‘Matador de monopólios’, Pix pode revolucionar fintechs, diz CEO do Web Summit

Sistema brasileiro elimina ‘pedágios’ digitais e mostra que Vale do Silício não é o único centro de inovação global, dando espaço para soluções estruturadas no chamado Sul Global, segundo Paddy Cosgrave

Paddy Cosgrave, CEO do Web Summit: O que torna a China tão dominante em tantas áreas de tecnologia avançada é o setor universitário

Bloomberg Línea Brasil — A percepção de que o Vale do Silício detém o monopólio da inovação global perdeu força no atual ciclo tecnológico, dando lugar a soluções estruturadas no chamado Sul Global. No centro dessa transição regulatória e de infraestrutura, o ecossistema financeiro do Brasil passou a ser observado não mais como um polo de replicação, mas como um exportador de tendências de mercado.

“O Brasil pode revolucionar todo o mundo das fintechs por causa de algo chamado Pix”, afirmou Paddy Cosgrave, fundador e CEO do Web Summit, durante entrevista coletiva nesta quarta-feira (10) durante a edição do evento no Rio de Janeiro.

PUBLICIDADE

Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.


Para o executivo irlandês, o arranjo de pagamentos instantâneos desenhado pelo Banco Central funciona como uma alavanca de eficiência macroeconômica ao eliminar intermediários na cadeia de valor digital.

“O Pix é um assassino de monopólios [monopoly killer, no original em inglês]. Ele nivela o campo de jogo e remove um enorme pedágio da economia digital. Toda vez que transacionamos online no Ocidente, supõe-se que devemos dar 2% a alguém. Isso é completamente insano", disse Cosgrave, acrescentando que grandes incumbentes de adquirência e bandeiras de cartões dos EUA observam o movimento com atenção.

PUBLICIDADE

Leia mais: ‘O plano A é trabalhar de forma construtiva com o governo’, diz Luana Lara, da Kalshi

Embora o avanço do volume transacionado no Brasil chame a atenção de fundos de Venture Capital, Cosgrave pondera que a tese ainda é pouco compreendida fora das fronteiras da América Latina.

“Se eu converso com qualquer pessoa na Europa sobre o Pix, eles não têm ideia do que se trata. Mas quando você mostra os números e a taxa de crescimento, as pessoas ficam atônitas. Minha expectativa é que o modelo seja exportado para outros bancos centrais do Sul Global e, eventualmente, chegue à Europa.”

PUBLICIDADE

A rota Pequim-Rio e o avanço chinês

Outro vetor de descentralização do eixo tradicional de tecnologia mapeado pelo Web Summit é a tração das companhias asiáticas no mercado latino-americano.

De acordo com Cosgrave, a presença de corporações e startups da China na edição de Berço (Lisboa) já está consolidada, mas o fluxo em direção ao Rio de Janeiro deve ganhar escala nos próximos anos de forma orgânica.

“É uma questão de tempo. O evento acontece apenas uma vez por ano, então os ciclos de decisão corporativa são mais longos. Executivos chineses vêm, analisam o ambiente de negócios da América do Sul e concluem que precisam posicionar suas companhias aqui”, explicou o CEO.

PUBLICIDADE

Essa expansão não se restringe ao setor de hardware ou e-commerce. No campo da inteligência artificial generativa, a disputa entre os modelos de código aberto (open source) da China e as arquiteturas fechadas das Big Techs americanas deve ditar o ritmo dos investimentos em tecnologia no segundo semestre.

Cosgrave citou métricas recentes do mercado corporativo americano para ilustrar a velocidade dessa penetração. “Dados de mercado apontam que o modelo da DeepSeek (startup chinesa de IA) superou a OpenAI e a Anthropic em uso por empresas dentro dos Estados Unidos. Esse é um fato inacreditável. Até novembro, a conscientização de governos e do mercado corporativo tradicional sobre a relevância dos modelos abertos chineses estará no centro do palco.”

Além da China, o executivo apontou o surgimento de novas delegações asiáticas em território nacional, destacando a chegada das primeiras startups do Vietnã nesta edição do evento fluminense.

Leia mais: Kaszek prepara captação de fundo early stage e tem ainda quase US$ 1 bi para investir

Monitoramento de inovações

A consolidação de praças como o Rio de Janeiro e a prospecção ativa de novas cidades na Ásia fazem parte da tese de Cosgrave, que é um entusiasta das inovações que estão sendo construídas fora do Vale do Silício.

“Há 17 anos, quando comecei, existia a percepção de que toda tecnologia relevante vinha do Vale do Silício e que o resto do mundo só podia imitar, fazer copycat. Isso mudou fundamentalmente. O papel do Vale declinou e o resto do mundo ascendeu", disse o executivo.

Segundo Cosgrave, o monitoramento de inovações fora dos EUA pelas próprias Big Techs sempre foi um “segredo velado” no mercado.

“Eu me lembro de estar no quartel-general do Facebook (hoje Meta) há cerca de oito anos e ver, na parede de um importante diretor de produto, um mapeamento detalhado da interface do WeChat, tela por tela. Eles assistem e copiam o que é feito fora, porque há inovação real acontecendo em lugares que ninguém esperava em 2008, como Shenzhen”, afirmou.