Ascenty investe US$ 1,2 bilhão para avançar em data centers para IA no Brasil

Com 150 MW em novos contratos já 100% vendidos para gigantes de tecnologia, a empresa prepara primeiros os data centers nativos em IA; ‘Não existe isso hoje no Brasil’, disse o CEO, Christopher Torto, à Bloomberg Línea

O projeto Sumaré 3, desdenvolvido no interior de São Paulo, será o primeiro na América Latina projetado desde a sua concepção original para suportar cargas de trabalho em larga escala de inteligência artificial

Bloomberg Línea — Em meio a uma enxurrada de anúncios sobre o futuro da inteligência artificial (IA), a Ascenty anunciou o aporte de US$ 1,2 bilhão (cerca de R$ 6 bilhões) direcionado à construção de quatro novas estruturas de alta densidade no estado de São Paulo.

A empresa, uma joint venture controlada pela Digital Realty e Brookfield Infrastructure, é a líder em data centers na América Latina, com 40 hubs de conectividade na região.

PUBLICIDADE

Os novos hubs partem com 150 megawatts (MW) já vendidos, o equivalente a 40% da capacidade de 375 MW construída em 15 anos de operação. O volume foi contratado por gigantes globais de tecnologia (hyperscalers), segundo revelado de acordo com a empresa.

“Nós nunca anunciamos data center sem ter cliente e também nunca montamos data center sem ter cliente, porque cada um demanda técnicas diferentes”, afirmou Christopher Torto, o fundador e CEO da Ascenty. “Esse que estamos fazendo no Sumaré 3 é um projeto único, com 100% IA e 100% liquid cooling. Não existe isso hoje no Brasil.”


Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.

PUBLICIDADE

Segundo o executivo, o impacto econômico do projeto deve ficar em torno de US$ 6 bilhões. Esse efeito multiplicador é traduzido numa relação em que cada dólar investido pela Ascenty na estrutura física do data center é acompanhado por cerca de quatro dólares em equipamentos de altíssimo desempenho (como as GPUs de última geração) pelos clientes.

Leia também: Scala aposta em ‘cidade’ de data centers para atrair investimentos em IA ao Brasil

O que será construído

As novas instalações foram projetadas para atender clientes globais de tecnologia que exigem altíssima densidade de potência, sistemas avançados de resfriamento líquido e alto desempenho computacional.

PUBLICIDADE

Dentro do campus de Sumaré — que já conta com dois prédios em atividade —, as obras do Sumaré 3 começaram em março e a entrega está prevista para o terceiro trimestre de 2027.

Esta será a primeira unidade na América Latina projetada desde a sua concepção original para suportar cargas de trabalho em larga escala de inteligência artificial.

“A grande diferença começa pelo consumo de energia. Um rack de cloud consome mais ou menos oito quilowatts por rack. Nesse data center de Sumaré, o mínimo será 60 quilowatts, então oito vezes maior, com alguns racks podendo consumir até megawatt”, conta Torto, americano radicado no Brasil desde o fim da década de 1980.

PUBLICIDADE

Leia também: Origem Energia vai estocar gás no subsolo para reforçar sistema e atrair data centers

O complexo terá uma capacidade inicial de 90 MW, com previsão de expansão para mais 90 MW. O projeto terá 48 mil m² de área construída em um terreno que já possui energia e espaço assegurados para futuras expansões.

Chris Torto, CEO da Ascenty: O Brasil vai concentrar 80% da demanda para a América Latina por várias razões e pode estar entre os 5 maiores mercados de data center do mundo

Para sustentar a demanda térmica dos chips de IA, o Sumaré 3 trará uma arquitetura de resfriamento líquido direto no chip em nível de rack (liquid cooling). A empresa também adotará um sistema de resfriamento em circuito fechado, o que reduz ou elimina por completo o consumo de água na operação.

Os outros três projetos estão no campus de Vinhedo, onde a Ascenty opera desde 2019 atendendo companhias diretamente, assim como provedores de nuvem, como AWS, Oracle e Google Cloud.

Leia também: Como data centers podem deixar de ser problema ambiental para virar solução sustentável

A empresa está construindo o Vinhedo 3, unidade com 90 MW de capacidade e totalmente dedicada a cargas de trabalho de inteligência artificial, e trabalha no desenvolvimento dos projetos Vinhedo 4 e Vinhedo 5, cada um com 45MW. O aumento da capacidade do Vinhedo 2, de 50 MW para 80 MW, também entra na conta dos R$ 1,2 bilhão.

Os novos recursos são adicionados a cerca de US$ 300 milhões (R$ 1,5 bilhão) que a companhia tinha anunciado recentemente para a expansão de infraestruturas atuais.

Maiores mercados do mundo

Na corrida impulsionada por inteligência artificial, o executivo americano estima que o Brasil tem todas as condições para se consolidar entre os quatro ou cinco maiores polos de inteligência artificial do planeta.

O país possui uma matriz elétrica majoritariamente limpa, gera mais energia do que consome e tem um custo energético extremamente competitivo se comparado aos EUA e à Europa.

Leia também: Como escassez de infraestrutura e mão de obra põe lucros das big techs em xeque

“O Brasil vai ser 80% da demanda para a América Latina por várias razões. Eu acho que a demanda podia ser ainda maior. Sem o Redata (Regime Especial de Incentivos para Data Centers), a demanda já está lá. Se o Redata passa, eu acho que o Brasil poderia ter uma explosão de demanda maior, porque é uma das regiões muito favoráveis para implementar data center de IA”, afirmou Torto.

Escassez de equipamentos

Apesar do cenário altamente otimista, o mercado convive com um lado menos sexy e desafios severos ligados à cadeia de suprimentos global e escassez de mão de obra. Se há uma década a Ascenty conseguia erguer um prédio tecnológico em nove meses, hoje o prazo padrão de entrega saltou para 12 a 18 meses.

O motivo não é a falta de chips da Nvidia, mas sim a escassez global de insumos pesados de infraestrutura, como geradores comerciais e equipamentos de subestações elétricas.

O ponto mais crítico neste processo de transformação do setor está na área de pessoas. “O maior gargalo atual não é dinheiro, é talento”, diz Torto. Operar data centers de altíssima densidade exige engenheiros elétricos e mecânicos altamente especializados.

Para contornar a escassez, a Ascenty está se unindo a concorrentes para formar jovens profissionais no país. A empresa aumentará seu quadro de colaboradores em 15% (mais 150 pessoas) para suprir esses novos projetos, apostando em programas internos de treinamento que duram de 18 a 24 meses.

“Tem muitos cargos que nós estamos olhando para o futuro porque será muito importante o desenvolvimento dos jovens que podem entrar neste setor. Esse é um mercado que irá crescer de qualquer jeito, como nós vimos na internet 25 anos atrás. Não tem como segurar a inteligência artificial”, afirmou.

Leia também

Nvidia vê nova onda de adoção da IA. Mas ainda falta convencer os investidores

SpaceX corre risco de cair na ‘armadilha do conglomerado’ com apostas em IA e chips