Bloomberg Línea — A América Latina se torna cada vez mais atraente para investimentos em data centers, graças aos seus custos de construção mais baixos em comparação com os principais mercados da Ásia, Europa e Estados Unidos.
Um relatório da consultoria Turner & Townsend destaca que a inflação no setor se moderou e que a diferença de custos em relação aos mercados mais desenvolvidos continua diminuindo à medida que as cadeias de suprimentos locais ganham maturidade.
Entre as cidades latino-americanas incluídas no índice, São Paulo registra um custo médio de construção de US$ 10,75 por watt instalado, seguida por Querétaro (México), com US$ 10,40/W.
Em seguida, vêm Montevidéu (Uruguai), com US$ 9,89/W, Santiago (Chile), com US$ 8,61/W, e Bogotá (Colômbia), com US$ 7,49/W, posicionando-se como o mercado mais competitivo da amostra em termos de custo de construção.
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Cidades como São Paulo, Querétaro e Santiago apresentam uma demanda crescente, infraestrutura digital consolidada, conectividade regional e condições favoráveis para a futura expansão dos data centers.
“Ao comparar esses valores com os principais hubs globais, os custos na América Latina continuam sendo significativamente mais baixos. Os mercados mais caros do mundo são Tóquio (US$ 15,15/W), Singapura (US$ 14,53/W), Zurique (US$ 14,24/W) e Osaka (US$ 14,12/W)”, disse Kamila Lima, diretora de Gerenciamento de Projetos da Turner & Townsend no Brasil.
Na Europa, hubs consolidados como Londres (US$ 12,02/W) e Frankfurt (US$ 11,60/W) também registram custos superiores aos observados na América Latina.
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Segundo Lima, até mesmo a Virgínia do Norte (EUA), considerada o maior mercado mundial de data centers, apresenta um custo médio de aproximadamente US$ 10,92/W, ligeiramente superior ao de São Paulo.
Nesse contexto, “São Paulo continua sendo o mercado de data centers mais maduro e desenvolvido da América Latina, apoiado por um amplo ecossistema digital, uma forte concentração de provedores de nuvem, uma elevada demanda corporativa e uma posição estratégica como principal hub de conectividade da região”.
O custo por watt instalado é um dos fatores levados em consideração na tomada de decisões de investimento em data centers, mas não é o único.
“A escolha do local depende de um equilíbrio entre disponibilidade de recursos energéticos, acesso à água, conectividade, estabilidade regulatória e capacidade de operar uma infraestrutura crítica de forma segura e sustentável”, explicou à Bloomberg Línea Pedro Romero, responsável pela segurança cibernética da empresa de tecnologia chinesa Huawei na América Latina.
Embora todos esses elementos sejam importantes, ele afirma que existem três condições essenciais que costumam ter maior peso na decisão: a disponibilidade de energia confiável, o acesso à água para os sistemas de resfriamento e uma conectividade robusta e resiliente.
“Sem esses recursos, é muito difícil desenvolver e operar um data center de grande escala”, afirmou ele.
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Outros fatores importantes são a conectividade internacional, a proximidade com os usuários finais, os incentivos governamentais e a capacidade de expansão.
Segundo Pedro Romero, a inteligência artificial aumentou significativamente as exigências em termos de computação e disponibilidade, pelo que o fornecimento confiável de energia tornou-se um elemento indispensável.
Uma infraestrutura de telecomunicações de alta capacidade garante baixa latência e continuidade do serviço, enquanto o acesso à água é um componente essencial para garantir a eficiência e a sustentabilidade dos sistemas de refrigeração.
Panorama dos data centers na região
O relatório “Global Construction Market Intelligence 2026”, da Turner & Townsend, destaca que a infraestrutura digital e os data centers estão entre os setores que mais impulsionam a atividade da construção civil em nível mundial.
Na América Latina, tendências como a expansão da economia digital, o crescimento das aplicações de inteligência artificial e o fenômeno do nearshoring continuam atraindo investimentos, especialmente para mercados como o Brasil e o México.
O inventário de data centers de colocation atingiu 1,1 gigawatts (GW) de capacidade instalada em 2025 na América Latina, um crescimento de 20% em apenas um ano, de acordo com um relatório da empresa JLL.
O relatório destaca que esse aumento representa um recorde na entrega de novas infraestruturas na região.
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Além disso, isso reflete o forte interesse de operadores e investidores em expandir sua presença no mercado latino-americano.
Em particular, os data centers de colocation são instalações nas quais uma empresa aluga espaço, energia e conexão à internet para instalar e operar seus próprios servidores.
Na região, Querétaro (no México) e São Paulo e Barueri, na Grande São Paulo, foram responsáveis por 82% das entregas de estoque.
Em uma entrevista recente à Bloomberg Línea, o diretor da Amazon Web Services (AWS) para o norte da América Latina e o Caribe, Américo de Paula, afirmou que fatores como regulamentação, carga tributária, estabilidade política e demanda serão determinantes para futuros investimentos em centros de dados na América Latina, à medida que aumentam as necessidades de capacidade para soluções de IA.
“Estamos sempre avaliando, de forma contínua, investimentos em novos data centers e novas infraestruturas em toda a região”, disse De Paula durante o AWS Summit Bogotá. “Isso está relacionado à demanda dos clientes, ao ambiente regulatório, aos impostos, ao cenário político e econômico e aos custos de cada país.”
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Segundo a Huawei, mais do que uma cidade específica, hoje os investidores avaliam quais regiões reúnem as condições necessárias para desenvolver e operar um data center de forma eficiente e sustentável.
“A decisão dependerá, além disso, do uso que será dado à infraestrutura, já que um data center destinado a cargas intensivas de inteligência artificial exigirá maior capacidade de processamento, mais energia e sistemas de refrigeração mais robustos do que um voltado para outros serviços digitais”, afirmou Pedro Romero, da Huawei.
Disponibilidade de energia
De acordo com a Turner & Townsend, a expansão da inteligência artificial está transformando os requisitos dos novos centros de dados, que exigem maior capacidade energética, sistemas de refrigeração mais sofisticados e infraestrutura técnica de alta complexidade.
Os data centers projetados para cargas de trabalho de inteligência artificial exigem maiores densidades de potência e sistemas de refrigeração mais avançados, o que aumenta a complexidade técnica e os custos de desenvolvimento.
A Turner & Townsend estima que os projetos com refrigeração líquida destinados à IA possam apresentar custos de construção entre 7% e 10% superiores aos de um data center tradicional refrigerado por ar.
Nesse contexto, a disponibilidade de energia e o potencial de crescimento a longo prazo tornaram-se fatores tão relevantes quanto o próprio custo de construção.
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Por isso, a Turner & Townsend destaca que o fator mais decisivo para a localização de um data center não é mais o custo de construção, mas a disponibilidade de energia.
Especificamente, o acesso a energia confiável e escalável tornou-se o principal critério para a seleção de novos locais.
Além disso, eles consideram que a conectividade digital é o segundo fator-chave.
Kamila Lima afirma que as operadoras priorizam mercados com acesso a redes de fibra óptica, cabos submarinos, pontos de intercâmbio de internet e proximidade a grandes centros de consumo de dados, o que reduz a latência e melhora o desempenho dos serviços digitais.
Também são fatores determinantes a estabilidade regulatória, a agilidade nos processos de licenciamento, a disponibilidade de terrenos adequados para expansão e a capacidade local de execução.
Liderança do Brasil no setor
A consultoria Turner & Townsend estima que o Brasil concentra aproximadamente 40% dos investimentos regionais em data centers, consolidando-se como um destino prioritário para operadoras hyperscale e provedores globais de nuvem.
Nesse contexto, destaca que o Brasil é atualmente o país mais bem posicionado da América Latina para atrair uma parcela significativa da próxima onda de investimentos em centros de dados impulsionada pela inteligência artificial.
Sua vantagem competitiva combina a escala do mercado, a elevada demanda local e um ecossistema digital maduro.
São Paulo se consolidou como o principal polo de data centers da região, enquanto Campinas, no interior do estado, surge como um dos centros mais importantes para a expansão da capacidade.
Para os analistas dessa empresa, o Brasil parte de uma posição favorável graças à concentração de infraestrutura já instalada, à presença de grandes provedores de nuvem e a uma ampla base de clientes corporativos — condições que facilitam o desenvolvimento de novos projetos voltados para cargas de trabalho de inteligência artificial.
Por sua vez, o México apresenta um grande potencial decorrente do fenômeno do nearshoring e de sua estreita integração com o mercado norte-americano.
Em particular, Querétaro, no México, consolidou-se como um dos principais pólos emergentes para investimentos em hyperscale na região.
Santiago do Chile se destaca por sua estabilidade institucional e econômica, sua sólida conectividade regional, a disponibilidade de infraestrutura tecnológica e um ambiente favorável a investimentos de longo prazo, fatores que contribuíram para o desenvolvimento de seu ecossistema digital.
Também se destacam cidades como Bogotá e Montevidéu, que apresentam custos de construção mais competitivos e buscam se posicionar como alternativas atraentes para futuros investimentos, especialmente à medida que aumenta a demanda regional por capacidade de processamento e armazenamento de dados.
Os desafios do setor
De acordo com os analistas da consultoria, os principais obstáculos para novos investimentos em data centers na América Latina estão relacionados à capacidade de dar resposta ao rápido crescimento da demanda digital, especialmente aquela impulsionada pela inteligência artificial.
“Os incentivos fiscais podem contribuir para melhorar a viabilidade financeira de um projeto, mas raramente compensam as limitações relacionadas à energia, à conectividade ou à infraestrutura”, disse Kamila Lima. “Por isso, os mercados que mais atraem investimentos são aqueles que combinam esses fatores de maneira equilibrada.”
Por outro lado, a Turner & Townsend afirma que a escassez de mão de obra especializada e de componentes eletromecânicos tornou-se um dos principais desafios para a indústria em nível global.
A propósito, o relatório Global Construction Market Intelligence 2026 aponta que mais de 70% dos mercados analisados relatam dificuldades para encontrar profissionais qualificados, o que aumenta os riscos de execução e pode afetar os prazos e os custos dos projetos.
Também persistem desafios relacionados à capacidade da cadeia de suprimentos, especialmente no que diz respeito a equipamentos eletromecânicos, sistemas de refrigeração e componentes elétricos essenciais.
“A crescente demanda global por infraestrutura digital e de inteligência artificial está gerando pressão sobre a disponibilidade desses equipamentos e sobre os prazos de entrega”, observou Lima.
Por fim, aspectos como a obtenção de licenças, a disponibilidade de terrenos adequados e a estabilidade regulatória continuam sendo fatores relevantes para a viabilidade de novos empreendimentos.
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