Bloomberg Línea — A busca de investidores globais por ativos fora dos Estados Unidos, os conflitos geopolíticos e a dinâmica das taxas de juros são alguns dos fatores que têm feito o dólar perder valor frente a outras moedas globais, principalmente o real, no último ano.
Para Artur Wichmann, Chief Investment Officer (CIO) da XP Investimentos, é possível que essas forças continuem exercendo influência negativa sobre a moeda americana, mas isso não significa que o dólar deixará de perder o status de moeda de reserva do do mundo.
Na visão de Wichmann, os dois fenômenos podem coexistir, especialmente em um cenário no qual outras moedas, como o euro europeu e o renminbi chinês não têm força para ocupar o lugar que a divisa americana ocupa hoje nos mercados.
“É possível ter um dólar mais fraco estruturalmente enquanto essa moeda continua sendo o padrão de reserva de valor no mundo”, afirmou Wichmann em entrevista à Bloomberg Línea. “O dólar ganha por W.O. Não tem quem substitua.”
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A China avança em esforços para fortalecer o renminbi como moeda de referência em sua zona de influência, mas o caminho ainda é longo. Barreiras de conversibilidade e desconfiança institucional limitam o alcance dessa ambição no horizonte relevante para investidores.
Uma transição nos moldes do que ocorreu após a Segunda Guerra Mundial, quando o dólar substituiu a libra esterlina como padrão global, ainda está fora do radar.
E é justamente esse papel insubstituível do dólar que, na avaliação de Wichmann, impede que o enfraquecimento da moeda ocorra de forma abrupta.
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“De janeiro a julho de 2025, tivemos o pior início de ano do dólar desde que o Nixon tirou o dólar do padrão ouro. O dólar perdeu 11% contra uma cesta relevante de moedas. É um movimento pontual, que se ocorre com maior frequência levaria o mundo a uma crise”, disse.
Outro ponto que pode fazer o dólar perder valor de forma mais prolongada ao longo do tempo é a ambiguidade entre a narrativa e a prática na política americana.
Os Estados Unidos mantêm o discurso oficial de defesa de um dólar forte, mas Wichmann avalia que uma parte relevante do próprio governo Trump prefere o cenário oposto, já que um dólar mais fraco ajudaria a corrigir déficits comerciais e ajudaria a indústria americana a ganhar competitividade – objetivos centrais da agenda tarifária de Trump.
Brasil larga na frente
Nesse cenário, o Brasil tem se destacado. A combinação de um dólar global mais fraco com a posição do país como exportador líquido de commodities – petróleo, minério de ferro e agrícolas – coloca o Brasil entre os beneficiários da nova dinâmica global, na avaliação de Wichmann.
O resultado aparece no câmbio. “O Brasil talvez seja o ganhador relativo do conflito no Oriente Médio. Se no ano passado o real foi bem dentro de um conjunto de emergentes que também tiveram boa performance, agora ele começa a se destacar”, defendeu o CIO.
Existe, no entanto, o contraponto da dinâmica, que é a alta da inflação. Com o petróleo acima de US$ 100 o barril, as projeções de IPCA subiram e comprimiram o espaço do Banco Central para cortar juros.
Wichmann reconhece o risco, mas não o vê como suficiente para inverter o saldo positivo do país – ao menos no cenário-base. Outros emergentes, como Coreia do Sul e Vietnã, enfrentam o mesmo choque inflacionário sem a contrapartida das exportações de commodities.
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Eleições no radar
É possível ainda que fatores internos comecem a ter maior impacto na dinâmica cambial conforme se aproximem as eleições presidenciais de 2026.
Segundo o CIO, o capital estrangeiro que hoje entra no Brasil sem grandes questionamentos deve começar a precificar as propostas econômicas dos candidatos nos próximos meses.
“O investidor estrangeiro quer saber de apenas uma coisa: qual é a trajetória da dívida sobre o PIB”, resumiu. A resposta a essa pergunta deve determinar o próximo grande movimento do real, especialmente no caso da oposição, cuja plataforma ainda não está clara".
Wichmann avalia ainda que o impacto eleitoral sobre o câmbio tende a se intensificar apenas após a Copa do Mundo, quando a atenção da população e dos mercados deve se voltar de forma mais consistente para o debate político.
“É pouco provável assumir que o real vai ser influenciado apenas por fatores globais em um ano de eleição presidencial”, disse.
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