Bloomberg Línea Brasil — O avanço acelerado das ferramentas de inteligência artificial generativa após a virada de 2022 trouxe consigo um efeito colateral conhecido por dez em cada dez executivos: o excesso de informação e a sobrecarga de tarefas.
No ecossistema de produtividade, a corrida das startups de tecnologia se concentra em deixar de ser um mero repositório de dados para se transformar em uma plataforma de ação integrada.
É nessa tese que a americana Read AI, plataforma que se posiciona como assistente executivo digital ao acompanhar reuniões, e-mails e mensagens de trabalho.
Fundada no início da pandemia por David Shim — empreendedor serial que vendeu sua startup anterior, a Placed, para o Snapchat por US$ 135 milhões em 2017, depois adquirida pelo Foursquare —, a companhia tem o mercado brasileiro no topo de suas prioridades globais.
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“O Brasil é hoje um mercado ‘top 4’ para nós no mundo”, contou à Bloomberg Línea o CEO global, David Shim, em entrevista realizada durante o Web Summit. “Foi uma surpresa inicial, mas agora estamos investindo pesado, na casa dos sete dígitos em dólares”.
Os números são uma resposta ao crescimento da plataforma no país. No ano passado, a Read AI superou a marca de 1 milhão de usuários brasileiros cadastrados na plataforma.
No balanço mais recente, o país registrou um salto de 200% em usuários e uma expansão de 291% em receita na comparação ano a ano. Além disso, o mercado local ostenta a maior taxa de conversão de usuários do plano gratuito para as assinaturas pagas em toda a operação global.
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Para suportar o ritmo, a startup prepara a abertura de seu primeiro escritório físico no país nos próximos 12 meses, provavelmente em São Paulo.
“Foi muito importante para nós nos comprometermos com o mercado trazendo o português brasileiro. Foi um grande passo entrar e dizer ‘nós aceitamos pix’. Tem toda uma configuração para colocar isso para rodar, ser o pioneiro a fazer isso. E acho que o próximo passo é estruturar uma equipe aqui e garantir que as pessoas sintam que estão recebendo suporte localizado nesse mercado”, disse.
De acordo com Shim, o investimento também atende uma demanda crescente de grandes empresas e entidades públicas por um time de suporte local.
Hoje, a Read AI opera com 90% de sua base de clientes concentrada em pequenas e médias empresas (PMEs) e 10% em grandes corporações — um espelho do modelo de go-to-market que adotou nos Estados Unidos antes de fechar contratos de licença corporativa em larga escala.
“Nos EUA, nós éramos 90% PMEs e 10% corporativo também. Quando começamos a avançar, essas empresas maiores começaram a dizer: ‘Olha, temos 40 pessoas usando, precisamos pegar uma licença corporativa’ e implementar a Read AI de forma cada vez mais ampla. Esperamos que algo muito parecido aconteça no Brasil”, afirmou.
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‘Fator reação’
Em um mercado saturado por ferramentas de transcrição de reuniões — onde concorrentes que vão de Zoom e Microsoft Copilot a modelos de linguagem como OpenAI e Gemini oferecem resumos de texto —, a Read AI tenta redesenhar a estratégia de defesa por meio do que chama de multimodalidade analítica.
Dos custos de processamento da companhia, que somam dezenas de milhões de dólares anualmente, 90% rodam em modelos proprietários e apenas 10% dependem de LLMs de terceiros, como Anthropic e OpenAI. Esses 90% são dedicados à “camada de narração”.
“Qualquer um consegue fazer uma transcrição ou um resumo de texto hoje”, diz Shim.
“O que as big techs não fazem é captar a reação às palavras. Nossos modelos analisam se você balançou a cabeça positivamente, se desviou o olhar por tédio ou se acelerou seu ritmo de fala de 150 para 200 palavras por minuto porque estava animado. Essa camada de reação é o nosso diferencial.”
No Brasil, a startup calibrou seus modelos para diferenciar o português local do europeu e para criar uma linha de base de comportamento.
“O brasileiro é historicamente mais expressivo e gesticula mais nas chamadas de vídeo. O modelo precisa entender que isso é o padrão cultural, e não necessariamente que a pessoa está em um pico atípico de euforia. Nós normalizamos esses dados”, explica o fundador.
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Da ata ao ‘Tinder corporativo’
O plano de voo da Read.AI prevê a transição de um sistema de registro (atas e resumos) para um sistema de ação. Recentemente, a empresa lançou globalmente a Ada, um “gêmeo digital” focado em produtividade agêntica.
Ao conectar o e-mail, plataformas de gestão como JIRA, Notion, Confluence, e CRMs como Salesforce e HubSpot, a ferramenta passa a prever os próximos passos do profissional.
“Se você recebe um e-mail cobrando um projeto, a IA cruza os dados das suas últimas reuniões, analisa seu volume de entregas e sugere uma resposta dizendo que o texto sairá em duas semanas, sem que você precise abrir um chat e perguntar nada”, diz Shim.
A lógica de interface, segundo ele, mistura o algoritmo de recomendação do TikTok com a mecânica do Tinder.
“A IA vai te sugerir ações com base no seu histórico e você vai arrastar para a direita ou esquerda aprovando ou descartando. Se aprovar, ela atualiza o sistema final automaticamente.”
Questionado sobre o risco de os agentes automatizarem completamente as interações a ponto de esvaziarem o papel humano, Shim descarta o cenário no curto prazo.
“O ser humano no meio do processo será essencial pelos próximos cinco anos, no mínimo. Alguém precisa ser o juiz para avaliar se as sugestões dos agentes fazem sentido”, afirma.









