Whirlpool vê salto de exportação à Argentina com fábrica em Rio Claro, afirma VP

Em entrevista à Bloomberg Línea, Gustavo Ambar afirmou que a mudança insere a dona de Brastemp e Consul em um novo ciclo de investimento nas Américas, após a Whirlpool Corporation desinvestir da Europa e concentrar capital na operação brasileira

Lavadoras top load (abertura pela tampa superior) da Consul: padrão dominante no Brasil contrasta com as front load (abertura pela porta frontal) que a Whirlpool avalia transferir da Argentina

Bloomberg Línea — A transferência da operação industrial que a Whirlpool mantinha na Argentina para sua fábrica em Rio Claro, no interior de São Paulo, ocorre em um momento de ampliação do poderio fabril da dona da Brastemp e Consul no Brasil e abre espaço para aumentar as exportações à nação vizinha a partir do Brasil.

O conselho de administração da companhia aprovou a internalização da produção antes realizada na planta de Pilar, a 54 quilômetros de Buenos Aires, segundo comunicado ao mercado divulgado na última segunda-feira (20).

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Em recente entrevista à Bloomberg Línea, concedida antes da divulgação da decisão do conselho, Gustavo Ambar, diretor-geral da Whirlpool no Brasil e VP para América Latina, disse que mudança tem duas consequências diretas para a operação brasileira.


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A primeira é o ganho de escala industrial no país, com a absorção de linhas que antes eram fabricadas fora. A segunda é comercial: a planta argentina produzia máquinas de lavar do tipo front load (abertura frontal), padrão mais próximo do europeu, produto que passa a ser fabricado no Brasil para abastecer o mercado vizinho.

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“Na Argentina tem um mercado mais parecido com o europeu. Lá vende mais front load que top load [abertura superior], que é esse produto que a gente estava fazendo lá na Argentina. Agora a gente vai produzir aqui", afirmou Ambar.

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Como parte da operação, a Whirlpool adquiriu os ativos industriais e bens operacionais da Whirlpool Argentina por US$ 36,7 milhões (cerca de R$ 194 milhões), em transação com parte relacionada avaliada por laudo independente.

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A aquisição foi aprovada por unanimidade pelo conselho em 22 de dezembro e concretizada em 23 de janeiro de 2026.

A escolha de Rio Claro reforça o status da unidade paulista como principal polo de manufatura avançada da companhia. A Whirlpool mantém outras duas fábricas no país: Joinville (SC), centro global da operação de refrigeração, e Manaus (AM), voltada a condicionadores de ar e micro-ondas.

Hoje, a única exportação regular da companhia à Argentina é de refrigeradores produzidos em Joinville, fluxo que o próprio Ambar classifica como “marginal”.

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Gustavo Ambar, diretor-geral da Whirlpool no Brasil e VP para América Latina

Rio Claro é também onde a Whirlpool inaugurou, no fim de 2025, a chamada Fábrica do Futuro, primeiro hub de manufatura avançada da rede global do grupo, com meta de elevar em 50% a produtividade das unidades brasileiras nos próximos quatro a cinco anos.

A Whirlpool afirma que a implementação observará um cronograma de transição, com adaptação e instalação dos equipamentos em Rio Claro e ajustes operacionais e logísticos.

A companhia reforça que o abastecimento do mercado argentino será mantido, agora por meio de produtos fabricados em diferentes unidades do grupo e distribuídos pela Whirlpool AR.

O movimento ocorre em um momento em que a abertura comercial promovida pelo governo argentino nos últimos dois anos vem reformatando as rotas de fornecimento da indústria de linha branca na região.

“A oportunidade de exportar para a Argentina aumenta gritantemente”, afirmou o diretor-geral.

Brasil vira prioridade global

A decisão sobre a Argentina se insere em um rearranjo mais amplo da Whirlpool Corporation, que desinvestiu da operação europeia e tem concentrado capital nas Américas.

Para o Brasil, segundo Ambar, isso se traduz em duas forças que puxam em direções opostas: mais pressão por resultado e, ao mesmo tempo, mais espaço para investir.

“A nossa operação se torna mais importante, então a pressão aumenta. O outro lado da moeda é que a gente acaba angariando talvez mais força para investimento”, disse.

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Whirlpool tem como referência histórica investir entre 3% e 4% do faturamento em inovação, melhorias fabris e projetos de redução de custo no Brasil.

Em 2025, esse percentual subiu para a faixa de 4% a 5%, em valores absolutos que superaram R$ 500 milhões ante cerca de R$ 400 milhões em 2023 e 2024. Para 2026, a expectativa é “ficar pelo menos em linha” com o desembolso do ano passado, afirmou o executivo.

A operação brasileira é a segunda maior da companhia no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, e concentra mais de 95% dos produtos vendidos no país sob as marcas Brastemp, Consul e KitchenAid.

Dentro desse arranjo, o Brasil também voltou a ocupar papel central como gerador de caixa para a matriz. “Se você olhar o balanço histórico global, a recomposição de caixa que o Brasil fez sempre foi superior ao que o Brasil representa tanto na receita como no lucro líquido”, disse Ambar.

A combinação entre a geração de caixa local, a taxa de juros brasileira e os desafios da economia americana, incluindo as recentes decisões tarifárias, levou a companhia a elevar as remessas de recursos à matriz em 2025.

Escolhas mais radicais

Se os investimentos avançam, o cenário de juros segue como o principal vetor de pressão sobre as margens. Com a Selic em 14,75% ao ano, o resultado financeiro continua pesando no balanço, e o diretor-geral afirma que a empresa opera sob a lógica de que o ambiente não depende da companhia e por isso exige disciplina redobrada.

“Isso nos obriga a ser ainda mais diligentes, ainda mais radicais nas nossas escolhas, porque é algo que a gente não controla plenamente”, disse Ambar.

“Como é que a gente fica mais leve? Como é que a gente torna o produto Consul mais acessível? Como é que a gente faz o Brastemp mais diferenciado para gerar mais valor?”, afirma.

A pressão se estende aos canais. Com a Selic em patamar elevado, a Whirlpool vem ampliando o suporte aos varejistas, que, segundo o executivo, em média pagam fornecedores antes de receberem do consumidor final. O ajuste também se reflete no balanço, com avanço das contas a receber em ritmo superior ao das vendas.

Para 2026, Ambar projeta um quarto ano consecutivo de crescimento do setor, sustentado pela expectativa de afrouxamento monetário no segundo semestre.

“Até julho, agosto, segue otimismo”, disse. A principal preocupação, afirma, é nova em relação a 2025: a combinação de volatilidade eleitoral no Brasil com a guerra e a pressão sobre o preço do petróleo no cenário global.

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