrição monetária maior.

Nesse contexto, o economista avalia que o Brasil terá ainda “pelo menos” mais dois anos com a taxa Selic acima do nível neutro, o patamar que não estimula nem contrai a atividade econômica.

Dólar

Com os juros elevados em relação a outros mercados desenvolvidos, o Brasil tem se beneficiado por uma entrada de dólares de investidores estrangeiros atraídos pelo carry-trade, segundo Ramos.

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Além disso, os termos de troca no comércio internacional se tornaram mais favoráveis para o país, por ser um grande exportador de petróleo e de commodities. Essa resiliência maior também ajudou os ativos locais, impulsionados por uma entrada de fluxo estrangeiro.

O real continua bem demandado, mas Ramos diz que isso não ocorre porque os fundamentos macroeconômicos do Brasil são bons. Mas porque o Banco Central foi forçado a validar o choque de juros. “Numa posição de tomada de risco de curto prazo, a moeda se torna interessante”, diz.

O economista avalia que a Selic atualmente em 14,50% ao ano ainda oferece um carrego de juros “muito atrativo” e que, no curto prazo, o real pode continuar a ter bom desempenho.

Mas existem vulnerabilidades, como a própria reversão da situação no Oriente Médio, com a normalização dos preços de energia, e a disponibilidade de o Banco Central cortar os juros. Ramos menciona também a eleição como um risco, cuja campanha sempre gera volatilidade no câmbio.

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