Bloomberg Línea — A PUC-PR decidiu dobrar a aposta num ambiente de inovação que conecta universidades, grandes empresas e startups.
A novidade no Hotmilk, ecossistema de inovação da universidade, é o desenvolvimento de um hub para apoiar deeptechs, startups com processos mais refinados e complexos de pesquisas em áreas como IA, ciências e biotecnologia.
A divisão deve receber investimentos de R$ 10 milhões e a previsão é de que esteja operacional no segundo semestre de 2028.
O valor está dentro de um pacote de R$ 14,5 milhões em investimentos para os próximos quatro anos, que contempla ainda a ampliação do Cisia (Centro Integrado de Soluções em Inteligência Artificial).
⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.
O montante é 100% proprietário, e vem do orçamento chancelado pelo seu mantenedor da universidade, o Grupo Marista.
A iniciativa busca fortalecer o ambiente de inovação voltado a startups de base científica, promovendo a aproximação entre pesquisadores, empreendedores, investidores e empresas interessadas em transformar conhecimento acadêmico em soluções de mercado.
Criada em 2014, a Hotmilk, cujo nome carrega um simbolismo na forma como os paranaenses pronunciam “leite quente”, reúne atualmente mais de 200 startups, 161 residentes, que empregam cerca de 5 mil colaboradores no total. Em 2025, esses negócios faturaram R$ 720 milhões.
Leia mais: Google Cloud planeja investimento no Brasil para apoiar expansão, diz CEO global
Infraestrutura e a tese de deeptechs
O valor anunciado de R$ 10 milhões será usado para a construção da área física. Hoje, a Hotmilk já tem um bloco no campus da PUC-PR e ganhará mais dois andares, com uma área construída de 8 mil metros quadrados. O espaço abrigará novos laboratórios e startups.
“A deeptech é algo que tem que ter uma crescente no Brasil, por isso estamos olhando isso com muita força", disse Marcelo Moura, diretor da Hotmilk, em entrevista à Bloomberg Línea.
“O caminho [delas] é mais tortuoso, tem que ter muita paciência, mas é um caminho que entendemos que revoluciona e traz a inovação disruptiva.”
Segundo o executivo, o grande gargalo dessas startups de base científica está em definir o seu segmento (go-to-market), já que a tecnologia desenvolvida costuma ter aplicação horizontal.
Sem o fôlego financeiro de editais governamentais ou o engajamento com os desafios da indústria, o risco dos projetos morrerem é alto. A estratégia da Hotmilk para mitigar esse risco será baseada em um modelo estritamente colaborativo.

O modelo também visa impulsionar o conceito de corporate venture client, em que a grande corporação atua como o primeiro grande cliente da startup, validando o produto e gerando receita perene sem necessariamente exigir participação societária imediata.
“Nós não queremos construir nada sozinho nesse hub de deeptech, queremos que corporações entre junto. As grandes empresas podem patrocinar o laboratório, nós colocamos pesquisadores ou professores da casa, e desenvolvemos as tecnologias juntamente com as startups”, explica Moura.
IA com pessoas
Os R$ 4,5 milhões restantes do plano serão direcionados para o opex de centros temáticos focados em sustentabilidade financeira e perenidade. O primeiro beneficiado é o CISIA (Centro Integrado de Soluções em Inteligência Artificial), que receberá R$ 1,5 milhão para a contratação de pessoal fixo — incluindo gerentes, especialistas e técnicos de IA.
Diferente do modelo anterior, no qual o centro operava sob demandas pontuais e flutuantes de empresas para projetos, a meta agora é criar uma estrutura com vida própria.
O CISIA já conta com uma infraestrutura física e investiu mais de R$ 5 milhões em capacidade computacional de alto desempenho para o treinamento de modelos de IA e algoritmos complexos.
“O investimento vem muito para ter pessoas dedicadas ali dentro fazendo o centro acontecer”, afirma Moura. O foco não é o desenvolvimento de soluções simples de software ou assistentes básicos, mas sim projetos de alta complexidade científica.
Leia mais: Ascenty investe US$ 1,2 bilhão para avançar em data centers para IA no Brasil
Como exemplo, o diretor cita um projeto recente de R$ 2 milhões operado em conjunto com uma startup do hub para uma grande corporação.
O CISIA desenvolveu o algoritmo de ciência de dados e inteligência artificial para predição de falta de estoque nos pontos de venda em nível nacional, enquanto a startup desenvolveu a interface e o software de integração para o cliente final.
Além do hub de deeptechs, a Hotmil pretende contar com mais três hubs até 2030.
A ideia mais avançada é de um centro para healtechs, estabelecido em Londrina, onde a PUC-PR mantém um outro campus.
O espaço deve contar com uma área de 1.500 metros quadrados e a parceria do governo do estado do Paraná, que está em fase de definição de quando aportará para o projeto.
As outras duas verticais são agtechs e climatechs, cujos projetos ainda estão em desenvolvimento. De acordo com Moura, o objetivo, ao criar hubs específicos, não é criar silos, e sim aprofundar os conhecimentos em cada grupo.
“Nós queremos ter foco em algumas temáticas para trazermos maior referência e maior profundidade científica e tecnológica nessas frentes”, afirma.






