Bloomberg — De um escritório a algumas quadras da Casa Branca, um grupo de ex-executivos de Wall Street está na linha de frente do plano do Pentágono para quebrar o poder da China sobre o fornecimento minerais críticos.
Seu objetivo é criar uma fonte independente para elementos de terras raras e ímãs usados em todo tipo de produto, desde micro-ondas até mísseis. Eles querem evitar uma repetição do ano passado, quando o presidente Donald Trump foi forçado a recuar em sua guerra comercial após a China cortar fornecimentos.
O grupo do Pentágono é conhecido internamente como “Deal Team Six” numa referência meio brincalhona à unidade de elite de missões especiais da Marinha, Seal Team Six. O grupo corre para montar negócios criativos com bilhões de dólares em participações acionárias, pisos de preços de longo prazo, compromissos de compra, empréstimos e outras ferramentas financeiras.
“Estamos no nível máximo de alerta”, disse Rush Doshi, que foi diretor para China no Conselho de Segurança Nacional durante o governo Biden. “Há uma sensação de que não temos tempo para perguntar se teria sido melhor se tivéssemos feito isso com um método de mecanismo de mercado puro.”
⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.
Desafiar o domínio da China no negócio — algo que Pequim passou décadas construindo —é um objetivo americano há muito tempo, mas os resultados foram escassos. Até as previsões mais otimistas da nova equipe do Pentágono sugerem que levará pelo menos até o final da década para a produção americana aumentar.
A ofensiva agressiva de negócios representa uma mudança em relação à última década, na qual os EUA se concentraram em limitar exportações para a China, bloquear seus negócios nos EUA e processar seus espiões e hackers. A equipe do Pentágono, oficialmente chamada Unidade de Defesa Econômica, também planeja aplicar sua nova abordagem a vulnerabilidades como cabos de dados submarinos e produtos químicos necessários para fabricar medicamentos.
Leia também: Por que a parceria entre EUA e Brasil em terras raras enfrenta obstáculos
Alguns funcionários da indústria alertam que a pressa do Pentágono em fazer negócios o levou a apoiar empresas não comprovadas e ignorar potenciais conflitos de interesse. Eles dizem que os objetivos são irrealistas e que a abordagem governamental incentiva empresas a exagerar suas capacidades para obter financiamento.

O governo Trump “praticamente grita dos telhados que suas decisões serão tomadas por ganho financeiro, em vez de criar cadeias de suprimento independentes”, disse Derek Scissors, pesquisador sênior do conservador American Enterprise Institute.
O Pentágono nega isso. “O Departamento de Guerra mantém estrita imparcialidade, priorizando soluções que beneficiam diretamente o combatente”, disse o porta-voz Sean Parnell. “Empregamos rigoroso processo de verificação para todos os parceiros potenciais, garantindo que cada empresa cumpra suas capacidades prometidas e alegações de mercado.”
Leia também: Câmara aprova regulamentação de minerais críticos, tema de reunião entre Lula e Trump
A equipe do Pentágono disse ter US$ 200 bilhões em capacidade de financiamento nos próximos três anos. Ainda assim, permanecem questões sobre como os negócios se encaixam com leis sobre investimentos governamentais.
“Existem poucas leis atualmente” para regular essa onda de investimentos em participações acionárias, disse o senador Roger Wicker, republicano do Mississippi que preside o Comitê de Serviços Armados do Senado, numa audiência em fevereiro. Ele pediu mais coordenação com o Congresso.

Embora usadas em pequenas quantidades, terras raras são críticas para até US$ 1,2 trilhão em produção de valor agregado, segundo a Bloomberg Economics.
O governo pretende conseguir produzir ímãs suficientes para cobrir metade da demanda mundial até 2030. A China produziu 94% dos ímãs de terras raras em 2024, segundo a Agência Internacional de Energia.
Embora a Unidade de Defesa Econômica tenha sido formada em abril, o impulso atual remonta às primeiras semanas do segundo governo Trump. Reportando-se ao vice-secretário de Defesa e bilionário de private equity Stephen Feinberg, a unidade trabalha com outras partes do Departamento de Defesa e agências como o Departamento de Comércio e a Corporação Financeira para Desenvolvimento Internacional dos EUA para montar os negócios.
Quando a China começou a restringir fornecimentos de terras raras e ímãs no ano passado em retaliação às tarifas de Trump, o impacto foi quase imediato. Montadoras e outras grandes indústrias alertaram que seriam forçados a parar a produção. Pequim só aliviou os limites após Washington concordar em recuar nas tarifas e restrições às exportações de tecnologia para a China.
Desde então, o governo correu para montar uma cadeia de suprimento não chinesa para os ímãs permanentes feitos com elementos de terras raras.
Leia também: Serra Verde vai multiplicar a produção de terras raras após compra pela USA Rare Earth
Em julho, Feinberg liderou negócio com a MP Materials, única produtora de terras raras nos EUA. O pacto inclui investimento de capital de US$ 400 milhões, o primeiro desse tipo na história moderna do Pentágono, posicionando o governo para se tornar o maior acionista da empresa.
O Pentágono também estabeleceu piso de preço para alguns produtos de terras raras da MP e garantiu que todos os ímãs que produzirá numa nova instalação serão comprados por clientes de defesa e comerciais por dez anos.
Negócios subsequentes, alguns ainda em fases preliminares, vão de um produtor americano de ímãs à mineradora brasileira de terras raras Serra Verde, que depois foi vendida à americana USA Rare Earth num negócio de US$ 2,8 bilhões.
Para garantir que haja compradores para os novos ímãs não chineses, funcionários do governo pressionaram grandes montadoras nos EUA a se comprometer com acordos de compra, embora as empresas ainda não os tenham produzido em escala, segundo pessoas familiarizadas com as conversas que falaram com a Bloomberg News.

Críticos acusaram o Pentágono de falhar em verificar adequadamente corrupção e conflitos de interesse. Eles notam que a Cerberus Capital Management, empresa de private equity cofundada por Feinberg, é grande participante nos mesmos setores onde o Pentágono investe, e que o filho do presidente, Donald Trump Jr., é sócio de empresa que investiu na Vulcan Elements, que tem empréstimo condicional de US$ 620 milhões.
O porta-voz do Pentágono disse que Feinberg é “homem de integridade que se conduziu eticamente durante toda a sua carreira.” Feinberg desfez suas participações em seus negócios após assumir o cargo para cumprir regras federais de ética.
Um porta-voz de Trump Jr. disse que ele é investidor passivo na Vulcan por meio de um fundo e que “nunca interage com o governo federal em nome de qualquer empresa na qual investe ou assessora.”
Uma pessoa familiarizada com o pensamento do Pentágono disse que a unidade não sabia de qualquer participação de Trump Jr. na época do negócio porque era pequena demais para surgir no processo de verificação.
Esta pessoa acrescentou que, mesmo se soubessem da participação, não há muitas empresas que fazem o que a Vulcan faz, e o departamento precisa responder às realidades do mercado.
“Eles estão apoiando projetos destinados a apoiar a base industrial mais ampla, não apenas fortalecendo necessidades de defesa”, disse Chris Kennedy, analista de diplomacia econômica da Bloomberg Economics. “Isso é algo que era quase impossível” no passado, disse ele.
Veja mais em Bloomberg.com
-- Com a colaboração de Joe Deaux e Gabrielle Coppola.
Leia também
Após compra da Serra Verde, USA Rare Earth busca mais aquisições em terras raras
‘Terrabras’: projeto de lei propõe a criação de empresa estatal de terras raras
Brasil e Índia fecham acordo sobre terras raras e miram processamento e autonomia
© 2026 Bloomberg L.P.








